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terça-feira, julho 21, 2015

o vazio


Sem se dar conta, não percebe sua aproximação. Sente uma gastura, uma falta, uma inquietação. Causa uma aflição, um desassossego. E se instala. O vazio. Nada o preenche, ele sabe. Não é externo, é existencial. Por vezes, causa dor física. Não lhe impele a fazer algo, ao contrário, clama pelo ócio. Faz com que ele o confunda com preguiça. Mas não é. O vazio o leva a olhar o branco do teto. Encontra rachaduras, pequenos insetos nos cantos, percebe sujeiras, restos de teias. O vazio o oprime. É como o calor de verão no Rio de Janeiro, abafado. Perde água. Pede água. O vazio é a falta dela, tem o cheiro do perfume do cabelo dela, faz o barulho do andar dela, do mastigar dela, do gargalhar dela. O vazio é úmido, e seco. O vazio é ela.

sexta-feira, novembro 15, 2013

Saudade do que não viveu


Abriu sua caixa de lembranças e foi tirando as fotos dele que ela guardava com tanto carinho. Estavam um tanto quanto amareladas, mas aquelas imagens ainda tinham um certo frescor, e pareciam revelar o amor profundo que ele sentiu por ela um dia. Um amor não declarado em palavras, mas confessado em atos desencontrados, inócuos, inúteis. 

Ela o amou por tanto tempo, que só conseguia enxergar sua vida ao seu lado... Quando resolveu romper o ciclo e seguir adiante, ela se viu perdida no caminho, como se não soubesse caminhar sem ele, andar ereta, sobre os dois pés... por muito tempo se sentiu cambaleante, sem seu prumo de sempre, sem o porto seguro dela para ancorá-la. Foi difícil.

A data da resolução se tornou emblemática em sua vida. E ela começou a contar o tempo a partir deste dia. Dez dias sem saber dele, depois, 20. Um dia, já eram 50 dias. E o que ela viu foi a lembrança dele apagando de sua memória, o rosto sumindo, a mente esquecendo o som de sua voz, os dedos da mão, os pelos do peito, o cabelo, o perfume que ele usa, o estilo das roupas, o jeito de andar e de dizer a ela o que fazer...


Passou o tempo e, de repente, lá estava ela sentada no chão do quarto, com a pequena caixinha de lembranças que lhes eram caras aberta ao seu lado, olhando as fotos, se perguntando se aquilo tudo tinha mesmo acontecido, se aquelas fotos eram de verdade, se aquilo tudo era desta vida, a vida dela, ou de outra pessoa, se ele tinha sido de verdade, se o amor que ela sentiu foi verdadeiro, se não foi tudo invenção da sua cabeça, e como é que ela ia viver o resto dos seus dias sem ter contato a ele!!!!????? Não se cabia em si de tanta saudade.


Sabia que só o que tinha que fazer era esperar. Que do mesmo jeito que ele um dia lhe abriu os braços em plena rua para lhe oferecer abrigo, ele ia voltar a fazê-lo um dia. Se fosse mesmo para ser.


Mas, por via das dúvidas, guardou as fotos na caixa, e a escondeu no lugar de sempre. Somente para garantir provas de sua sanidade, para se saber sã, e não uma louca onírica.


quinta-feira, julho 25, 2013

Inferno astral, a visita do Papa Francisco ao Rio de Janeiro, Acumuladores e outras drogas

Eu vinha pensando aqui num tema para o post, já que tivemos no Rio de Janeiro uma semana bastante agitada, coroando um período igualmente agitado de manifestações nas ruas. Não daria para escrever ficção esta semana, com a realidade gritando na nossa cara, se é que vocês me entendem.

Foi mesmo uma semana realmente bonita e difícil ao mesmo tempo. Para que aniversaria no início de Agosto, só pude concluir que poderia ser o efeito do meu inferno astral, a todo vapor. A vinda do Papa Francisco ao Brasil trouxe um sopro de alegria e esperança para alguns, mas revelou uma juventude histérica que eu desconhecia, e que estava escondida sob o manto da renovação carismática. Sem querer gerar polêmica, tudo que eu vi através da televisão me deixou muito chocada e preocupada. Ele não é a reencarnação de Jesus Cristo, nem o Divino Espírito Santo em pessoa. É, quando muito, um ser humano muito carismático, que sabe usar bem as palavras e tem um sorriso doce e encantador. Como cheguei a postar em outra mídia, parece que tudo que se quer neste momento de exposição infinita é pão, circo e Facebook, o que, sinceramente, não é legal. Não basta ver o Papa, é preciso espocar um flash de máquina fotográfica em seu rosto para garantir o post. Isso me dá medo e me leva a achar que nosso futuro não é lá dos melhores.

