quarta-feira, outubro 10, 2007

Olho por olho...

I
Desceu a ladeira de acesso ao morro apressado, arrumando a camisa, colocando-a para dentro da calça, pensando no quão arriscado era perambular pelo morro às 5 horas da manhã. Tinha pedido a autorização do líder do grupo que controlava o morro, explicado que precisava sair cedo de casa, que às vezes tinha que assumir o turno das 6... Eles consentiram que ele continuasse vivendo ali com sua família, mas ele ficava sempre inseguro. Pensava nas crianças, em todos os riscos que já teve que correr para garantir o “pão de cada dia”...

Era quinta-feira, ele trabalharia dirigindo aquele ônibus até às 13 horas e depois voltaria para casa para continuar a construção da segunda laje. Era cada vez mais urgente terminar o quarto das crianças porque a patroa já não queria mais sexo na frente dos meninos, que estavam crescidos.

II
Ao chegar na garagem, encontrou os colegas e logo veio o Silveirinha falando ao pé do ouvido para pedir favor. “Ô, Moreira, preciso da tua ajuda hoje... quebra o meu galho, eu tenho um lance pra resolver!” “Não dá, Silveira...eu tenho que trabalhar na obra lá de casa...hoje não dá...” “Pó, Moreira, cobre meu turno, vai! Me ajuda, só hoje...eu juro que não te peço mais nada!”

O turno do Silveirinha começava às 16 horas aquele dia. Dia de jogo do Flamengo com o São Paulo no Maracanã. O Moreira não queria encarar este evento, ele sabia dos engarrafamentos, dos problemas, das torcidas organizadas, das galeras que invadiam e pilhavam os ônibus... O Silveirinha insistiu, insistiu, o Moreira resistiu bastante e...por fim, acabou cedendo.

Nem bem conseguiu avisar à patroa que não ia mais voltar cedo para casa, Moreira teve que assumir o volante do 433 – linha Barão de Drummond – Leblon – com um sorriso falso nos lábios e toda a paciência do mundo. Já estava na hora.

III
O dia foi comprido, parecia não passar. Moreira tinha muita competência em fazer seu trajeto no tempo estipulado pela empresa. Quase nunca havia sido advertido por este motivo. Aproximava-se a hora do jogo: 20:30h. Era incrível ver como a cidade ia parando. A Zona Norte, então, parecia que ia dando um nó. Moreira respirava fundo, enchia o peito de ar, pensava na patroa, nas crianças...

Passando pelo Estácio, Moreira sentiu um calafrio. De repente, um grupo de cinco crianças, de 9 a 15 anos, camisas do Flamengo por baixo de um uniforme municipal surrado, entraram no ônibus. Transformaram aquela viagem num aquecimento para o grande jogo. Aliás, naquele dia, todos pareciam estar em função do jogo. Afinal, era um dos lanternas contra o líder isolado do campeonato. David contra Golias, que era apoidado pela maior torcida do Brasil.

IV
O ônibus que Moreira dirigia naquele dia não era muito sofisticado, não tinha ar condicionado, mas era novo, devia ter no máximo dois anos e meio, se ele não tinha errado nas contas. Havia pouco tempo que a empresa tinha renovado a frota. Mas, era um “quentão”, como o povo chamava. Num engarrafamento como aquele, Moreira deixava as portas abertas, contrariando a recomendação da empresa de só trafegar com as portas fechadas. Grande erro esse seu.

Com aquele bando de crianças dentro do ônibus, era de se esperar que elas fossem inventar alguma coisa para passar o tempo. E criança adora brincar com o perigo. O líder do grupo, Quinzinho, decidiu que a onda era viajar pendurado na porta, segurando as alças de apoio da escada traseira. Foi rapidamente seguido pelos demais, que se alternavam na brincadeira perigosa. O vai-e-vem na porta e a algazarra começaram a perturbar os demais passageiros, que volta e meia viravam-se apreensivos para o fundo do ônibus. Afetaram também ao trocador e ao próprio Moreira, que já não sabia mais se concentrava sua atenção no trânsito engarrafado ou no que estava acontecendo dentro do ônibus.

De repente, como se encontrasse uma solução para o problema, e vendo o engarrafamento se dissipar a sua frente, Moreira decidiu fechar as portas. “Pronto, resolvi. Acabou!”

V
No meio do barulho de buzinas e roncos nervosos de motores daquele grande engarrafamento, Moreira então passou a ouvir gritos. “Meu pé, meu pé! Meu pé ficou preso! Ai, meu pé! Solta o meu pé!” “Moço, abre a porta, solta o pé dele, moço!” Os gritos passaram a ser cada vez mais altos, acompanhados de murros nas laterais do ônibus: “Motorista, abre a porta! Solta o meu pé! Meu pé ficou preso, motorista!” Moreira não queria acreditar que aquilo estava acontecendo, que um dos meninos havia ficado com o pé preso na porta.

Aos poucos, todos começaram a gritar e a esmurrar as laterais do ônibus. Os passageiros gritavam que era verdade e pediam que o Moreira, atônito, abrisse a porta do ônibus. Ele, numa espécie de transe, se levantava repetidas vezes para se certificar que aquilo estava mesmo acontecendo, sem, contudo, fazer o que as pessoas pediam, abrir a porta.

VI
O pé esquerdo do menino já estava ficando roxo quando o trocador gritou para o Moreira: “Porra, Moreira, abre a merda da porta! Agora!”

Solto daquela ratoeira, o pequeno e enfurecido líder do grupo resolveu que o ataque merecia uma vingança. Nestas horas, não se sabe como, sempre aparecem paus e pedras para servir de instrumentos para depredar e ferir. Moreira esperou pelo pior, como se o calafrio que sentiu já lhe tivesse avisado de que algo ruim fosse acontecer.

Janelas quebradas, pára-brisas rachado, laterais amassadas, passageiros aterrorizados...esse era o quadro que aquelas cinco crianças estavam pintando para Moreira.

VII
“Porra, Moreira, você está lesado? Por que demorou tanto a abrir esta porta?”, bradou o trocador, já recolhendo a féria do dia e pulando do seu assento, para encolher-se no corredor do ônibus.

Os passageiros então começaram a engrossar o coro do trocador. Um homem, de aproximadamente quarenta anos, partiu para cima do Moreira, questionando-lhe porquê ele havia exposto a todos daquela forma. Assustado, Moreira viu que, mesmo que ele não tivesse feito aquilo de propósito, não tinha aliados naquele ônibus. Ao contrário, já havia sido julgado, condenado, e só Deus sabia qual seria a sua condenação.

Pensando em levar o que sobrara do ônibus até uma delegacia de polícia, Moreira não percebeu que os passageiros se aproximavam dele com ganas assassinas.

VIII
Para sua sorte, uma patrulhinha se aproximava do local e seus ocupantes, dos policiais das antigas, conseguiram evitar o linchamento. Muito machucado, Moreira foi conduzido à 18a. DP, sem a companhia de seu colega trocador, que já tinha sumido muito antes deste desfecho.

O Flamengo venceu o São Paulo com um inexplicável 1 x 0. Segundo os comentaristas, foi a força da enorme torcida que empurrou o time.

Moreira havia acabado de sentir na pele a força de outro grupo. Todo o seu corpo doía. Já eram mais de onze horas da noite quando o delegado liberou Moreira para seguir para a garagem da Companhia com um Registro de Ocorrência que relatava a depredação e o quase linchamento.

IX
Chegando à garagem da empresa, Moreira não percebeu dois homens do outro lado da calçada, observando seus passos.

Entrou, procurou o supervisor, entregou-lhe o RO e, envergonhado, contou-lhe o que acontecera ao ônibus. Teve que ouvir, mais humilhado, as repreensões do homem e, por fim, perguntou se podia ia para casa. Seu dia derradeiro estava quase no fim.

Ao fechar o portão de ferro atrás de si, Moreira sentiu uma mão em seu ombro e ouviu alguém perguntar: “Moreira, do 433?” Foi o tempo de se virar para o sujeito e sentir um tremendo ardor queimando o pé esquerdo: um tiro dilacerante, de armamento pesado. Nem teve coragem de olhar para seu pé.

O homem que lhe chamou ainda riu, enquanto o outro jogou-lhe um bilhete.

“Da próxima vez, pense rápido, seu Mané! Ass. Quinzinho”

domingo, setembro 02, 2007

A casa da minha mãe

Hoje estive lá. Depois que me casei, demorou um tempo para que eu parasse de chamar aquela casa de minha casa. Voltar lá e não me encontrar sempre me pareceu improvável. Foi lá que vivi a maior parte da minha vida, que sofri por meus amores fracassados, que recebi meus primeiros buquês de rosas, que chorei, que estudei, que fui feliz, que me refiz.

Hoje aquela casa já não é mais a minha casa. Não tem mais os meus sinais, não tem mais nenhum rastro meu. Naquele quarto em que vivi por tantos anos, nem o meu velho armário se parece com o meu velho armário de guerra. As minhas roupas nem caberiam mais naquele espaço...

Na minha casa, é tudo tão diferente... e ao mesmo tempo, tão igual. É daquela casa a maior parte das referências que pontuam a minha casa.

Por que a minha casa é o meu lar... lar...

sexta-feira, agosto 31, 2007

A Moebius strip

Five years. There she was, alone again. After five years of a solid relationship, Valentina was – not-naturally – alone. And she didn’t know what to do. She was totally lost. When she looked back, she didn’t find the reasons that lead to that break-up. She knows that she had something to learn with that so fool-end, but what? And much worse than this was to look ahead and not knowing what to do and how to re-start. Why now if everything seemed to be ok?

During that time she spent with Peter, she passed through moments of hapiness, but also, through moments of a completely loneliness, even when they were together. It was always too uncomfortable, but now, time has changed and she was feeling actually abandoned. In those moments with Peter, she felt that he didn’t know her and also what she wanted. Now alone, she was in a more terrible situation: it was like she didn’t know herself.

Maybe it was just a case of therapy. She should ask for a meeting with her therapist, talk about her feelings, fears and any sort of silly stuffs she could think about that email. Yes, my dear, it’s true: he broke up by sending me an email. Few words, but a lot of poverty. She knows that the best medicine to this kind of problem was talking about, speak with someone who could listen and help to understand all the whys involved. However she feels a kind of inactivity; she didn’t manage even to hang up the phone.

Her life was not simple and she spent a lot of years to understand that things would not come easy to her. Some of the most important men of her life gone away in an un-waited unwanted way, without any signs. Some times, she felt like being in a Moebius strip, with no beginning and no ending, like a curved road. The fact was that she was not prepared to that separation.

She had made a lot of plans for their future, she had talked about all of them in details to him, she had reserved money to implement them, and he did not say anything. In what moment he had changed his mind? She couldn’t notice his change… she couldn’t notice anything.

She knows that Peter was important to her for a lot of reasons, for being her best friend, for being her support in the most difficult moments, even contributing with money when she needed, helping her to pay for the apartment she was living now. Peter was a good man, polite, fair, honest, but a little selfish and self-centered. Sometimes, she could feel that he didn’t need anyone else to be happy, just himself, his CDs, his DVDs and books. He was so material! He was not a person who enjoyed going out in a Saturday night to see and be seen. And she feels like he wouldn’t ever change his behavior. Most of those times, Valentina feels like having stolen moments.

What am I to him?, Is he ashamed to go out with me?, she asked herself a lot of times. She loved him a lot, exactly the way he was, with all those qualities and faults. But it has been a hard job to stand by all those strong characteristics, without complaining, and having to say yes to some unacceptable things. She used to imagine him looking at her like a mother or a courtesan, even like a sister, but never as a lover, as his lover. Why it was so hard to him to love me in the way I wanted? Why it was so difficult to him to look after me, to show me that he was concerned about me? Why is so important to me to find an answer to all these questions?

Valentina was now a 35 year-old woman, with no marriage, no babies, and no expectations for her future. It was time to be an easy rider, time to be free, to meet a lot of new people, to see a lot of new movies and plays, to find new places to go, to look for new friends and also for the oldest ones, to take care of herself, to spend her now big earnings. She knows everything about the magic formula to forget a man, but it seemed to be impossible. Not that man, my man.

Each time Valentina started to think about the whys and all that stuff, Peter seemed to be even more special to her. With a little detail: he was the man that broke up with me by email. He has been coward since then. He didn't give her a single call. He didn't appear to talk, to explain his decision, to tell her his reasons. He made nothing.

