segunda-feira, julho 23, 2012
Leituras e filmes nas férias
Com todos estes companheiros de viagem, estive em Paris, enquanto me deliciava com o livro "A Elegância do Ouriço", emprestado pelo meu querido amigo Alberto. Apesar do cenário restrito a um prédio de grandes apartamentos de 400 m2, tão pouco usual numa Paris repleta de aps esprimidinhos, pude me sentir por lá durante todo o tempo, passeando pela cidade que conheci há dois anos.
Na sexta-feira, vimos o filme "O turista", com o maravilhoso Jonny Deep e a linda, mas extremamente fria, Angelina Jolie. Confesso, tenho outras preferências entre as atrizes de sua geração, como a própria Catherine Zeta-Jones. Neste filme, fomos transportados para Veneza, o que me fez pensar que preciso urgentemente programar uma viagem para a Itália, que ainda não conheço. Veneza é estranha, com todos aqueles canais e o esgoto despejado nos mesmos, mas também pitoresca... aqui, teríamos o maior nojo de andar por eles, mas lá, eles são a atração...
Assim que terminei de ler o livro emprestado, emendei a leitura de um dos três que me foram presenteados por meu marido, "Marina", do Carlos Ruiz Zafón. Sem saber direito a história, de repente estava em Barcelona, uma cidade que não conheço ainda, mas que já estou aprendendo a amar, por meio da literatura deliciosa deste escritor. Foi de uma só vez. Não que não tenha feito mais nada durante todo o final de semana, longe disso. Mas, o livro é realmente instigante e nos prende em cada detalhe de uma investigação feita pelos protagonistas adolescentes, Óscar e Marina.
Então, marido e eu resolvemos rever "Meia-Noite em Paris", filme que amamos no cinema. Não sei se não estava igualmente inspirada como quando da primeira vez, só sei que achei o filme menos empolgante do que antes. Cheguei a dormir um pouquinho no meio, o que me deixou um pouco frustrada. Dos Woody Allen que já vi mais de uma vez, nada se compara a "Match Point". Enfim...
Agora, estou em Londres, com o Ian McEwan, lendo "Serena". Estou bem no comecinho, e já sinto que vou gostar. Depois desse, acho que me permitirei ler algo sobre o Rio de Janeiro, talvez um Garcia-Roza, quem sabe?!
O bom de tudo isso é que esse contato nos inspira, nos torna criativos, faz que com melhoremos nosso próprio texto e nos dá vontade de conhecer outros lugares, de sair do lugar, o que pra mim é o melhor para não criarmos limo...
E você, pode onde tem andado?
Música do dia: You Know I'm No Good - Amy Winehouse
segunda-feira, janeiro 02, 2012
Tanto a dizer...
Enquanto emudeço e observo os outros, vou lidando com os meus gaúchos, tão presentes na minha vida... De repente, além dos amigos gaúchos que tanto me influenciam, me vi lendo ao mesmo tempo Martha Medeiros, Fabrício Carpinejar, Caio Fernando Abreu e Mário Quintana. Pode isso?
Da Martha, eu já sou fã. Agora, estou apaixonada pelo Fabro e pelo Caio. O Quintana me inspira, não há nem o que dizer.
O que mais me surpreendeu foi a coincidência das capas dos livros do Fabro e do Caio. Olha só...


É ou não muita (ins)piração? Eu me peguei olhando pras capas, os livros lado a lado na minha cabeceira, e vi que estava imersa naquele mundo onde tudo gira em torno do rio Guaíba, dos pampas do interior, cheiros e gostos, do chimarrão, das ruas e praças de Porto Alegre... olha que lindo que é esse lugar...

Um lugar que eu não conheço, mas que sinto já conhecer tão intensamente, que já penso em visitar em breve, apenas para constatar que sei dos cheiros, imagens, paisagens, por tudo que eu li. Ah, benditos sejam os livros e os bons escritores, que nos transportam para lugares incríveis e nos fazem viajar sem sair do lugar.
E enquanto leio, vou abrindo a represa das ideias que estão aqui dentro, para que um dia elas ganhem forma, corpo e som e possam estar aqui com vocês, soltas no vento!
Feliz 2012! Um ano de grandes leituras - e viagens - pra você!
"Fico pensando se viver não será sinônimo de perguntar. A gente se debate, busca, segura o fato com duas mãos sedentas e pensa: Achei! Achei! Mas ele escorrega se espatifa em mil pedaços, como um vaso de barro coberto apenas por uma leve camada de louça."
(Caio Fernando Abreu, Limite Branco, Rio de Janeiro: Agir, 2007, p. 74)
Música do dia: Felicidade - Renato Borguetti
quarta-feira, setembro 21, 2011
Perdendo o medo de cara feia