O Papa Francisco visita a Comunidade de Varginha. Fonte: O Globo.

Para quem vive no Rio de Janeiro, foi um drama. Fora a movimentação de "peregrinos", pessoas de outros estados e de outros países que vieram para a Jornada Mundial da Juventude, algo que o Governo estima em 2 milhões de pessoas, tivemos as manifestações programadas por meio das redes sociais, chamando a atenção para os diversos problemas que temos enfrentado e também rechaçando as "leis" apregoadas pela Igreja Católica. A gente viu até beijaço gay rolando na escadaria de uma igreja próxima de onde o Papa estava reunido com as autoridades, no Palácio Guanabara.

Manifestação na escadaria da Igreja Nossa Senhora da Glória, 
no Largo do Machado, RJ. Fonte: O Globo.

O resultado disso é que nosso Sistema de Transportes não deu conta. Não é só porque o sistema é ruim, e os investimentos necessários não foram feitos por quem detém a concessão. Foi também por má vontade. Imaginem que ontem, com as ruas do meu bairro interditadas aos automóveis por conta da passagem do Papa, o Metrô Rio resolveu fechar as portas das estações justamente no momento em que as pessoas voltariam para as suas casas no - praticamente - único meio de transporte possível, por conta do excesso de pessoas nas ruas. Não seria este um motivo surreal? Não seria este o motivo que justificaria o sistema funcionando a pleno desempenho? Pois foi o que ouvi no auto-falante quando desembarquei.



E é lógico que isso foi parar no jornal. No local e em outros jornais mundo a fora: O Globo, El País, Le Monde, Washington Post, Chigaco Sun Times... Uma vergonha!

Para minimizar o caos, fomos liberados do trabalho. Quem não se planejou para viajar, como eu, teve que amargar uma cidade indecisa, que não sabe se está no meio de um feriadão ou se funciona normalmente. As pousadas da cidade do entorno, todas lotadas. No Rio, abrindo as portas com certeza, estão as lojas do Mc Donald's, que estão lucrando com o pouco dinheiro no bolso destes peregrinos. Estou em casa por cinco dias, tentando me recuperar de uma gripe que veio junto com um frio polar inexplicável. Anda nevando muito neste país, o que parece pegadinha do camarada hermano.

Já concluímos aqui em casa que trata-se de uma guerra de egos, qual deles é maior? O de São Pedro ou o de São Francisco? Como chove, meu Deus! Como está frio e úmido!

Fonte: Climatempo

Aproveitei o mal tempo para olhar meu armário. Mesmo com as férias, eu não tinha tido coragem de encará-lo, mas hoje, fui procurar algo e me choquei com o excesso. Ando comprando coisas de que não preciso e, pior, que não chego a consumir. Em que pese a minha preocupação, me lembrei logo do programa Acumuladores, que passa no Discovery Home & Health e que mostra pessoas com um tipo de doença psíquica que as leva a acumular coisas e ter uma profunda dificuldade de se desvencilhar delas. Será que ando sofrendo do princípio deste mal? Seria isso algum tipo de compensação, semelhante à que nos leva a comer e a engordar? Quando é que isso é algo que merece ser tratado? Fiquei bolada...

Fonte: Discovery Home & Health

 Para terminar meu desabafo, fiquei pensando esta semana nas drogas que me abastecem. A saudade é uma delas. Como ela me consome e me tortura...!!!Tenho resistido, mas talvez esta saudade até renda um conto, quem sabe?

Bom, passei por aqui só para dar notícias para vocês. Inté!

quinta-feira, junho 07, 2012

Saudade, das boas

 

Ela foi a última a entrar no avião, que estava lotado. A comissária só a aguardava para fechar a porta e dar início às instruções de decolagem. Procurou seu acento e sentou-se, esbaforida, tratando de colocar sua bolsa de mão embaixo da cadeira da frente.

