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domingo, julho 19, 2009

"Com jeito de ar adocicado"

Este é o título de uma crônica da Clarice Lispector publicada no livro "Correio Feminino", do tempo em ela escrevia para o Diário da Noite, jornal do Rio de Janeiro, de 1960-1961.

Reproduzo a crônica a seguir...
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"Pelos arredores de 1940, os rigores da guerra talvez tenham "pedido" que o rosto feminino fosse menos "planejado", e amulher tivesse aparência mais suave. O que os americanos chamam de "girl next door" (a moça que mora ao lado) tornara-se o ideal. Queria-se que a moça fosse muito atraente, mas, ao mesmo tempo, representando uma imagem familiar, o que repousava.

Então Betty Grable era a "pin up" de sucesso, e seu retrato fazia bater de saudade o coração dos soldados.

E as outras moças, é claro, aproximavam-se do tipo Betty Grable. Cabelos longos, por exemplo, apenas encimados por um discreto "pompadour", eram a marca essencial da beleza. Copava-se também o maquilagem moderado da Grable, o contorno de seus lábios.

E todas tinham o ar adocicado - que hoje consideraríamos ligeiramente enjoativo."

Lispector, Clarice. "Correio Feminino". Rio de Janeiro: Rocco, 2006. pp. 118.
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Lendo essa crônica, fiquei pensando no quanto acho a minha figura antiquada, daquelas que fariam sucesso na década de 50, quando a minha avó estava no auge. A mulherada daquela época usava bobs o tempo todo e ferro quente pra marcar as ondas no cabelo, coisa que tenho de sobra. Meu grande trabalho é fazer o cabelo ficar todo enroladinho, para não ficar com cara de antigüinha. O pior são estas modelos e atrizes que fazem escova modeladora e criaram um paradigma do cacho definido... ora bolas, quem tem o cabelo desse jeito?

Mas, falando sério, eu nunca me imaginei vaidosa como sou hoje. Acho que, em grande parte, é uma influência da mídia, que martela a cabeça da gente com esta história de que temos que ser lindas. Olha só a carinha fofa da Betty Grable... gente, ela tem uma cara ótima! E, venhamos e convenhamos, a gente nunca se afastou muito desse modelo... bem, na época da onda hippie, a gente até usou umas coisas impublicáveis, mas nada que assustasse muito (a não ser aquele tufo de pêlos nas axilas, o que ainda me choca tremendamente).

Eu até aguento os anos oitenta, onde a gente via a mulherada com as sobrancelhas enormes, cabelos revoltos e pêlos nas pernas e braços descoloridos (eu mesma fui uma adepta, mas acho que mais por preguiça e medo de sentir, dor do que qualquer outra coisa).

Adoro a vida de hoje e não me imagino diferente. A trilogia depilação-manicure-cabeleireiro já faz, irremediavelmente, parte da minha vida. E os cremes à noite e pela manhã já são a minha religião. Sejamos todas adocicadas e felizes, com uma carinha limpa, cabelos no lugar, unhas feitas e bons hábitos no cuidado com a pele, porque o sol é implacável até no inverno!

terça-feira, agosto 26, 2008