Hoje eu acordei meio triste. Triste que só. Peguei o taxi para o trabalho depois de sofrer para escolher uma roupa. Estava lá, morna, sôfrega, cheia de saudade. É isso, estava explodindo de saudade. Mas, aguentando firme. Entrei no taxi e o motorista ouvia rádio. Músicas tão lindas, mas tão lindas, que transbordei. As lágrimas pingavam sobre a minha calça bege e eu ali pensando que ia chegar inchada no trabalho. Chorei à beça, o motorista ali, me olhando de rabo-de-olho, sem ter muita certeza se eu estava gripada ou chorando mesmo. Eu bege como a calça, mas fechada no meu mundinho triste, com as lágrimas pulando...
É isso, a estratégia é passar em algum lugar antes de ir ao trabalho. Está bem, vou ao caixa eletrônico.
Ao longo do dia, a sensação de desânimo foi passando. Eu fui pensando em outras coisas, trabalhando, trabalhando... A vida é mesmo curiosa. Atividade não me deixou menos triste. Mas, é isso. Um dia estamos bem, noutro um pouco mais amoadas e só nos resta esperar um novo dia... Só não podemos esquecer que somos "da raça da pedra dura"...
Fiquei tão chocada com a tragédia de ontem, no Centro do Rio de Janeiro, praticamente ao lado de onde eu trabalhava, que me peguei chorando ao ver o noticiário hoje de manhã. Coincidentemente, ao abrir o computador, achei o seguinte depoimento do Ted Talk, que havia salvo por ser curto e muito bonito.
Acho que você vai se emocionar!
Ric Elias - Pouso forçado no Rio Hudson (Ted Talk)
Lembro-me do dia em que, sentada à mesa do jantar, provoquei um corte profundo na primeira falange do dedo médio, próximo à unha, que me rendeu uma cicatriz que tenho até hoje. Tinha dez anos. O sangue demorou a estancar, mas não levei pontos.
E de quando ainda mais menina, abri o queixo ao cair sobre o tapete do quarto de meus pais, num salto mal calculado sobre a perna de meu pai. Também não levei pontos. O tempo e um bom esparadrapo colaram aquele lábio extra no rosto, quase não deixou marca. Minha mãe tinha razão, que brincadeira infame.
Lembro-me do dia em que caí do balanço e ralei as costas, na altura das lombares. Por anos, tive ali uma pele mais áspera a me lembrar da travessura.
Eu tinha era muita coragem. Me ralava toda, mas não deixava de brincar.
As primeiras vezes a me equilibrar na bicicleta “de adulto”, aro 20, também me renderam marcas. Estava no prédio dos meus primos, e o bando de meninos que ali viviam resolveu me mostrar que eu tinha que saber como dominar a magrela. Ainda hoje, tenho a marca na perna da ralada contra o muro na altura do joelho, por causa de uma imprensada deles. “Não doeu”, eu disse com o sangue escorrendo na perna, mas olhando firme no fundo dos olhos deles.
Desde sempre foi assim.
A poucos, eu me mostrei sem esse orgulho todo, por inteiro. Na maioria das vezes, o tamanho das feridas e das cicatrizes só viu quem eu amei muito.
Quando pequena, deixava para chorar em casa. Tudo excedia a menina magra e frágil, mas o choro, eu deixava para a solidão da minha cama e o calor do meu travesseiro. Acho que é por isso que eu ainda gosto tanto dele.
A menina foi crescendo e, por vezes, não conseguiu deixar para chorar em casa. Teve sorte de ter encontrado em seu caminho alguns bons anjos da guarda.
Sofri, ri e, no final, já adulta, tive certeza que as maiores cicatrizes não são as físicas, mesmo aquelas tratadas na base da costura, sem anestesia, como o corte que levei na cabeça provocado por um tombo dentro de casa e um acerto em cheio na chave da porta do armário.
As maiores cicatrizes são aquelas provocadas pelas peças que o destino nos prega, pelas frustrações do caminho, pelo excesso de expectativa que colocamos nas pessoas, pela incapacidade que temos em “dar, sem querer nada em troca”. Não fosse esse um dos maiores desafios da vida terrena!!!
As maiores feridas não fecham. Passa o tempo e elas estão lá, latejando, pulsando junto com o coração (aliás, não é ele que está ferido?). Não há abraço que aplaque essa dor, nem cuidado de mãe, a oferecer band-aid e merthiolate, com direito a sopro no final.
A cura para essas feridas tem que vir de dentro de nós, o remédio está aqui, em algum lugar. O tempo é um bom enfermeiro, mas somente a vida é capaz de nos ensinar a viver com elas.
De repente, um sorriso. Fez bem em não pré-julgar ninguém. De um jeito ou de outro, a cumplicidade surge. Pode demorar. Mas, um dia ela vem... em gestos, ou palavras, mas ela vem.
Daquela janela, onde ela olhava a rua e pensava na vontade de não estar ali, já não vê mais o desejo de ir, e sim o de ficar. Aquela casa estranha, esquisita, um pouco feia, vai aos poucos de tornando acolhedora. Os medos - seus e dos outros - se dissipam, e ela não é mais a estranha, nem pra ela, nem pra todos os que a receberam, alguns bem, outros com desconfiança. O caminho não é suave, mas ela não duvida de sua força, nem de sua perseverança (ou seria teimosia?).
Ao caminhar pelo entorno, vai descobrindo uma outra cidade. Bonita, cheia de belas construções, cantos e recantos para conhecer. Ou melhor, para olhar com outros olhos. Tem que carregar uma máquina fotográfica, tamanha é a vontade de gritar pro mundo: "Olha o que eu descobri!"
A vida vai lhe oferecendo devagarzinho uma oportunidade de recomeço, com um sabor de conquista delicioso. O que ficou pra trás, ficou. Hora de sacudir a poeira dos sapatos e da roupa e seguir em frente.
A "forte" estava com dor no peito hoje. Chegou na acupuntura e sofreu quando a terapeuta cravou a agulha no chacra do plexo solar. Tudo nela é angústia e ansiedade. Aos poucos, a dor foi se dissipando...
Dos colegas que a viram hoje, apenas um lhe segurou a mão, e depois lhe deu um abraço apertado. Os demais, como sempre, pediram à "forte" um sorriso, nem que breve. Pediram também um conselho, ou dois. Uma sugestão. Ela foi serena, plausível, racional, engraçada, e encantadora como faz todos os dias. Usou todas as máscaras que dispõe... algumas já tão incorporadas ao seu dia-a-dia, que ela já nem lembra mais como é ser ela mesma. Mas, ela é a "forte", e veio à este mundo para apoiar, suportar, dar força, oferecer um ombro amigo, dar coragem, ela não desiste nunca.
Quando à tarde lhe ofereceram um carinho, ela ficou emocionada só pela oferta...
Foi pra ela uma benção chegar em casa e encontrar um ramalhete de flores de sua irmã. O bilhetinho dizia assim: "Minha irmã, pode não ter sido agora, mas vai acontecer! Lembre-se: tudo, tudo, tudo vai dar pé. Estou na torcida! Amo você. Beijos".