Quando relaxou, apertou o cinto de segurança e colocou um chiclete na boca, sentiu um desconforto. Devagar, olhou para o lado. Ele estava ali, sentado ao seu lado. Dez anos depois.

Quando terminaram o namoro, ela sofreu tudo que tinha pra sofrer. Parou de comer, a vida perdeu a graça, não quis sair de casa por dois anos inteiros. Ele era tudo pra ela, a luz que iluminava seus caminhos, a única razão de viver, ela não olhava para o lado quando estava com ele. Pensando bem, mas muito bem mesmo, aquilo era uma doença. Das boas.

Depois de muita análise, ela chegou a triste conclusão de que tinha passado seis anos em função de uma única pessoa - e que não era ela. Péssimo isso. E com o tempo, havia esquecido de se perguntar: é isso que eu gosto de fazer? É isso que eu quero fazer hoje? É pra isso que eu quero mesmo viver?

Sempre abria mão de suas vontades para agradá-lo, porque ele "era o homem da sua vida". Muito pouco pra mulher que ela era hoje, decidida, forte, coerente.

Dez anos haviam se passado e eles nunca mais haviam se falado. Sabia dele pelos outros, que insistiam em contar para ela como ele estava, com quem tinha casado, onde estava morando... isso sem ela perguntar, nunca perguntara, nunca quisera saber. Saber pra quê?

Das vezes que o viu no shopping perto de casa, fingiu que não o conhecia, que ele não havia sido o homem com quem desejara envelhecer, com quem desejara ter uma família, a quem amava mais do que tudo...

E agora ele estava ali, sentado ao seu lado.

Ele também estava incomodado. E não pretendia falar com ela. Até que ela se virou para ele e disse:

- Afinal, como você está?

Ele ficou surpreso com o tom da pergunta e com a pergunta em si, mas respondeu:

- Bem, e você?

Daquele momento em diante, eles deixaram o inevitável de lado e começaram a conversar sobre a vida, seus desdobramentos, filhos que vieram e os que não vieram, separações, encontros, e o desconforto foi passando, ela foi percebendo que aquilo já não a incomodava tanto, afinal eram dez anos...

Trocaram impressões sobre a vida, sobre tudo o que havia mudado em cada um em termos de expectativas, sobre o que haviam sentido quando se separaram. Sim, eles falaram sobre eles, com uma franqueza que nunca haviam usado quando estavam juntos. Viram que a vida deles juntos não era assim o mar de rosas que havia ficado na memória dos dois. E que os desgastes existiam e que era natural que eles não ficassem juntos.

Foram 45 minutos. São Paulo - Rio.

O avião pousou suavemente e ela pôs outro chiclete na boca. Ele olhou para ela em silêncio por longos 2 minutos, enquanto ela abria a bolsa, tirava um batom, penteava o cabelo com os dedos, e retocava a maquiagem. Ele nunca a vira fazer isso.

- Bom te ver, ela disse.

- Idem, fiquei feliz por saber de você - ele respondeu.

E foram cada um para o seu lado, certos de que haviam feito a coisa certa, mas com saudade do toque, do beijo, das mãos... uma saudade perdida no tempo.

Música do dia: Need you now - Lady Atebellum

terça-feira, abril 17, 2012

Inquietações




Eu devia estar preparando aula. Ou me preparando para dormir. Enquanto isso, estou aqui, atormentada pelos meus pensamentos. Há tempos que não saio assim da terapia. Mas, hoje foi extremamente difícil. Tanto por falar, tantas dúvidas e inquietações rondando a minha cabeça,..., e no fundo, no fundo, acho que o que eu preciso de verdade é de perdão. Eu preciso me perdoar. Preciso me perdoar de todos os meus arrependimentos, das coisas erradas que eu fiz, das coisas erradas que eu não fiz, das certas...

E, como nada é por acaso, não foi à toa que eu dei aquele telefonema antes de chegar ao consultório. Ouvir aquela voz, num estado de espírito tão diferente do habitual, como se algo de muito ruim tivesse acontecido, foi como perder o chão, o rumo, a direção... eu fiquei trôpega, perdi a noção do perigo, só queria chorar... me senti tão abandonada como da vez em que eu descobri a verdade sobre o dono da voz.  É como se perdesse meu porto seguro uma segunda vez.Tão ruim esse sentimento.