She tried to be with any sort of people, she also tried the new way of meeting: the blind date. And it was terrible. Even though she knew that she had to be patient, as long as the time was going by, Valentina felt that hers was ending. Just five years have passed, how can things change so much? What are the new codes? How can I see a man and notice that he is interested on me? How can I establish contact?

One day, when she didn’t expect anything else from Peter, he appeared in her front door. It was another silly situation she wasn’t prepared to face. Knoc knoc knoc. Valentina, are you there?, he asked loudly. Valentina couldn’t answer, she didn’t know anymore if her feelings were the same they were before. Valentina, will you not open this door? , Peter seemed to know everything he wanted now. Valentina opened the door and gave her back to him, walking toward the window in the wall in front. She was not prepared to that, but she could listen to him.

Valentina, I thought a lot about us… I'd like you to forgive me… I want to come back home; I need to be with you, in your life. Is it possible to think about my proposal? May I come back? Are you hearing? You’ve to remember our love, our good moments. I know you must be sad about the way I left, but I was afraid of not being as good as you wanted me to. Can you forgive me?

What seemed improbable finally happened. He was there, asking, needing, begging. Valentina didn’t have any reaction, didn’t say any word, didn’t look at his face. Peter left in the same way he arrived: fast. Valentina felt reborn. She had learned. She forgot him.

sexta-feira, julho 27, 2007

Um pouco de coragem...

I
Eram exatamente cinco horas em ponto quando ela desceu a plataforma do metrô. Teve tempo de olhar o relógio, pois o trem acabara de partir e ela já sabia, por experiência, que, naquele horário, um novo trem levaria cinco minutos para chegar. Enquanto isso, ficou se distraindo com os detalhes daquele ambiente antigo, talvez porque aquela tivesse sido uma das primeiras plataformas a serem construídas na cidade. Duas escadas, lado a lado, lajotas retangulares de cor creme, a mesma música clássica de sempre, piso emborrachado negro, duas vias paralelas, uma para o trem que segue em direção a Zona Sul, outra para o que vai para a Zona Norte.

Já se iam oito meses que eles estavam separados. A saudade, que em alguns dias era maior, noutros menor, naquele chegava a doer. Ela ficava se perguntando: "será possível perdoar alguém sem que seja possível esquecer o que esta pessoa lhe fez"? Ela sabia que o que havia feito a ele tinha sido muito grave, aos olhos dele, e que dificilmente, ele conseguiria passar uma borracha sobre tudo que aconteceu e aceitá-la de volta. Mas isso era exatamente o que ela mais desejava, o que ela pedia a Deus todos os dias, um perdão. Depois do relacionamento que tivera com ele, ela tentou outros relacionamentos furtivos, bobos até, sem maiores conseqüências. Alguns serviram para provar que ela ainda era muito boa de cama. Outros se tornaram entediantes, já que o diálogo, quando existia, era de péssima qualidade. Enfim, nada, nem ninguém, conseguia tirá-lo de dentro dela... E ela estava cansada de tentar esquecê-lo, de tentar descobrir uma fórmula para esquecer um grande amor com outro amor (não era isso que suas amigas sempre lhe diziam?)...

Pensando nisso tudo enquanto olhava para aqueles cartazes de propaganda que enfeitavam (ou enfeiavam?) a parede da estação, percebeu que o trem, que seguia para a direção oposta a que ela pretendia seguir, aproximava-se da estação praticamente vazio. Nem parecia que eram cinco da tarde (cinco e três, para ser mais precisa). E ele estava lá, dentro do vagão que estacionou em frente a ela. Sozinho, de costas, de pé. De pronto, ele não a viu, mas como se tivesse sentido a sua presença, virou-se na direção dela. Quando descobriu ela ali, do outro lado da estação olhando para ele, ficou sem ação, sem graça, e abaixou a cabeça. Depois, a levantou ligeiramente, olhou novamente para ela e sorriu com o canto da boca, meio sem saber o que fazer. Ela, emocionada, queria fazer um gesto qualquer, queria pedir a ele que lhe telefonasse, mas, ao contrário, nada fêz. Continuou de pé, olhando para ele, sentindo seu coração acelerar e temendo que, a qualquer momento, ele pudesse sair-lhe pela boca. O trem fechou as portas e começou a acelerar. E foi sumindo dentro do túnel escuro.

Cinco e quatro. O trem dela começava a aproximar-se. Ela já estava atrasada para o seu compromisso, mas, mesmo assim, assistiu ao trem chegar a plataforma, abrir as portas, deixar passageiros, receber novos deles, e partir. E continuou imóvel, torturada por sua total falta de ação. Uma lágrima escorreu pelo canto dos olhos e ela tentou disfarçar para que não vissem que ela estava chorando. A maquiagem borrou um pouquinho, mas ela logo conseguiu consertar a “máscara”. "Como alguém que quer tanto uma chance pode deixar que ela escape assim, por entre os dedos"?

Cinco e oito. Um novo trem se aproximava. Recomposta e decidida a aproveitar a próxima oportunidade, ou a descolar uma para dar uma ajudazinha no destino, ela resolveu que iria seguir neste trem, pois seria de muito mau gosto deixar suas amigas esperando.

Quando a porta se abriu, lá estava ele, de pé, olhando para ela. Estendeu-lhe a mão, praticamente pedindo que ela entrasse no vagão. Havia descido na estação seguinte, retornado e ficara torcendo, no seu íntimo, para que ela não tomasse a composição que aparecesse imediatamente, dando-lhe tempo de chegar ao seu encontro. Aquele tempo longe dela havia sido muito difícil para ele também e ainda doía muito saber que ela o traíra com um antigo namorado, ainda mais por ter sabido da história por ela mesma.

Ela entrou no vagão e ficou olhando para ele. “Para onde você está indo?”, ele perguntou. “Para a estação do Flamengo, encontrar com a Lúcia, a Bella, a Renata e a Malú, lembra delas?”. “Claro que sim”, ele fitou seus olhos, “então temos alguns minutos para conversar”... “Que bom que você voltou”, ela lhe disse, ainda emocionada... “Estava indo para casa?”. “Não, não moro mais por aqui. Estava vindo apenas checar se havia alguma correspondência para mim com o porteiro. Mas, posso fazer isso outro dia”. A respiração dele também estava bastante ofegante. “Como você está?”, ele sussurrou para ela. “Na verdade, estou indo. Está tudo na mesma. Continuo com o mesmo trabalho, no mesmo apartamento, saindo com as mesmas amigas. Mas, sinto muito a sua falta, esse sentimento é novo”, ela respondeu em tom confessional. “Será que não poderíamos tentar ser amigos? É muito difícil?” “É! Você nem sabe quanto!”, ele retrucou.

Então, eles ficaram um bom tempo se olhando, como se ali não houvesse mais ninguém, ignorando o vai-e-vem das portas, como se quisessem fazer algo que não pudessem. Como se o certo fosse errado e o errado fosse o mais certo possível. Estavam tão próximos, que ela podia sentir seu hálito quente, seu perfume fresco e agradável, amadeirado, sua respiração. Ele estava suando frio, podia perceber. Olhava para ela como que se quisesse lhe dizer alguma coisa, mas não disse.

Ela respirou fundo e pediu: "Se você mudar de idéia, me liga?" "É claro", ele respondeu. Ela então beijou-lhe o rosto e desceu na estação do Flamengo, deixando um ex-namorado para trás, visivelmente perturbado com o encontro.

II
Encontrar as amigas era um costume freqüente de Rafaela. Pelo menos uma vez por semana, em geral aos sábados, elas se encontravam para fazer um lanche e colocar o papo em dia. Na maioria das vezes, conversavam sobre namorados ou potenciais namorados. Às vezes, sobre “ficantes”. Esporadicamente, sobre trabalho. Elas eram amigas há muito tempo, desde os tempos da faculdade. Cada uma tinha seguido o seu caminho. Não trabalhavam na mesma empresa, mas tinham mantido a amizade. Quanto mais o tempo passava, mais elas tinham a certeza de que tinham umas as outras.

Rafaela parecia um pouco distante para as amigas naquele dia. Apesar de ser a mais tagarela, ela pouco abriu a boca. A conversa foi entremeada por “hum, hum”, “hã, hã” e outros murmúrios, e ela sequer chegou a emitir sua opinião quando Bella contou ao grupo que estava pensando em largar o emprego para cuidar exclusivamente da casa, do marido e das crianças, uma atitude impensável para Rafaela tempos atrás, quando ela teria sido a primeira a bater boca com a amiga, alegando que isto não era atitude digna de uma mulher do século XXI. Elas eram “balzaqueanas” agora, sentiam o peso da idade, mas adoravam ter a experiência que os trinta anos traziam.

Rafaela estava longe. Só conseguia pensar no encontro com Cezar, em como ele a havia olhado, em como ela gostaria de ter lhe abraçado e confessado que ainda o amava, correndo o risco de ser novamente desprezada por ele. Pensava também se deveria contar para as amigas sobre o encontro no metrô, por um lado temendo pela reação delas, por outro, querendo um conselho, uma direção, uma palavra que lhe servisse de amparo.

O lanche não se estendeu muito naquele dia, porque, coincidentemente parecia que todas elas tinham mais o que fazer. As amigas se despediram e Rafaela resolveu que ia andar até o Museu da República, para espairecer e pensar um pouco. No caminho, pensava se Cezar ia conseguir perdoá-la e telefonar para que conversassem um pouco mais. “Mas como perdoar, se ele não consegue esquecer?”, ela se perguntava. E ela, será que já tinha se perdoado pelo que tinha feito? Por que às vezes temos a impressão de que o desejo sexual por uma pessoa é mais forte do que o amor que sentimos por outra? Por que as pessoas não pensam nas conseqüências antes de agir por impulso?

Chegando ao Museu, percebeu que ele estava fechado. Os funcionários estavam em greve, já há dois meses, e Rafaela havia esquecido completamente deste detalhe. Não lhe restou muita opção a não ser tomar novamente o metrô em direção a Tijuca. Talvez tivesse vontade de andar um pouco mais e descesse no caminho.

III

“Por que é tão sério quando o traidor é a mulher, e tão mais fácil de aceitar quando quem trai é o homem?” Rafaela sabia que essa sua pergunta podia ser vista como uma tentativa desesperada de se desculpar, ou de minimizar o problema, mas o fato era que a sociedade perdoava mais facilmente um homem que trai do que uma mulher que o faz.

Ela foi para casa e ficou pensando no encontro, pensando em quantos dias Cezar ia levar para tomar uma atitude e telefonar, pensando se Cezar ia tomar uma atitude qualquer, ou se virar a página daquele relacionamento tinha sido a sua primeira e irreversível decisão. Lembrou-se do quão difícil fôra definir que o relacionamento que mantinham era um namoro. Ficaram juntos dois anos até começar a dizer para os amigos que estavam namorando. Disseram-se amigos por muito tempo e quando assumiram seu relacionamento, sentiam que já se conheciam muito bem. Ela sabe o quanto deve ter feito Cezar sofrer com aquela revelação, já que tudo ia bem, que eles estavam bem, se gostavam, se curtiam, saiam bastante e ele não havia notado nada de diferente nela. Nem ela sabia como ele não havia notado nada de diferente nela. Talvez ele simplesmente não quisesse notar que ela estava diferente e distante no final.

IV

"Por que razão eu não percebi que estava acontecendo algo no final do nosso namoro? Ouví-la confessar que me traía foi pior do que descobrir por mim mesmo, me mostrou o total desconhecimento sobre aquela mulher, aquela que eu dizia que amava, aquela que eu achava que conhecia bem, que queria para mim, para o resto da minha vida". Do outro lado da cidade, Cezar estava pensando, pensando, pensando em Rafaela, desde a hora em que ela se despediu dele com um beijo no rosto e ele ficou desejando que tivesse sido na boca, quente, molhado, como era antes.

O que era adequado fazer nestas situações? Encarar o fato de que ele ainda não estava preparado para viver longe dela ou suportar a dor da saudade e evitar os reencontros? Como afinal aquele encontro casual fôra acontecer? Por que, de fato, ele havia decidido voltar e encontrá-la? Por que ele teve tanta certeza de que ela estaria lá, parada, aguardando o próximo trem? Será que ele estava preparado para ser só amigo?