Estou relendo o livro “Coragem de Crescer”, da psicóloga Maria de Melo Azevedo, da USP. Comprei este livro em 2006, e não me lembro mais o que me atraiu nele: o título, a simplicidade da capa, ou alguma coisa que li...
A autora faz uma discussão em tornos de relatos de casos de pessoas que ela trata, não divulgando os nomes dos pacientes, é claro. E em cada caso, há, inevitavelmente, algo com o que me identifico.
Ontem, estava lendo á respeito de uma paciente que tinha medo das caras feias do pai. Eu tive medo das caras feias do meu pai durante um tempo na minha vida, acho que da pré-adolescência a adolescência, especialmente quando se tratava das notas na escola. Eu era muito fraca em História e Geografia, e papai não admitia notas como 7,0, 7,5. Então, cada vez que eu tirava uma nota dessas, era um sufoco (sim, porque nota vermelha nem pensar). Mas, não eram caras de desprezo, eram caras de reprovação, caras de quem dizia: "você pode fazer melhor!". Um dia, eu me libertei disso, e consegui ir adiante, sabendo que as minhas notas, ou qualquer coisa que eu fizesse na vida, eram de minha inteira responsabilidade e que não adiantava lamentar ou ralhar, o caso era tocar em frente e seguir adiante, para reverter a situação, se fosse possível.
Mas, algumas caras feias ficam. As que a Maria de Melo relata no livro. O trecho é tão bom que vou me permitir reproduzir aqui, com meus comentários.
“(...) Medo de que, afinal, eu insistia (...) Em primeiro lugar, de caras feias (...) Dessa estratégia de apequenar os outros por meio de expressões faciais, “caras e bocas”, como se diz. É uma tática sempre muito eficiente, mesmo com adultos. Imagine então com crianças, como era o seu caso com o pai, na infância. Preste atenção quando estiver com alguém que usa esse recurso. Ele é forte, funciona. A gente diz algo a uma pessoa. Ela fica imóvel, não mexe um músculo. Não dá resposta alguma, nos deixa no vazio. A gente não tem nenhum indício de como lhe chegou aquilo que dissemos. Este conjunto já sinaliza que não estamos agradando muito, joga um pouco de água fria no nosso movimento. Diminui nossa excitação, desvitaliza. Mas a gente agüenta e segue adiante, agora com mais força, colocando ainda mais energia, desejando muito conseguir tocar o tal sujeito, o nosso interlocutor. Aí ele faz algo mais forte: uma cara toda especial, torce o nariz, a boca, numa expressão de quem sente cheiro de merda em algum lugar... E aí, batata! Se você não estiver muito preparada pela vida, começará a cheirar seu sapato para verificar se não pisou no cocô do cachorro. Na próxima tacada do rei em questão, cuidado! Você pode instintivamente cheirar a manga da sua blusa, ou sei lá o quê... As caras dele vão lhe informando que você só fala merda. E em seguida, repentinamente, ele vai mudar de assunto, como se você não existisse e não tivesse falado aquelas besteiras. Como se lhe desse uma chance, apagando generosamente suas ações incompetentes, apagando você! E, é claro, a postura dele indica que a resposta correta de sua parte é agradecer a gentileza... Aí você já estará pequena como um grãozinho de arroz, ou de gente. Gente, a esta altura, você já nem se sente. Encolheu-se toda. E o rei lá em cima, enorme, inatingível. Agora imagine esse tipo de treinamento a vida toda, desde o berço! (...)
O segundo medo é o de abandono (...) Ou seja: as caras feias expressam desprezo. E contêm algo mais perigoso: a ameaça de abandono. Uma chantagem afetiva é jogo duro. Se bobear, (...) é descartada do jogo da vida como um traste qualquer. (...)”
Pensando a respeito, vou me dando conta de que nasci numa família onde muitas pessoas estão habituadas a fazer isso. Não falo de meus pais, que são pessoas tranquilas, e arrisco a dizer, sofrem com isso tanto quanto eu, mas de todo o resto. Eles sempre dão um jeito de te mostrar que você não vale o pão que come, que só fala besteira, que é melhor ficar calada(o). Outro dia, fui a uma reunião de família, uma comemoração de aniversário, e ao chegar em casa, meu marido me perguntou porque eu estava tão calada. Eu disse a ele que havia desistido de falar, que er
a muito sacrifício tentar ser ouvida. Ora, isso não acontece em nenhuma outra situação, em nenhum outro núcleo. Aliás, quando há pessoas de fora da família, o papo rola solto. Mas, com meus ‘parentes’, o que se recebe de volta é sempre uma cara de quem comeu pudim de limão, quando a gente fala. E isso cansa. Ainda mais se você não está habituado a pagar na mesma moeda. Aí vira monólogo, só o ‘interessante’ pode falar, você não. Então, é melhor ficar quieto, observando os tais a fazer o mesmo com os outros e vendo como as pessoas ficam desconcertadas nestas situações. Eles deviam ser filmados e depois, obrigados a assistir as atitudes perversas com as quais agem neste pequeno clã.
O mesmo acontece no trabalho. Uma ou duas criaturas agem do mesmo jeito. A tudo que falamos, a todas as contribuições que damos, a resposta é sempre uma careta, uma cara de nojo. Como incomoda! Dá vontade de perguntar: “Está com fome?” Porque cara feia para mim é fome...
Eu fico me perguntando como é que se aprende a ser assim. Acho que é uma estratégia de defesa, que alguns adotam e outros não. Começa com alguém muito importante, egocêntrico e egoísta, o “rei” daquela casa, ou daquele ambiente de trabalho, e se propaga para todos os que precisam se defender dele e que vão impondo esse comportamento aos demais.
Ainda bem que sou transparente e segura o suficiente para mostrar às pessoas, respeitosamente, que não concordo com os seus argumentos, e que tenho os meus, para sustentar uma discussão saudável e produtiva.
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MELO, Maria de. "A coragem de crescer - Sonhos e histórias para novos caminhos". Rio de Janeiro: Ed. Record, 2005.