V

Quando o telefone tocou três vezes e parou, Rafaela percebeu que teria que ser rápida na próxima vez e atender. Era o Cezar do outro lado, ela sabia, e ele poderia desistir, se ela não atendesse rapidamente.

O telefone tocou novamente e ela imediatamente atendeu. "Alô!", disse afoita. "Alô! Rafa, é você?" Bingo! Era ele. Dois dias haviam se passado até que algo mudou. Ele ligou. Parecia que ele tinha muito pouco a dizer, mas muito para falar. E queria ouvir também. "Vamos nos ver?", ele pediu. "Claro, onde?" "Olha, abriu um bistrô muito simpático aqui perto de casa, na Rainha Guilhermina, a gente pode se encontrar na esquina da Rainha com a General San Martin, você conhece?" "Conheço, te encontro em 40 minutos, pode ser? É o tempo de me arrumar e tomar um taxi!" "Pode. A propósito, o que você está escutando? É a Norah?" "É, 'Come Away With Me', seu disco favorito, lembra?" "Lembro. Engraçado, eu não escuto este disco desde que a gente se separou!"... "Eu também não o escutava há bastante tempo, mas hoje me deu vontade de ouvir 'Turn me on'. Você lembra como eu gostava de transar com você ouvindo esta música?" "Lembro... mas vamos deixar para conversar pessoalmente? Estou te esperando! 40 minutos. Não se atrase. Beijo".

Quando ela desligou o telefone, nem acreditou que aquilo tinha realmente acontecido. "Será que estou sonhando?" Então, ela começou a travar uma batalha muito pessoal: "com que roupa vou a este encontro?" Não tinha muito tempo, tinha sido muito otimista em dizer que conseguia chegar lá em 40 minutos. Começou a se lembrar do que a fazia sexy para Cezar, antes daquela confusão toda com Marcelo. Depois, lembrou-se de que o que ele mais apreciava era o seu jeito natural, pouca maquiagem, roupa confortável, cabelos molhados. Foi por este caminho. Escolheu uma roupa confortável e caprichou nos acessórios...e pôs um bom perfume. Ligou para a cooperativa de taxis que fazia ponto próximo a sua casa e pediu um que tivesse ar condicionado, para os próximos 10 minutos.

Quando o taxi chegou, viu que o motorista já era seu velho conhecido. Ele já a tinha visto chorar várias vezes dentro daquele taxi nos últimos oito meses, e naquele dia, pôde perceber que ela estava feliz. Ansiosa, mas feliz. Pediu que a levasse para a esquina onde haviam combinado o encontro, e que fosse pelo caminho mais curto, pelo amor de Deus, que ela não podia se atrasar. Ele até quis perguntar o que havia acontecido para trazer àquele rosto um novo sorriso, mas acabou achando que seria muito atrevimento. Ela seguiu calada até o final da viagem...sonhando acordada com o que iria acontecer.

VI

"R$ 45,00? Nossa, essa 'bandeira dois" é cara mesmo, heim? Toma, pode ficar com o troco. Valeu! Até a próxima!"

Ao chegar a esquina de General San Martin com Rainha Guilermina, nada do Cezar. Já havia se passado 50 minutos. Ele não poderia estar atrasado, já que disse que esta esquina ficava próxima a sua nova casa. "Quem diria, ele que dizia que nunca moraria na Zona Sul, veio parar logo no Leblon?"

Ficou andando de um lado para o outro, olhando as vitrines do Shopping e nada do Cezar. "Será que ele desistiu de me esperar e foi embora?" À medida que o tempo ia passando, ela ia se angustiando cada vez mais. Afinal, resolveu tentar o celular dele para ver se algo havia acontecido.

VII

"Alô, Cezar? Sou eu, Rafa, cadê você? Desistiu de me esperar?"

Cezar estava olhando para ela do outro lado da rua há uns 20 minutos, em pé, no balcão de uma lanchonete, tomando coragem para atravessar. Ver aquela que fora a sua mulher descer do taxi e ficar andando de um lado para o outro na maior ansiedade, deixou-o ainda mais confuso e inseguro. Ele tinha demorado tanto tempo para tirá-la da cabeça, não podia ser tão tolo de tentar recomeçar aquela história agora. Por que será que seu coração era tão insano?

"Oi, Rafa, não, não desisti, não! Estou chegando, é que eu tive um imprevisto. Me espera cinco minutos". Pagou a conta e atravessou a rua. Foi tão descuidado que quase foi atropelado, mas ela sequer percebeu a confusão.

"Rafa"..."oi, cheguei". "Oi, Cezar, que bom que você veio." Os dois se cumprimentaram educadamente, formalmente até, e foram caminhando lado a lado pelas ruas do Leblon, em direção ao tal bistrô. Cezar havia escolhido um lugar tranqüilo para que conversassem, mas sabia que a conversa não ia ser fácil.

"E então, agora você acredita que podemos ser amigos?", perguntou Rafaela. Cezar balançou a cabeça negativamente, para surpresa dela. Depois de pensar um pouco, ele respondeu: "Eu nunca quis você para minha amiga, nem na época em que nos dizíamos amigos para os nossos amigos". Então foi Rafaela que não soube o que dizer ("O que ele quer com este encontro, afinal? Me pregar um sermão? Me culpar novamente por tudo o que aconteceu?").

"Então... o que vai ser?", perguntou o garçon. "Para mim um capuccino, para ela, café expresso, com creme. Adoçante, por favor", Cezar tomou a liberdade de pedir, visto que sabia de cór o que ela gostava de beber. "Você vai querer comer alguma coisa? Aqui eles têm umas empanadas deliciosas, fora as tortas". "Não, obrigada, estou tentando uma dieta agora".

"Bom, eu liguei para você por que acho que tínhamos que conversar. Depois que nós terminamos, não tivemos mais a chance de conversar. Naquele nosso encontro no metrô, senti que estávamos precisando de perdão. Eu precisava te perdoar pelo que você fêz, precisava me perdoar pelo que eu não fiz, precisava nos perdoar por não termos insistido e por termos desistido tão facilmente... O fato é que eu achava que você era a mulher da minha vida. E achava que o Marcelo era um amigo, ele não podia ter feito isso comigo, nem com você... Aliás, por que vocês não estão juntos agora? Não era o que ele queria?"

"Não, não era. Ele só queria provar que, apesar de estar com você, eu ainda gostava dele. Só isso", respondeu Rafaela, meio envergonhada com a pergunta.

"E era verdade? Ele conseguiu o que queria, não foi?"

"Não, o que eu sentia por ele era algo inexplicável, até para mim. Mesmo sabendo que aquilo não daria em nada, visto que não deu por cinco anos, eu não consegui resistir a ele, não consegui ser mais forte do que ele, e sucumbi ao desejo"... "Mas eu estava muito bem com você, muito melhor do que estive nos cinco anos que estive com ele, tenha certeza disso."

"E depois ele te dispensou?", perguntou Cezar.

"Não, nós dois chegamos a conclusão de que aquilo era novamente um erro. Muito rapidamente percebemos o tamanho da besteira que estávamos fazendo. Mas, para mim, já era tarde demais"... "Depois, conversando com o André, fiquei sabendo o quanto você havia sofrido. Foi tanto, que eu não pude acreditar. Você foi tão frio quando eu te contei o que estava acontecendo... realmente, acho que você merece um Oscar por sua atuação...eu não percebi que aquilo estava te afetando tanto, não percebi mesmo"... "Mas, eu nunca achei que o Marcelo não era nosso amigo...ele é apenas um cara egoísta e egocêntrico, e sempre vai pensar nele primeiro"...

"Então não serve para meu amigo. Aliás, eu me mudei para cá para começar de novo, fazer novas amizades, me livrar daquela perspectiva insana de esbarrar com vocês a qualquer momento"...."Estou gostando, morar perto da praia é realmente um luxo. Faço caminhadas todos os dias."

"É, você está muito bem, em ótima forma".

De repente, o que ela temia aconteceu, um tremendo silêncio se estabeleceu entre eles. Ela mal conseguia olhar nos olhos dele e ele estava ali, quieto, bebendo o capuccino, sem dizer palavra. Minutos depois, ele perguntou se ela não queria continuar a conversa no calçadão. Ela não estava em condições de discordar, queria apenas que aquele encontro se perpetuasse, que fosse para sempre.

Era inverno, estava frio. Ele passou o braço por suas costas, como fazia quando eram namorados, e, quase que automaticamente, enrolou o dedo em seus cachos, devagarinho. Ela sentiu uma sensação tão acolhedora, ele ali, o mar, um dia de sol fraquinho e um pouco de vento, a paisagem perfeita. De repente ela parou de andar, passou a mão pelo seu rosto e o beijou na boca, da forma como ele gostava, docemente, mas, ao mesmo tempo, quente, um beijo molhado e cheio de desejo. Ele não resistiu e se entregou a ela.

E eles ficaram ali, compondo a paisagem, sem dizer mais nada, se perdoando.

VIII

Cezar fêz sinal para um taxi qualquer e disse que ligava para Rafaela. Ela entrou no taxi e disse que ia esperar. Se foi só o encontro derradeiro, o tempo ia dizer. Quem teria mais coragem para recomeçar aquela história? Quem seria capaz de confiar depois de tudo? Qual o preço a pagar? O tempo... o tempo ia dizer.

quarta-feira, julho 25, 2007

Solidão padronizada

Ela estava sentada de frente para a grande janela de sua sala olhando para a paisagem lá fora, às quatro da tarde de uma quarta-feira, pensando porquê ela estava em casa, apesar de estar de férias. Chovia e ventava muito, mas há muito tempo ela sabia que não era feita de açúcar. As férias não haviam saído como ela havia planejado, mas ela precisava daquele tempo para repor as baterias, para descansar, ficar um tempo longe do trabalho, das infindáveis preocupações de todos os dias...era preciso ter um tempo para ficar de bobeira, fazendo nada, mas de forma consciente, sem se preocupar com o que estava para acontecer no dia seguinte.

Não conseguira planejar uma viagem. Então acabou ficando em sua cidade mesmo, sem dramas. Na cabeça, um pensamento insistia em voltar: por que ele sumiu? Por que não deu mais notícias? Por que ninguém mais fala nele? Nem parecia que ele estava para voltar...

Com estes pensamentos insistentes em sua cabeça, ela começou a se questionar sobre os seus padrões: por que será que ela sempre insistia nos mesmos caras, nos mesmos tipos? Por que sempre se interessava por aquele cara enigmático, com tão pouco amor e carinho para oferecer? Era sempre o cara mais velho, mais bonito, mais inatingível!

Será que este era o padrão: gostar de quem é inatingível? Muitas vezes, ela se perguntou se este era um problema que só ela possuía, que talvez, em seu lugar, a maioria das mulheres já tivesse desistido há muito tempo de um cara como este. Mas, ela não, ela continuava sentindo saudades dele, fantasiando uma vida juntos, como namorados, como amantes, nem ela sabia mais de que forma.

Será que todas as mulheres sempre seguem um determinado padrão para buscar seus homens? Há aquelas que buscam os desprotegidos; outras querem alguém que as proteja. Algumas buscam um homem para competir, outras um eterno romântico, tem também aquelas que não suportam “grude”, sentem-se perseguidas, enaltecidas, endeusadas e odeiam isso. Enfim, todas buscam um padrão: seja um homem mais forte, ou mais fraco; mais romântico, ou mais frio; mais doce, ou mais rude. E eles? Também estão atrás de um padrão de mulher ou querem apenas ter ao seu lado uma mulher com quem possam testar a sua virilidade?

Eram muitas perguntas sem resposta. Do lado de fora, o tempo piorava. Ela então decidiu que, se era para continuar sozinha e em casa, teria que buscar alguma companhia. Acendeu um cigarro e abriu uma garrafa de vinho tinto... seco. Ficou saboreando o vinho, pensando, ao mesmo tempo, que sem o maldito tabagismo talvez ela pudesse apreciá-lo muito mais. No fundo, no fundo, queria afastar da cabeça mais um pensamento estranho que insistia em perturbá-la: qual seria o padrão de mulher dele agora? Como seria esta tal namorada que o faz tão feliz atualmente? E por que é tão difícil conviver com o fato de que ele não está mais sozinho e está muito feliz – sem ela?

Durante muito tempo, foi difícil ter que assumir que ele era gato, que estava no auge da idade, apesar de dez anos mais velho, e que muitas mulheres ficaram interessadas nele quando souberam que ele era o mais novo solteiro da praça. Foi difícil ter que competir com todas elas, e mesmo quando ela percebeu que era a “dona do pedaço”, não soube como agir, nem como afastar estas predadoras vorazes. Rapidamente, ela o perdeu, ou pelo menos perdeu o encantamento.

De fato, ele não soube lidar com a insegurança dela, buscava alguém que estivesse disposta a tudo, que fosse com ele para onde a vida mandasse, sem medos, dúvidas ou questionamentos. O futuro, nós construímos, ele dizia. Ela o perdeu, sem sequer tê-lo tido. Foi tudo muito rápido. Quando ele se foi, ela pensou que fosse perder o chão, que a vida fosse acabar. Hoje ela estava ali, pensando em como ia ser quando ele voltasse, no quanto isso ia mexer com os seus instintos femininos, o quanto ia doer vê-lo com outra pessoa e feliz.

O cigarro acabou, ela acendeu outro. O silêncio só não era absoluto porque ela podia ouvir o barulho do vento forte e da chuva batendo na enorme janela. Repôs o vinho em sua taça de cristal e ficou ali, bebericando. O futuro, nós construimos, ela repetiu... e pegou o telefone.

quarta-feira, junho 13, 2007

Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós...

Como é doce o sabor da liberdade...

Hoje acordei mais leve. Deixei para trás o que me prendia, o que me acorrentava, o que não permitia que eu deixasse o corpo solto, para ser levado pelas correntezas da vida...

Acordei mais bonita, me sentindo mais dinâmica. Acordei menos cansada, com mais gás.

Hoje de manhã, pensei em quanto o dia estava bonito, o sol estava mais forte, mais quente, o céu, mais azul.

Acordei com menos medo, e vou dormir do mesmo jeito. Agora eu sou mais eu, me livrei de você.

Da saudade dos teus pelos, do teu cheiro, do teu gosto. Mais livre das tuas mentiras vazias, pois no final, mentiras levam a mais mentiras.

Acordei mais viva! Viva a vida colorida! Sem você! Vivas!

segunda-feira, abril 16, 2007

Desesperança

Faz meses que não escrevo neste blog uma só linha...

Penso, penso muito. Sou cada vez mais crítica com o mundo ao meu redor. Mas, ainda insisto em me emocionar. Trago comigo um encantamento e um medo...

Hoje, este medo está tão forte. Medo da morte. Medo de não ter tempo de viver para te dizer "eu te amo".

Fui percorrendo as entre-linhas do que você passou a me escrever com um certo fervor, quase uma dedicação. E quanto mais eu achava que me aproximava de você, mais longe eu estava do seu mundo, do seu universo, da sua vida. Ia lendo um amor inexistente entre os trechos dos e-mails curtos e longos que você me escrevia e buscava encontrar explicação para as fotografias que você me enviava, todas elas submersas em uma aura de mistério e fantasia, que chegavam a me enebriar.

Sentia nelas o teu cheiro. E ao fechar os olhos, quase podia ouvir a sua voz, e a sua respiração ofegante depois do sexo. Sexo que eu não fiz com você. Sexo que eu somente ouvi falar. E nos meus sonhos, eram os fios dos teus cabelos que iam parar nas minhas mãos. E o toque suave do seu corpo a pesar sobre o meu parecia algo tão real. Mas, todos os dias, ao acordar, me dava conta de que aquilo tudo não passava de uma singela e avassaladora desesperança.

Tenho este medo da morte, tão forte, tão presente. Queria poder te dizer que meu amor por ti é real, que a fé que tenho em você é diretamente proporcional à admiração que eu sinto. Queria poder estar perto, mesmo longe, e ter significado.

Tenho medo da morte. De me arrepender por não ter feito, de deixar cair no esquecimento, de não me permitir viver todo esse amor. Tenho medo da morte.

sábado, dezembro 16, 2006

Por que às vezes não é sempre?

Por que às vezes não é sempre?
Por que nunca mais não é até já?
Por que teu nome arde em minha boca?
Por que eu calo ao te encontrar?
Por que eu falo tudo quando você não quer ouvir?
Por que amanhã não chega daqui a pouco?
Por que eu sofro de saudades?
Por que dói quando você não está?
Por que?
Por que?
Por que teu nome não é sempre?
Por que o amanhã é quase nunca?
Por que às vezes eu sofro tanto?
Por que eu morro um pouco ao me calar?
Por que a saudade dói no corpo?
Por que minha boca arde quando eu te falo?
Por que?
Por que?
Por que eu fico sem resposta?
Por que essa vontade não passa?
Por que?
Por que?

sábado, dezembro 02, 2006

Que falta você me faz...

CARTA IV

Querida Rebecca,

Ah! Que falta que você me faz!

É tão estranho este sentimento...mas, percebo que, desde que constatamos a nossa impossibilidade em ter filhos, temos nos distanciado a cada dia. Sei que você desejou demais a nossa filha e que eu devia ter sido mais dedicado a este projeto, mas ele nunca foi um projeto meu... foi muito mais um projeto seu.

Sempre me senti incapaz de ter filhos e achava que não seria um bom pai. Tomei alguns pressupostos como verdades e fiquei morrendo de medo que, com o tempo, eu fosse deixado em segundo plano: você passaria a se dedicar mais e mais às crianças e esqueceria de mim. No fundo, no fundo, eu reconheço: sempre fui um cara muito carente, um tolo, que se realizou ao encontrar uma mulher dedicada e cuidadosa como você era. Talvez eu estivesse procurando por uma mãe, mais do que a uma amante. Fui egoísta demais em não perceber que tudo que você queria era realizar um sonho de menina e não abri mão da minha vontade para não perder a sua atenção.

Hoje, estamos nós, aqui, distantes um do outro, mas vivendo juntos... eu já nem sei mais porquê. Fazemos planos, mas são todos de curto prazo...eu não vejo mais em você aquela vontade de querer envelhecer ao meu lado.

Penso muito em adotarmos uma menina, do jeitinho que você queria. Não sei se conseguiremos, nem se isso vai servir para nos reaproximar. Sei apenas que eu queria muito tentar te reconquistar, porque eu preciso muito de você.

Ah! Que falta que você me faz. Tanta saudade, tanta vontade de ficar com você, de te amar, de te beijar e te abraçar na nossa cama, como fazíamos quando estávamos apaixonados! Tanta vontade de sentir você enrolada em mim, aninhada como uma gatinha... Só por hoje, tudo o que eu queria nesta vida era ficar um pouquinho com você...

Beijos,

Teu Marcelo

rio de janeiro, 02 de dezembro de 2005.
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CARTA III

Querido Pedro,

Ah! Que falta que você me faz!

Já se vão dois anos desde que a gente se separou. Era mesmo muito difícil conseguir ficar com você, sabendo que você pensava tanto naquela sua ex-namorada, a Rebecca. Só eu sei como eu sofri em ter que deixá-lo por não conseguir se mais interessante e mais forte do que aquele fantasma.

Durante muito tempo, odiei esta mulher com todas as minhas forças. Ficava me imaginando vendo a tal Rebecca na minha frente, tal qual você a descrevia: alta, poderosa, ruiva, cheia de si, muito consciente do que quer e do que não quer e capaz de tê-los nas mãos depois de tanto tempo. Pensava no que faria se a encontrasse, em como diria a ela o mal que ela ainda era capaz de causar a você... Pedi muito a Deus que tirasse de dentro de mim aqueles pensamentos ruins que eu sentia em relação a ela, visto que, para mim, ela era a causa da minha infelicidade.

Eu sei, eu sei, vocês resolveram se separar em comum acordo, não foi uma decisão isolada. Ela não teve culpa. Mas, é de difícil de acreditar que um cara tão bem sucedido, tão dono da verdade, tão senhor de si ainda fique tanto tempo de quatro sonhando com uma mesma mulher, com a vida paralisada. Fico me perguntando se isso é que é o amor verdadeiro ou é uma obsessão.

Mas, de fato, a grande incompetente fui eu, que superestimei a Rebecca e me dei muito pouco valor. E quem não se valoriza, não pode ser mesmo valorizada pelos outros. Sinto muito a sua falta até hoje, sinto saudades do seu cheiro em meus lençóis, do amor que fazíamos (mesmo quando você parecia um pouco ausente) e dos nossos cafés nas manhãs de domingo na confeitaria da esquina da minha rua. Até hoje, quando passo por lá, me vejo com você, bebendo café com leite e comendo pão-doce. Teimo em não acreditar que o que sinto por você me faz o mesmo mal que o que você sentia pela Rebecca...mas, acho que no fundo, somos idênticos: gostamos de amar o impossível...

Ah! Que falta que você me faz. Tanta saudade, tanta vontade de beijar e te abraçar! Tanta vontade de sentir você aqui... Só por hoje, eu juro, eu dava tudo nesta vida para estar um pouquinho com você...

Beijos,

Sônia

rio de janeiro, 02 de dezembro de 1998.

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CARTA II

Querida Giulia,

Ah! Que falta que você me faz!

Como sinto saudades de você. Do seu rostinho que eu imaginei. Das suas perninhas gordinhas, cheias de dobrinhas, dos seus bracinhos terminando em mãozinhas suaves e pequeninas, do seu corpinho rechonchudo...Dos seus cabelinhos finos, cheios de cachinhos, do seu sorriso e da sua risada solta, solta...

Imaginei você me invadindo, sendo gerada em meu ventre, sendo criada em minha casa, no aconchego de um lar, acolhida, feliz...crescendo e se desenvolvendo com alegria, aprendendo todos os dias uma coisa nova...

Foram tantas as noites - incontáveis - em que sonhei tê-la em meus braços, amamentá-la, tocá-la com carinho... imaginei sua boca em meus mamilos, me sugando com força, buscando energia nesta sua mãe... me imaginei te amamentando, te fazendo forte, te dando saúde...

Sonhei com o dia em que você sentou pela primeira vez, com o dia em que você começou a engatinhar, com o dia em que você andou sozinha, equilibrando-se nas suas perninhas frágeis, e com o dia em que você disse pela primeira vez: "mama"...

Sonhei com esta alegria toda, com esta vibração, com as asinhas da minha anjinha junto à mim...sonhei em pintar seu quarto, acompanhando as transformações do meu corpo, e depois em ver seu pai te olhando, te ninando, todo babão!

Ah! Que falta que você me faz. Tanta saudade desta filha que eu ainda não tive! Tanta vontade de ver você aqui...Ainda hoje, eu dava tudo nesta vida para ter um pouquinho de você...

Beijos,

Sua "mama" Rebecca

rio de janeiro, 02 de dezembro de 2004.

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CARTA I

Querida Rebecca,

Ah! Que falta que você me faz!

Outro dia, passou por mim uma pessoa que usava o seu perfume...ele me invadiu por inteiro, envolveu-me a alma, resgatou você daquele limbo na minha memória onde eu tinha te escondido...

Senti uma espécie de febre, um calor pelo corpo, que eu só sentia quando estava com você. Assustei-me ao perceber que esta sensação, que eu julgava esquecida, camuflada nos esconderijos do meu inconsciente, ressurgiu em mim com tanta força, com tanta intensidade!

Com o cheiro do perfume, veio também a memória das curvas do seu rosto, do seu corpo, dos seus cabelos macios, do tom da sua voz, da cor da sua pele, do toque da sua mão, do calor do seu abraço...

Juro que eu fiquei me perguntando: "Por que foi mesmo que a gente se separou?"

Hoje, eu nem me lembro mais. Não sei se a gente deixou de se amar. Ou se nós deixamos de ter os mesmos objetivos, se passamos a pensar diferente, ou se simplesmente acordamos num dia qualquer sem que nos reconhecéssemos...

Foi uma pena ter perdido este amor. Depois de você, nenhuma outra mulher me fêz tão feliz. Sofri com as incontáveis comparações que fiz, com o que almejei e não consegui, porque queria você ao meu lado e você não estava mais aqui. Sofri como se me faltasse ar...

Ah, que falta que você me faz! Ainda hoje, tudo que eu queria na vida era mais um pouquinho de você...

Saudades,

Pedro

rio de janeiro, 02 de dezembro de 1996.

domingo, novembro 19, 2006

O troco

I

Ele apertou o botão que destravava o segredo do carro, abriu a porta e entrou abruptamente, com pressa. Ela vinha logo atrás e, olhando aquela cena, chegou a desconfiar que ele não fosse esperar por ela. Ao contrário, ele ficou ali, parado, olhando para a chave do carro, esperando ela entrar. Assim que ela entrou no carro e fechou a porta, ele se virou para ela e disse:

- Olha, vamos parar, ‘tá legal?! Eu não quero mais discutir com você! Chega! Está discussão não vai nos levar a lugar algum!

Ela mordeu os lábios e, por segundos, ficou avaliando se valia à pena continuar argumentando com ele. Depois, desistiu. A viagem era relativamente longa, eles iam levar aproximadamente uma hora e trinta minutos para chegar em casa e o clima entre eles não podia estar pior.

- Você sempre arruma um jeito de complicar as coisas! Sempre! Eu te disse que não queria me aborrecer neste passeio! Eu só concordei em vir com você porque me prometeu que ia controlar este seu ciúme doentio. Correu tudo bem, encontramos seus amigos de infância, vimos um monte de gente que eu mal conheço e eu me comportei, não me comportei? Fui simpático com as pessoas, não fui? Você preferia o quê, que eu me isolasse e passasse o encontro inteiro fingindo estar entediado? Só assim eu iria te agradar...

Ela permaneceu calada. No fundo, ele tinha razão. Estava começando a ficar difícil gerenciar a situação. Não argumentou. Não sabia mais como lidar com aquele homem... Ele era lindo, sedutor, encantador...O cara mais bacana da festa...Sempre gentil...Com ela e com todas as mulheres do planeta! Não se sentia culpada por ter explodido, mas também estava cansada de estar sob a sombra daquele homem. Ela que o desejava tanto...Na sua cabeça, ele era um personagem..E o tempo todo ela passava a se perguntar como um homem tão bonito tinha escolhido para sua mulher uma pessoa tão normal, tão comum.

- Você disse que ia se comportar... (blá blá blá).

Ela não ouviu mais nada, nenhuma palavra do que ele dizia. Ficava se perguntando porque o comportamento dela o incomodava tanto e o dele não podia incomodá-la. Chegava a pensar que era pelo favor que ele fazia de estar com ela. Talvez esse fosse um assunto para discutir com o terapeuta. O fato de que ela era insegura demais e os fatos recentes só demonstravam isso e pioravam a situação entre eles.

Ele falou por mais de meia hora. Quando percebeu que era em vão, que ela havia desligado e não o estava ouvindo, calou-se também. Ficaram os dois em silêncio, ouvindo o rádio:

“I don’t mind spending everyday out on your corner in the pouring rain, looking for the girl with the broken smile, ask her if she wants to stay awhile, and she will be loved...”

De repente, ela se virou para ele e disse:

- Eu te amo, meu amor! ‘Tá?

Ele se sentiu meio que desmontado. Num primeiro momento, sorriu com o canto esquerdo da boca. Depois, foi se sentindo mais descontraído até que começou a gargalhar. Ela riu com ele daquela situação. Por que estavam mesmo brigando?

II

Ele sabia que agia como um Don Juan, era viciado nisso. Não deixava passar um rabo de saia sem um comentário, um elogio. Até que ela havia sido bastante tolerante por todos esses anos. Mas, de um tempo para cá, começou a explodir em ciúmes. Parecia estar perdendo a confiança nele. O que estaria causando aquela transformação?

Depois da gargalhada, ele voltou a ficar em silêncio, pensando qual a causa de tanta insegurança por parte de sua mulher. Afinal, ele não estava fazendo nada que fosse diferente do que sempre fizera: continuava tratando as mulheres como se fossem amantes potenciais. Mas, nunca avançava o sinal.

A Maria Luíza, a sua Malú, era uma mulher de beleza mediana, possuía um olhar bem forte, cabelos negros, e tinha um corpo bem interessante, daqueles que transbordam exuberância. Mas, não era de se enfeitar muito. Da época em que haviam sido namorados, aos dias de hoje, ela foi perdendo o hábito de usar jóias, ou roupas mais sofisticadas e passou a optar pelo conforto, o que, de certa forma, escondia as suas belas formas.

Ele a via todos os dias, estava mais do que acostumado. Já se haviam passado onze anos de casamento. Mas, apesar de se sentir sempre impelido a testar seu poder de sedução, ele nunca a havia traído. Não tinha coragem, pois sabia que era um caminho sem volta. Só que gostava demais de flertar. Flertava com as colegas de trabalho, com as amigas, com as amigas de sua esposa, com ex-namoradas. Ele se sentia muito perdido às vezes, ainda mais porque quanto mais ele flertava, mais a sua esposa se distanciava dele, apesar de sempre dizer que o amava e o desejava muito.

III

O telefone celular dela tocou três vezes, depois parou. Quinze minutos depois, tocou novamente mais três vezes. Parou novamente. Ela não atendeu. Ele se virou para ele e perguntou:

- O que foi? Por que você não atende? Algum problema?

Ela, meio nervosa, respondeu:

- Nada, nenhum problema, com a voz trêmula. É que é alguém lá da festa, e eu não quero atender.

- Atende, podem estar querendo nos avisar de algo que nos esquecemos! Aliás, você não esqueceu nada lá, esqueceu? Eu não gostaria de ter que voltar todo este pedaço de estrada que já percorremos!

- Não, eu não esqueci coisa alguma. Não estou a fim de atender. Deve ser incomodação. Depois eu ligo para a Marina e vejo o que era...

De repente, o telefone começou a tocar novamente. No segundo toque, ele passou a mão no aparelho, viu que era outro número, e não o da casa da Marina, e o atendeu.

- Alô? Quem é? Diga lá...

Cuidava para dirigir e falar ao telefone ao mesmo tempo, coisa que não gostava de fazer. Achou melhor parar o carro no acostamento e ligar o pisca-alerta. Mas, ninguém falou nada do outro lado. Ele achou estranho e desligou. Virou-se para Malú e disse, em tom enfático:

- Por que é que eu tenho a sensação de que você sabia quem era? E por que a pessoa do outro lado ficou muda quando atendi?

Estas perguntas pareceram ecoar dentro do carro...Malú não conseguiu responder, apenas abaixou a cabeça e murmurou:

- Vamos continuar esta viagem, por favor. Estou louca para chegar logo na minha casa.

Ele ligou o carro e retornou à estrada, encafifado. Havia algo que Malú não queria lhe contar. Teria acontecido na festa? Teria sido algo sério? Será que ela havia se aborrecido com alguém além dele próprio? Estes pensamentos pareceram invadir-lhe a cabeça e ele ficou matutando sobre eles por um longo trecho da viagem.

IV

Faltando uns quinze minutos para chegarem ao pedágio, viram um carro enguiçado no acostamento e Roberto resolveu reduzir a velocidade para ver se era algum conhecido. Passou devagar pelo carro, olhando para o sujeito que estava ao telefone, talvez pedindo socorro, e viu que era Lauro, um dos amigos de Malú e Marina. Olhou para a esposa, que continuava olhando para baixo, e disse:

- É o Lauro! Vamos parar para ver se ele precisa de alguma ajuda? Vamos, ele está sozinho!

E foi encostando o carro à frente do dele. Malú ficou paralisada, não sabia o que fazer.

- Oi, Lauro, posso te ajudar? Está enguiçado?

- Oi, Roberto, valeu, cara! Mas, na verdade, acho que furou um pneu, o carro começou a apresentar uma certa instabilidade e eu parei para verificar. Aproveitei para dar um telefonema! Não tem grilo, não, cara! Deixa que eu troco isso rapidinho! Segue a sua viagem que ainda falta muito.

Malú nem chegou a descer do carro. Ficou lá, sentada, sem ação. Não olhou para o Lauro.

- Faz uma coisa, Lauro, me deixa aqui anotado o seu telefone que quando eu passar pelo pedágio, aviso à Concessionária que administra a estrada e eles vêm te ajudar com este pneu. Falta muito pouco para chegarmos ao pedágio...

E foi logo pegando o bloco que ficava no porta-luvas e dando para o Lauro anotar o telefone. Quando entrou no carro, entregou o bloco para a Malú, que ficou ali, quieta, torcendo para que a memória de Roberto fosse curta.

V

Quando chegaram ao pedágio, Roberto tratou de procurar por um encarregado e avisar do problema do amigo, para que o mesmo fosse socorrido. Sacou o bloco e ditou o número para o homem, que já estava acionando a equipe de resgate. Afinal, era para isso que eles pagavam um pedágio tão caro na ida e na volta.

Ao entrar no carro, se deu em conta de que aquele era o número que havia ligado para o telefone de Malú. Olhou para ela, tão pálida, tão emudecida, e entendeu que o feitiço havia virado contra o feiticeiro. Leu em seu rosto que havia rolado uma traição. Há quanto tempo estava se encontrando com o Lauro? Como isso tinha acontecido? Como uma mulher que o ama tanto era capaz de o trair? Ele nunca havia conseguido, mas estava sendo traído bem ali, embaixo do seu nariz! Ele não conseguiu perguntar nada a Malú. Dirigiu até em casa pensando em fazer uma pequena mala e buscar um hotel, para se dar um tempo para refletir a respeito. Havia tirado suas próprias conclusões, já que a conhecia demais.

VI

(...)
Chegaram na festa e viram que o pessoal já estava meio alcoolizado. Decidiram beber também e curtir o clima agradável do reencontro. Muitos amigos de Malú haviam comparecido, alguns acompanhados, outros sozinhos, por já estarem separados. Roberto, como de costume, jogou charme para todo mundo. Em meia hora, ficou rodeado de mulheres, até de Marina, a dona da casa.

Malú, sua esposa, ficava olhando de longe, apreciando sua habilidade com as mulheres, vendo como aquele garanhão continuava com as garras afiadas e o charme a toda prova. Sem perceber a aproximação, Malú se deparou com Lauro, um homem por quem havia sido apaixonada na época do colégio. O coração dela disparou. Por que? Seria só pelas lembranças da adolescência?

- Malú, que saudade?! Nossa, que cheiro bom! Que perfume é esse? Sempre adorei o seu cheiro, sabia?

O papo foi rolando, e Roberto nem percebeu o assédio a sua esposa, já que estava tão entretido em manter a sua fama de Don Juan. Malú, que há muito tempo estava com a moral baixa, começou a se encantar com a conversa e, depois de muito prosecco e de canapés deliciosos, Lauro a convidou para subir. Ela embarcou naquela onda, sem pensar muito nas conseqüências, e quando se deu em conta, já havia rolado uma transa rápida.

Sua primeira vez, depois de muito tempo, com outro homem. Lauro não era um desconhecido, mas, dele não se podia dizer que se sabia muito. Incrivelmente, ela não se arrependeu de pronto, sentiu-se até vingada. Mas, com toda a calma do mundo, virou-se para Lauro e avisou:

- Lauro, olha só, eu sou uma mulher muito bem casada e não pretendo levar isto a diante. Esquece! Não vamos nem nos lembrar que isso aconteceu. Não vale à pena!

Ao contrário do que Malú imaginava ouvir, Lauro respondeu:

- Vamos conversar isso depois. Eu peguei seu telefone com a Marina. Vou te ligar. Quero marcar para conversarmos. Esta conversa a gente não pode ter aqui. Eu quero você desde o colégio, quando você era uma garota boba, que não entendia os sinais. Não vou desistir assim tão rápido. Agora, é melhor que eu desça, antes que dêem por nossa falta.

Malú sentiu o clima pesado. E aí, começou a se arrepender. Quando finalmente conseguiu se arrumar para descer, Marina entrou no quarto e lhe perguntou:

- O que você fez, sua louca? ‘Tá maluca? Quer acabar com o seu casamento? Esse Lauro é doido de pedra! Ele vive me perguntando sobre você ... E você caiu na conversa dele direitinho. O que foi isso?

- Raiva, foi pura raiva do Roberto, desta necessidade de flertar com todo mundo. Estou de saco cheio. Não agüento mais este comportamento. Foi só uma transa de nada...amanhã já esqueci.

- Malú, você arrumou encrenca, pode esperar. O cara é doido! Agora, vamos descer. Daqui a pouco o Roberto percebe sua ausência.

Malú desceu as escadas e viu Roberto conversando com Paula, uma mulher que havia sido a pedra no seu sapato por muitos anos na escola. Teve um ataque, puxou Roberto pelo braço, começou a reclamar e resolveu que era hora de sair. Deu uma olhada pela sala e nem sinal de Lauro. Melhor assim.

- Vamos embora, Roberto! Pra mim, já deu!

VII

Roberto entrou em casa e foi até o banheiro. Trancou a porta. Malú soube, então, que ele havia percebido que era o mesmo número: o que ficou registrado no celular dela e o que Lauro anotou no bloco. Bateu na porta e pediu para ele abrir:

- Roberto, abre, quero falar com você! Abre, anda!

Roberto ficou se perguntando como conseguiu completar a viagem, como teve sangue frio para dirigir e controlar a vontade de jogar o carro contra um poste para acabar com aquilo de uma vez.

- Malú, por favor, me deixa quieto. Eu não quero falar com você agora! Depois você me explica o que aconteceu!

- Roberto, meu amor, esse Lauro é maluco! Ele fez de propósito, você não entende!?

Malú era advogada, era muito boa com as palavras e estava descobrindo que era excelente atriz.

- Esse cara me disse na festa que tinha sido apaixonado por mim na escola e que tinha pego o meu telefone com a Marina, que queria conversar comigo. Eu só não atendi porque não queria dar trela para doido. Vamos, meu amor, eu já te disse, eu te amo!

Roberto, então, achou que a história fazia sentido e abriu a porta. A mulher o esperava do lado de fora, seminua, de calcinha e sutiã novos, rendados, com a cara mais indecente do mundo. Roberto a abraçou... sentiu ainda um cheiro diferente na mulher, algo meio parecido com pecado. Mas, preferiu aproveitar aquele momento.

Malú nunca foi tão boa na cama como aquele dia, agiu como uma gueixa, realizou todos os desejos do marido. E ao final do amor, ele dormiu como um garoto.

E ela foi até a varanda, acendeu um cigarro e riu.

quinta-feira, novembro 09, 2006

não vá ainda...

Letra de: Christian Oyens - Zelia Duncan

O que você quer ?
O que você sabe ?
Não é fácil pra mim
Meu fogo também me arde
Às vezes me vejo tão triste

Onde você vai?
Não é tão simples assim
Porque às vezes meu coração não responde
Só se esconde e dói

Por favor não vá ainda, espera anoitecer
A noite é linda, me espera adormecer
Não vá ainda, não
Não vá ainda

Me diga como você pode
Viver indo embora
Sem se despedaçar
Por favor me diga agora
Ou será, que você nem quer perceber?
Talvez você seja feliz sem saber

Por favor não vá ainda, espera anoitecer
A noite é linda, me espera adormecer
Não vá ainda, não
Não vá ainda

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É na simplicidade que se encontram as coisas mais lindas, o mais puro sentimento...

segunda-feira, novembro 06, 2006

Verdades e consequências...

(toc toc toc)

- Quem é?, ela pergunta.

- Sou eu, me deixa entrar!

- O que é que você quer?

- Quero falar com você, me deixa entrar!, ele grita.

- Espera um pouco...

(tum tum tum)
- Me deixa entrar! Você não vai abrir esta porta?

(Ela abre a porta para ele)

- O que é que você quer falar comigo? (dando as costas)

- Tudo! Já chega! Chega da gente brincar que não está acontecendo nada entre nós! (nervoso)

- Mas, afinal, o que é que está acontecendo? (ansiosa)

(Ela caminha até a porta da varanda, abre uma fresta, sente o vento em seu rosto e fica segurando o choro)

- Por que você saiu da festa?, ele pergunta.

- Eu não estava me sentindo bem.

- Mentira! Não foi isso! Por que você saiu da festa? Fala de uma vez!, ele grita de novo com ela.

- Pôrra! Ciúmes! Eu estava morrendo de ciúmes! Satisfeito? Pronto, era isso que você queria ouvir!?

- Era.

(Ela senta na cama, apóia os cotovelos nos joelhos e segura a cabeça entre as mãos)

- Eu tô apaixonda por você, pôrra! Pronto, falei! Que saco! Já estou cheia de ficar escondendo isso! Ver você com aquela mulher dói mais do que tudo nesta vida! Eu tô de saco cheio de ficar sentindo isso...ainda mais porque eu sei que não vai me levar a nada! (ela esbraveja com ele)

(Ela então se ajoelha na beira da cama e chora).

- Por favor, me livra desse sentimento! (olhando para ele) Me deixa seguir o meu caminho, me deixa tentar ser feliz! De algum modo, eu tenho que tentar ser feliz longe de você! Você precisa me deixar ir!

(Ele puxa o corpo dela na direção do seu e lhe dá um beijo apaixonado, demorado, quase desesperado)

- Finalmente! Eu precisava provocar isso! Eu precisava que você tomasse coragem para me dizer o que está dizendo, que você se sentisse pressionada para dizer tudo isso para mim, porque eu queria muito te dar esse beijo, te abraçar, ficar com você...

- Eu...eu...nem sei o que dizer (chorando e rindo o mesmo tempo, e se sentindo patética)

- Não diz, me beija, me beija com vontade, me abraça forte...Dançar com ela foi só pra te fazer ciúmes...

(E ele a beija de novo, e ela o ajuda a despir-se e ele desabotoa a blusa dela, e eles se amam com uma intensidade, suam de pingar, impregnando nos lençóis e por todo o ambiente um cheiro de amor rasgado que jamais haviam sentido...era muita paixão represada...)

(Mais tarde...)

- Por que você não foi direto? Por que você não disse antes o que sentia?, ela o interroga...

- Mas eu disse! Várias vezes! Você é que não compreendia, ou fingia não compreender. Eu me declarava e você se recolhia. Aí você vinha com uma conversa "mole" e eu não entendia nada... já estava quase desistindo.

(Ela levanta e acende um cigarro, nua. Ele fica observando o corpo daquela mulher, sua mulher naquela noite, embevecido e orgulhoso.)

- Eu amo você, sabia? Eu seria capaz de mudar a minha vida completamente por sua causa. Mas, sinceramente, não sei o que você quer!, ela diz.

(Ele olha bem nos olhos dela e suspira...)

- Vamos deixar para pensar nisso depois? Deita aqui, vamos repetir a dose. Me deixa ser o homem mais feliz do mundo, só esta noite!?

(Ela deita, o amor recomeça. Eles dormem e sonham juntos. ... Antes que ele acorde, ela se levanta, toma um banho e sai para caminhar pelo hotel.)

- O quê que eu faço? Ele vai acordar... será que vai se lembrar de tudo que fizemos? Será que vai se arrepender? Será que gostou?, ela se pergunta...

(Volta ao quarto e encontra um ramo de bouganvilles sobre seu travesseiro, a cama ainda com os lençóis impregnados do amor que rolou. Também há um bilhete:

"Não pense, apenas sinta. Nossa noite foi demais. Beijos")

E amanhece.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Para quem quer me conhecer melhor, minha análise numerológica...

Rebecca Leão
03-08-1970


LIÇÃO DE VIDA: 10
O numero de sua data de nascimento. O que viemos aprender nesta jornada, assim como dificuldades a serem superadas.--> 1.


Precisa aprender a ser original, ter força de vontade, ser criativo, inovador. Deve seguir em frente com uma visão ampla e firmeza de propósitos tomando suas próprias decisões. Procure manter independência no pensar e no agir e evite recuar. Pode ser um excelente executivo. Qualquer ocupação que exija determinação lhe é indicada, pois não gosta de estar em segundo plano e tampouco receber ordens.

SUA ALMA: 22
Sentimentos mais profundos, o que nos motiva, experiências e informações acumuladas para lidarmos nesta encarnação. O numero referente às vogais de seu nome.--> 22.


Nasceu para ser mestre, construtor no plano material, prático e organizado, idealista, filosofo (mas com pensamento lógico). Carrega altas aspirações, mas com os pés firmes no chão. Possui tendência a expandir seus negócios além dos limites, podendo com isto, tornar-se conhecido nas mais altas camadas e proporcionar grandes benefícios para a comunidade.Deve evitar excesso de rigidez, autocrítica e disciplina, procurando ver com bons olhos as mudanças que acontecem, a fim de não perder as grandes oportunidades que surgem na vida.

SUA APARÊNCIA: 11
Nosso eu exterior ou impressão que causamos aos outros. Como somos julgados à primeira vista. Ex: como estamos vestidos, nosso tipo físico, atitudes, etc... Mas só aqueles que nos conhecem na intimidade nos conhecem verdadeiramente. O numero referente às consoantes de seu nome.--> 11.


Pessoa com tendência à liderança, chegando a ser imitado pelo seu jeito de ser. Tem personalidade idealista, sonhadora e inspiradora. Apresenta propensões artísticas e transmite paz, embora se mostre individualista em algumas ações. Não tem compromisso com a moda.

O QUEVOCÊ É: 6
Todas as letras que compõem seu nome.--> 6.


Amante do lar e com forte ligação com a família, você adora um ambiente acolhedor e harmonioso. Aprecia as artes e a beleza, e está sempre buscando melhorar seu padrão de vida para dar mais conforto àqueles que o cercam. É emotivo, bondoso, procura estar sempre disponível, aconselhando ou buscando equilibrio para situações conflitantes. Ótimo anfitrião, não poupa esforços para receber bem os amigos. Aprecia mesa farta e muito bem decorada. Extremamente carinhoso, meigo e fiel, acredita em ligação duradoura. Deve tomar cuidado com a superproteção para não sufocar. Evite teimosia e, principalmente, aceite os limites de compreensão dos outros, não impondo suas verdades e se intrometendo demais, exercendo assim poder e domínio. Lembre-se: você não é o que faz, mas sim o que é.

DESEJO INSTINTIVO: E
A primeira vogal do nome, mostra nossos impulsos emocionais e como reagimos diante de estímulos externos. Descubra como reage aquele (a) que você ama.--> E


Deseja a liberdade acima de tudo. Age com impulsividade e se mantém ansioso a quase todas as mudanças que aliás é o que mais gosta de fazer. O inesperado o agrada muito. Não suporta rotinas rígidas e adora fazer várias coisas ao mesmo tempo. Nunca está satisfeito com o que tem e está sempre em busca de novidades.Conselho: Seja versátil faça surpresas, apareça de repente sem avisar.

SEU NÚMERO DE PODER: 7
Todas as letras que compõem seu nome, mais a sua Data de Nascimento. Essa vibração ajuda no aprendizado de nossa missão ou lição de vida. Aquilo que você acertou com a Divindade antes de nascer. Funciona como um farol dirigindo nossa vida.--> 7.


Oportunidade de seguir atividades mentais e espirituais, outros a procurarão por seus conhecimentos e sensatez. Pode desejar estar a sós, para meditar, pode ainda escrever sobre assuntos metafísicos.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Torpedos de amor - De repente num domingo de eleições

Peço perdão a Arnaldo Bloch por reproduzir aqui o seu artigo de sábado, 7 de outubro, publicado no Segundo Caderno do jornal "O Globo", mas queria guardar para sempre algo que achei de extrema sensibilidade.

Para quem gostar do que ler, recomendo a visita ao blog do Arnaldo, no endereço:
http://oglobo.globo.com/blogs/arnaldo/

O texto é maravilhoso e me emocionou muitíssimo, mas já não é a primeira vez que o Arnaldo faz isso. Se um dia ele souber que Rebecca reproduziu um texto seu, saiba que ela te ama.

************************************
"Veio-me no domingo eleitoral essa torrente de
amor represado, como as lágrimas que ora correm, enfim.
Quando foi a última vez que chorei?
Vão aí anos. Nem em cemitério mais.
Como é bom chorar.
Que felicidade chorar.

*****
Eu,
onipotente,
jamais acreditei
na possibilidade
de me deixares.
Agora acordo e
digo:
"Não
posso
perder-te".

*****
Olho o mar
esmeralda
de Copacabana
e só vejo
teus olhos
(os meus
nublados
como o céu
esta tarde)

*****
Naquela caixinha
que te dei
não estão
dois anéis
Estamos nós
dois
à espera
de nascer

*****
Não é
por mim nem
para mim nem
por você nem
para você. É
pelo amor para
o amor.

*****
Os únicos olhos
que vi,
a única alma
que li,
o coração que
único
ouvi,
o sorriso
único
do sonho,
têm
um nome único:
o teu.

*****
Esse instante
em que,
para poupar-te voz
e ouvido,
falo-te-aos-torpedos
fogem-me
os medos
do vexame
digital

*****
No Aterro,
táxi rumo
cinema
você
no espelho
da enseada
colore
de poema
o poente
cinza
de sol

*****
Só queria isso:
uma palavra
sua.
Agora posso
dormir de novo
em paz".

************************************
Maravilhoso, Arnaldo, maravilhoso! Êxtase puro!

domingo, outubro 08, 2006

Paulo que ama Roberto que ama Ana que ama Ricardo que ama Bárbara que ama...

I

A preparação para sair de casa parecia a de um soldado que vai para a guerra. Era apenas uma jovem mulher que saía sozinha para fazer jogging ao redor da belíssima Lagoa Rodrigo de Freitas. Já que ela não tinha como ter uma trupe de seguranças guardando suas costas, achava melhor preparar-se para as surpresas inerentes a uma cidade sem lei.

Desde a escolha do tênis que ia calçar (confortável, porém muito discreto), ao bolso de sua roupa onde iria esconder seu iPod e como camuflar os fios de seus fones de ouvido (por dentro da camiseta), ela parecia pensar em tudo. A regra básica era parecer muito simples para não chamar atenção. Brincos e outras jóias iam ficar em casa, mas o relógio, este era peça fundamental, pois ela tinha que cronometrar a corrida e avaliar seu desempenho.

Começava sempre sua corrida pelo Parque dos Patins, onde podia deixar o carro, em direção a Ipanema. Estava se condicionando para dar o máximo de si em uma hora de corrida. Como este tempo ainda não era suficiente para que desse a volta na Lagoa, ela costumava correr 30 minutos e voltar para o ponto de partida pelo mesmo caminho. A música ajudava a marcar o ritmo. Seu único esforço era para se controlar e não cantarolar as músicas e ficar sem fôlego.

Naquele dia, havia feito tudo como de costume e, de manhã bem cedo, já estava no Parque dos Patins fazendo seus 20 minutos de alongamento. Ana era esguia, magra, seca e dava muita importância ao alongamento. Puxava bem as palmas das mãos, o pescoço para um lado, para o outro, enroscava os dedos e esticava os braços... Enfim, fazia mais de 36 combinações de movimentos de forma a trabalhar as articulações e músculos dos braços, das pernas, das costas, do pescoço e da cabeça.

II

Roberto sentia por Ana uma espécie de amor platônico havia quase dois anos. Considerava isso quase uma doença, algo crítico, principalmente quando acomete a homens maduros, que já viveram bastante e que sabem o que esperar da vida. Gostava tanto de gostar dela que já não fazia questão de estabelecer um relacionamento duradouro com qualquer outra mulher. Não que elas não aparecessem em sua vida, mas eram sempre encontros breves e passageiros.

Conheceu Ana numa manhã de domingo no outono enquanto comprava uma água de coco num quiosque no Parque dos Patins. Ficou encantado por ela, por seu jeito, por seu cheiro de alfazema, por seu modo gentil de falar. Até hoje, não sabe seu nome. No entanto, já acompanha a rotina de Ana há tanto tempo que já sabe exatamente a hora de sair de casa para vê-la correndo. Ela vem todos os dias, ele não sabe de onde, de que bairro. Usa um rabo de cavalo, farto, que faz contraponto com seu corpo esguio, magro e tem sempre ao seu lado um cachorro bem grande, que ajuda a amedontrar os ladrões que circulam pelas redondezas a caça de mulheres e crianças indefesas.

Roberto pensa todos os dias em uma forma de falar com Ana, de descobrir um pouco mais sobre ela, de torna-la real, de tira-la do pedestal em que a colocou, de deixar de fantasia-la em sua vida. Ana nem imagina que desperta em um homem como Roberto tanta adoração.

III

Paulo há muito já notou o Roberto diariamente freqüentando o Parque dos Patins. Gosta dele, é um cara bastante simpático. Sempre arruma uma forma de puxar assunto. É apenas um vendedor de cocos e água gelada, mas é um cara culto, instruído, que o destino colocou ali por uma destas manobras que a gente nem sabe como aconteceu. Perdeu o emprego, mas não perdeu a força.

Sabe que Roberto não é um desportista, que freqüenta a Lagoa por outras razões. Ele até se esforça, corre um pouquinho, pega sol, caminha, mas não é a “praia” dele. Paulo pode até não ter sacado ainda qual o motivo que leva Roberto a Lagoa no mesmo horário todos os dias, mas sabe que gosta de encontrar com ele.

Há muito está sozinho e procura um novo companheiro, mas anda temendo pelas maldades cometidas aos homossexuais nesta cidade hipócrita. Os ladrões já inventaram muitas formas de limpa-los, de deixa-los de mãos vazias depois de uma noitada, pois sabem o quanto se arriscam. Paulo tem preferido adotar uma outra estratégia, de conhecer bem o cara primeiro para depois tentar um salto em queda livre. Será que Roberto é um bom companheiro, se pergunta?

IV

Ana não sabe muito bem de onde tirou forças para começar a exercitar-se. Era uma pessoa bastante sedentária enquanto esteve casada com Ricardo, mas teve que mudar radicalmente depois que ele a deixou por Bárbara, sua subordinada.

Foi tudo tão de repente, o casamento parecia estar bem. Sem filhos, sem nada, sobrou o cachorro, um Golden Retrivier. Um bom companheiro, já um pouco velho, dez anos, chamado Bento.

Bento tem sido como um fiel escudeiro, que se deita ao pé de sua cama todos os dias e parece velar seu sono, mesmo quando ela passa as noites em claro pensando no tamanho do fracasso que foi o final de seu casamento.

Hoje ela não se acha mais atraente, acha que nunca mais vai conseguir conquistar um homem, que homem nenhum vai olhar para ela. Só lhe restam os exercícios físicos, cuidar da vida social, sair com os amigos, fazer de seu apartamento um belo refúgio e ter um hobbie, o que só percebeu a importância depois de ficar sozinha.

Está cogitando seriamente fazer dança de salão, mas ainda não encontrou alguém que queira ser seu par.

V

Roberto pensa em Ana todos os dias. Em como ela está, se está bem, onde é que ela mora, se está sozinha...parece que sim. Pensa em como ela seria a mulher ideal para ele, três casamentos desfeitos, três filhos, do primeiro e do segundo, o terceiro não gerou filhos, só amolação.

Ele gosta de casar, gosta de estar junto. Não gosta de viver sozinho. Já pensou em convidar seus filhos para morar com ele, mas sempre acaba achando que não é uma boa idéia, já que é uma pessoa bom coração demais, mole demais, sempre acaba deixando que eles façam o que querem...

Na hora em que começa a se arrumar para ver Ana, seu coração acelera, ele sua frio, fica nervoso, como pode?

Mas, hoje, tem uma reunião, não poderá ir a Lagoa...

VI

Será que o Roberto vem hoje?, pergunta-se Paulo. Já está escurecendo e nada dele. De pessoas conhecidas, só vi aquela moça do boné, iPod e cachorro. Simpática ela. É..., amanhã tem mais.

VII

Escurece. Amanhece. Os dias passam. A roda da fortuna gira. Quem dará o primeiro passo?

terça-feira, outubro 03, 2006

Fita vermelha

I
Ela amarrou a fita vermelha nos cabelos, passou o batom, também vermelho, e saiu pela rua, no meio do bloco.

Estava exultante, orgulhosa de sua fantasia, planejada e confeccionada por ela mesma, em janeiro. Nunca tinha se permitido brincar o carnaval de rua, nunca tinha se dado o direito de "construir e viver uma fantasia".

Estava cansada de tanta caretice, queria matar as saudades de um tempo que não tinha vivido e que só conhecia pelas revistas e pela televisão.

Olhando as pessoas que estavam curtindo a festa, dentro e fora do bloco, fantasiadas ou não, ela viu, pela primeira vez, a alegria estampada, viu um sopro de felicidade nunca visto outrora. Seus cabelos rubros, cacheados, amarrados na fita vermelha compunham uma pintura com sua fantasia, e ela emanava paixão: pelos outros, por si mesma e pela vida!

As velhas marchinhas de carnaval, todas cantadas de cór, serviam de trilha sonora para aquele momento mágico, um pano de fundo para um sonho de liberdade...nem que este sonho durasse apenas os quatro dias de carnaval e se acabasse na quarta-feira de cinzas.

Pulando com o povo no bloco, sentia aquela alegria invadindo-lhe o peito, tornando-a leve, fazendo com que ela esquecesse os problemas da vida. Tanto tempo perdido...

II
Olhando nos olhos dos homens, sentia de novo o desejo surgindo, sentia que estava viva. Sentia-se bonita, tão saudável, tão cheia de amor. Há muito sentia-se cansada, mas naquele dia, estava disposta, havia se encontrado...

No meio da multidão, avistou um antigo amor, Marcos. Pensou que não poderia ser verdade, pois já não o via há mais de quinze anos. Arriscou chamá-lo, mesmo com todo aquele barulho:
- Marcos! Marcos!

Ele ouviu sua voz e abriu-lhe um sorriso escancarado, fitando-a nos olhos como fazia quando eram namorados. De braços abertos, pulando ao som da marchinha, ele caminhou em sua direção, enquanto ela tentava vencer a multidão (que insistia em estar ali se divertindo) e chegar onde ele estava.

III
O Marcos que ela conheceu era um homem alto, forte, corpulento, de cabelos negros e espessos. Hoje, havia se transformado num homem bonito, porém já meio grisalho, mas ainda era o homem mais cheiroso da face da Terra...

- Luísa, quanto tempo! Dá aqui um abraço!

- Ô, Marcos! Por que a gente ficou tanto tempo sem se ver!?

Num primeiro momento, eram bons amigos que se encontravam depois de anos. Um abraço, depois outro abraço...

- Vamos tomar um choppinho, para matar as saudades!

- Como nos velhos tempos? Vamos! Você está sozinho?

Isso fazia mesmo diferença? Sentaram-se num barzinho que margeava a rua e pediram dois choppinhos bem gelados. O papo se seguiu enquanto o bloco passava. Como a música era altíssima, tinham necessidade de cochichar nos ouvidos, de falar bem pertinho, encostando os rostos. Ela foi sentindo uma saudade dele, do seu toque, do seu cheiro...ainda usava o mesmo perfume...

Ele sentia o mesmo, o coração chegou a disparar algumas vezes. Não sabia se era ela ou uma sensação de voltar a ser adolescente. O fato é que seus cabelos, seu hálito, seu toque, o estavam remetendo a uma época de sua vida em que ele era livre, feliz, inconsequente até!

IV
De repente, um desejo louco por um outro abraço acometeu os dois...e do abraço veio a vontade de um beijo... e eles ficaram se perguntando por que mesmo o namoro deles tinha acabado...
E depois daquele beijo, veio outro beijo, e mais outro, e mais outro...

Ah, que carnaval! Bendita fita vermelha no cabelo da Luísa! Bendito batom...que sabor de cereja! Bendita cerveja gelada, deixando as pessoas mais descontraídas, mais à vontade!

Como eles estavam próximos da casa da Luísa, resolveram continuar o papo por lá, mais reservados, sem a presença daquele mundo de gente jogando confete e serpentina nos pierrôs e colombinas perdidos na tarde festiva...

Marcos havia ficado tão bom com o tempo, tão habilidoso com as mãos! Luísa, por sua vez, sabia o que queria, conhecia melhor o seu corpo e o seu desejo. A saudade era muito grande: o amor começou na sala, estendeu-se pelo quarto, pela cozinha, no banho gelado, e terminou numa noite estrelada, com o casal caminhando pelas ruas da cidade de mãos dadas.

V
Quando finalmente Marcos deixou Luísa de volta em casa, já no raiar do dia, um olhou bem fundo nos olhos do outro, e ambos agradeceram pelas noites vividas e revividas naquele encontro. Sem precisar de um acordo, resolveram não trocar telefones. Se o destino assim o quizesse, Marcos saberia como encontrar Luísa, como voltar àquela casa, como retomar aquele amor.

E, depois de um sono tranquilo e abençoado, foi hora da Luísa trocar de fantasia e se preparar para outro bloco, outra aventura, outro dia feliz de carnaval.

sábado, setembro 16, 2006

Soneto do Corifeu

Vinicius de Moraes

São demais os perigos desta vida
para quem tem paixão principalmente
quando uma lua surge de repente
e se deixa no céu como esquecida
e se ao luar que atua desvairado
vem se unir uma música qualquer
aí então é preciso ter cuidado
porque deve andar perto uma mulher
deve andar perto uma mulher
que é feita de música, lua e sentimentos
e que a vida não quis de tão perfeita
uma mulher que é como a própria lua:
tão linda que só espalha sofrimento
tão cheia de pudor que vive nua.

Sem seguro contra meus ataques particulares...

Hoje fui tomada de assalto pela angústia. Derrubou-me em ataque terrorista os castelos de areia feitos com água de fantasia e de paixão. Trouxe-me um nó na garganta, uma dor no peito e algumas lágrimas nos olhos. Mas, o principal, trouxe-me o vazio. Revi-o hoje, 11 de setembro. Já não lembrava mais a amargura que era encontrá-lo.

Esse vazio só se equipara ao vácuo que preenche o Universo: imponente, onipresente, avassalador. Ele veio para sufocar-me a alma, para tornar-me pequena, sem que haja luz no fim do túnel.

Faz tempo que eu vinha domando a energia negativa da angústia como se faz com boi brabo em festa de rodeio. Fechava-lhe as portas com um sorriso escancarado, debochado, de quem ri pela frente, mas um tanto desesperado, pregado no rosto. Fingia ser feliz, uma felicidade maior do que o mundo, para não lhe dar espaço. Não havia como deixar a angústia se instalar por aqui, não suportaria tal fato.

No entanto, esta estratégia foi funcionando bem, só que feito represa de águas turbulentas. Quanto mais você segura as águas, mais violentas elas se tornam. Abertas as comportas, o que sai acaba por varrer tudo que encontra pela frente, a destruir, ocupando vilas e casas com toda a sua força.

Quem burlou a segurança para me impor a angústia foi a verdade. Tirou-me do sonho e mostrou-me uma realidade irreparável. Agora, preciso aprender a lidar com elas, a angústia e a realidade, nuas, cruas, impávidas.

O sorriso que cultivo, contudo, vou mantê-lo no rosto. Quem sabe, usando esta máscara para sempre, vou acabar me convencendo de que sou assim.

sábado, setembro 02, 2006

Vôos e (des)ilusões...

Pela janela via aquele tapete
de nuvens brancas e espessas.
Voava em assento sobre a asa,
com uma ponta de medo,
como sempre.

O avião parecia deslizar sobre as
nuvens, sem tocá-las, sem turbulência.
Sabia que, a qualquer momento, o piloto
faria um mergulho
E assim, seria possível ver a cidade e
suas milhares de luzes lá embaixo.

Ao realizar o mergulho, ela pôde acompanhar
uma cena que parecia feita de mágica...
a ponta da asa riscando as nuvens, deixando
um rastro de passado escancarado e ligeiro.

Na sua cabeça, só havia o desejo de guardar para
sempre aquele imagem poética misturada aos
pensamentos de amor que lhe invadiam a alma.

Costumava viajar em pensamentos quando
voava, olhando o pôr do sol no horizonte, e as lindas
paisagens de sua cidade - o Rio de Janeiro - quando
a máquina decolava.

Era difícil acreditar em todas aquelas belezas juntas,
numa cidade só. E Deus fêz tudo com tanto capricho...
emocionava-se e pensava na vida, tão curta, tão efêmera.

Queria muito uma chance de viver intensamente o que sentia.
Mas, tinha que torcer para o acaso.
Se o Herói lá de cima pudesse dar uma mãozinha...!!!

sábado, agosto 26, 2006

Vinte poemas de amor - Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Proteção

No rosto da boneca de porcelana,
ela vê um olhar parado, sem expressão.
Presenciou tantos horrores, tanta tortura,
mas não tem memória!

Os olhos azuis de rímel borrado
não confessam tristezas pelo
visto nos campos de concentração.
Com o tempo, o rosto rosado
da porcelana perdeu a cor.

No braço, traz marcado o número
de sua dona, que também teve o mesmo
número marcado em seu braço.
Sobrevivera à vida nos campos.

"Como?", perguntava-se a menininha,
"Como vovó sobreviveu?"

Ganhou da avó judia a boneca de porcelana
e ouviu muitas histórias.
Aos poucos, à medida que foi crescendo,
passou a compreender a dimensão do que
sua avó dizia, o significado do número
gravado no braço de sua boneca.

O horror vivido naquela época
ficou no passado.
Vovó contava as histórias com poesia
e lirismo, enquanto tomavam o chá da tarde,
procurando amenizar para sua netinha o que
tinha vivido.

Não escondia dela, porém, o que viu:
o ódio dos homens cruéis.
Mas, em suas histórias, ressaltava a
coragem de uma sobrevivente.

E a menininha cresceu, lado a lado,
com sua companheira de porcelana.
Cabelos emaranhados de tanto penteá-los,
olhos azuis de rímel borrado e
muita fé no coração.

O nada

Sou aquela que não é.
Não existo.
Sou o nada,
pois nada represento.

Tenho um corpo, uma mente,
uma alma.
Meu espírito viaja por
planícies e planaltos
desse mundo terreno.
Mesmo assim,
não me veêm.

Sou aquela que não
precisa de ajuda, que
não pede um carinho,
um alento.

Sou aquela para quem
ninguém telefona para
perguntar se está tudo bem.
E quando alguém telefona,
sempre pensa que aguento
tudo. Mas, não aguento
quase nada.

Sou fraca, sou pequena,
mas me faço forte,
onipotente,
onipresente.
Sou aquela que Deus fez bambu
e sei que vou vergar a vida inteira,
sem quebrar.

O que me prende, o que me amarra,
é este conhecimento maldito
que trago comigo.
Quanto mais aprendo,
menos espaço tenho.
Queria, só por um dia,
a ignorância.

sábado, julho 15, 2006

Uma partida de futebol

I
Sentou-se com dificuldade no banco da praça, apoiando-se em uma bengala de madeira de cabo de madrepérola, agora sua fiel companheira. O mesmo banco da mesma praça dos últimos dez anos. Fazia algum tempo que ele começou a perceber as mudanças em seu corpo. A calça de linho recobria o corpo magro e frágil que outrora foi o corpo negro, forte e musculoso de um jogador de futebol, testemunhando a velhice que chegava lentamente.

Com a aposentadoria na serralharia, um de seus passatempos prediletos era ir até a praça Afonso Pena, perto de sua casa, e ficar olhando as crianças. Conhecia todas as que brincavam ali e quando um rostinho novo aparecia, ele tratava de se apresentar.

- Olá, meu rapaz! Eu sou o tio Zimba! E você, como se chama?

Já estava acostumado ao ritual e as crianças, nenhuma delas tinha medo dele. Ao contrário, elas o adoravam.

- Tio Zimba! Tio Zimba! Ajuda a gente a fazer a escalação dos times!?

E lá ia o tio Zimba, do alto de seus setenta e seis anos, escalar os times. Apesar do pouco espaço daquela praça destinado ao futebol, era possível bater uma bolinha sem incomodar quem passava ou desfrutava da sombra de suas árvores.


II
Nessa hora, era como se o “véio” Zimba tivesse novamente onze anos, tempo em que jogava futebol de várzea perto de casa, em Duque de Caxias. Já era um menino alto, esguio, um excelente meio de campo. Zimbinha, como era chamado, dava sempre os melhores passes, era sempre citado nos melhores lances e muito disputado na hora da escalação. Nunca fora um artilheiro, nem capitão do time, porque não precisava. O que ele queria era estar sempre jogando, pois não suportava ficar no banco de reservas.

No meio das inúmeras peladas no campo de terra batida, Zimbinha foi descoberto pelo olheiro do São Cristóvão Atlético Clube. Conversa com a mãe de cá, conversa com o pai de lá, Seu Mathias, o olheiro, consegui convencê-los de que aquela era uma grande chance para o menino, que assim eles poderiam ter a certeza de que ele iria estudar, que não ficaria mais na rua à toa e que seria bem orientado.

Aqueles foram tempos felizes, de muito futebol, muito treino e muitos exercícios físicos, para encorpar o menino Zimba. Às quintas-feiras, ele e seus amigos de clube pulavam o muro para ir ao baile. Todo mundo sabia, até o treinador, mas fingia que não sabia.

Em um desses bailes, Zimba conheceu Ana Rita, uma mulata faceira, cheia de curvas, dois anos mais velha, que mudou sua vida. Foram muitas as vezes que, mesmo cansado do treino, Zimba foi ao baile só para ver Ana Rita.

Um dia, tomou coragem e tirou Ana Rita para dançar. Zimba estava mais confiante do que nunca, pois acabava de fazer 15 anos, pêlos no rosto, já era um homem!

- Só danço com você no dia em que você marcar um gol para mim...Só para mim, pediu Ana Rita. Aquele pedido se transformou na grande meta de Zimba, que passou a treinar cada vez com mais afinco.

No dia 13 de agosto de 1944, um domingo à tarde, a seleção de juniores do São Cristóvão, que desde 1943 já era Futebol e Regatas, após fundir-se com o São Cristóvão de Regatas, jogava a decisão contra o América Futebol Clube no campo do estádio da Figueira de Melo, o Figueirinha. Casa lotada em São Cristóvão, oito mil lugares ocupados! Zimba colocou o uniforme preto e branco, olhou-se no espelho, estufou o peito e pensou: “Hoje, eu marco o gol da Ritinha”.

Aquele jogo foi o mais emocionante de sua vida, ele se recorda. Nunca mais jogou uma partida como aquela.

Uma distensão na coxa esquerda impediu que ele entrasse no primeiro tempo. Ficaria no banco de reservas, o que certamente lhe traria grande angústia. “Eu preciso de uma chance para fazer este gol, eu preciso”, pensava Zimba a todo instante, sabendo que Ritinha estaria ouvindo o jogo pelo rádio, ela lhe garantira.

Aos trinta minutos do primeiro tempo, o principal atacante do América marcou um golaço! Zimba começou a ficar ainda mais apreensivo com sua situação, pois sabia que podia ajudar o time a ganhar o campeonato. No intervalo, o técnico pediu um pouco mais de paciência a Zimba, orientou-lhe para fazer aquecimento, garantindo sua entrada em campo aos quinze minutos do segundo tempo. Zimba começou os exercícios e logo sentiu a coxa esquerda, mas não deixou que ninguém percebesse.

Ao entrar em campo, fez o sinal da cruz, como de costume, e pediu a Deus que o ajudasse a marcar o gol prometido. Na primeira oportunidade com a bola, Zimba surpreendeu a todos, driblou o centro-avante, estonteou o zagueiro e chutou no ângulo direito do gol, sem chance de defesa para o goleiro do América. “Como era mesmo o nome daquele goleiro? Ah, minha memória, onde você anda?” Cinco minutos depois, foi sua mestria com a bola que resultou no passe que levaria ao segundo gol do São Cristóvão e fecharia o placar do jogo: 2x1.

Zimba saiu de campo aclamado pela torcida, ao final da partida. Ao ser entrevistado pelo radialista, fez questão de dizer que o seu gol era para Ana Rita de Oliveira, a Ritinha, sua namorada. Em seguida, foi procurado por um senhor que o convidou a integrar o time do Clube de Regatas do Flamengo.

Ao chegar em casa, em Duque de Caxias, lá estavam seu pai, sua mãe, seus irmãos e amigos de futebol de várzea, orgulhosos de sua grande feita, e Ritinha, que fez questão de dançar com ele ali mesmo, na frente de todo mundo, ao som da batucada da rua, comemorando a vitória e a boa nova que já se espalhara. Zimba nunca ficou rico com o futebol, mas teve a vida que pediu a Deus enquanto atuou no Flamengo, primeiro como jogador, depois como assistente do treinador e finalmente como massagista.


III
O sol já estava se pondo na praça Afonso Pena. O “véio” Zimba tem dessas coisas de se perder nos pensamentos do passado. Sorri com suas lembranças, ninguém sabe de que feita ele ri. Ah, como a Vó Rita sabe disso!!

- Meu “Véio”! Ô, meu “véio”! Vamos embora que a subida é longa até a Rua do Bispo!

E assim eles seguem todos os dias, ao pôr do sol, de braços dados, bengala dando apoio, cumprimentos aos amigos de praça, pés arrastando na terra do parquinho, em direção ao casebre onde vivem na favela, o Tio Zimba, a Vó Rita e o maior amor deste mundo.

domingo, julho 02, 2006

Um trecho de Tabacaria (Fernando Pessoa)...

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem
não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado,
já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e
dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.