Da hora em que cheguei  em casa, foi só o que fiz... chorar... Tenho pensado na solidão, na saudade, na falta, no vazio, em tudo o que poderia ter sido se eu tivesse feito outras escolhas... mencionei isso hoje à terapeuta... tenho reclamado muito da minha covardia... tenho me achado muito covarde.

Enquanto isso, todo mundo insiste em dizer que eu fui muito guerreira, que foi bacana acompanhar a minha gana de dar a volta por cima. Eu bem que tento me manter altiva, determinada, com minhas metas e objetivos sempre em mente, pensando que o que se passa hoje é “café pequeno” perto do que se pode conquistar no futuro. Mas, enquanto eu penso que não posso, nem devo fazer “tempestades em copos d’água” como fazia antes, sinto o peso de não dar importância a certas coisas... E esperar o futuro pra quê? Se tudo o que eu mais queria era ser feliz agora!

É como se de repente, fosse possível tirar o foco do indivíduo e colocar o foco no caminho. Eu sei que é difícil, mas é plenamente possível e realizável. Só que esperar dói. Ter esperança é complicado, a gente sonha, e demora a realizar... quando, meu Deus, quando? Será que eu mereço?

São muitas perguntas para uma pessoa só. Talvez você, que me lê, nunca tenha passado por isso, nem esteja entendendo direito o que escrevo. Ou talvez se identifique com essas minhas loucas palavras. Liga, não. Amanhã é outro dia. E a jornada continua.

Referências: clique aqui!

Música de hoje: Clock - Coldplay

sábado, fevereiro 18, 2012

É Carnaval! E eu sinto saudades...


Hoje a minha avó Irma faria aniversário. Como ela me faz falta. Já se vão 4 anos que ela se foi e eu ainda sinto o vazio de não tê-la para conversar ao telefone quando eu chego do trabalho. Era sempre assim, uma rotina, um ritual. Quando eu achava que ia me atrasar, ligava do caminho, era bom, era quase uma terapia extra. Explicar para a vovó as modernidades da vida, o que era e-mail, o que era internet e, principalmente, o que eu fazia no meu trabalho... um sufoco, mas bem gostoso!

Eu pensei numa música de Carnaval alegre, para homenagear a Irma, que faria muitos anos hoje, se estivesse viva (90)!!! E lembrei de Fita Amarela, do Noel Rosa. Noel, sempre ele.

Fita Amarela
Noel Rosa

Quando eu morrer, não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela gravada com o nome dela
Se existe alma, se há outra encarnação
Eu queria que a mulata sapateasse no meu caixão

Não quero flores nem coroa com espinho
Só quero choro de flauta, violão e cavaquinho
Estou contente, consolado por saber
Que as morenas tão formosas a terra um dia vai comer.

Não tenho herdeiros, não possuo um só vintém
Eu vivi devendo a todos mas não paguei a ninguém
Meus inimigos que hoje falam mal de mim
Vão dizer que nunca viram uma pessoa tão boa assim.


segunda-feira, janeiro 30, 2012

Triste que só...


Hoje eu acordei meio triste. Triste que só. Peguei o taxi para o trabalho depois de sofrer para escolher uma roupa. Estava lá, morna, sôfrega, cheia de saudade. É isso, estava explodindo de saudade. Mas, aguentando firme. Entrei no taxi e o motorista ouvia rádio. Músicas tão lindas, mas tão lindas, que transbordei. As lágrimas pingavam sobre a minha calça bege e eu ali pensando que ia chegar inchada no trabalho. Chorei à beça, o motorista ali, me olhando de rabo-de-olho, sem ter muita certeza se eu estava gripada ou chorando mesmo. Eu bege como a calça, mas fechada no meu mundinho triste, com as lágrimas pulando...

É isso, a estratégia é passar em algum lugar antes de ir ao trabalho. Está bem, vou ao caixa eletrônico.

Ao longo do dia, a sensação de desânimo foi passando. Eu fui pensando em outras coisas, trabalhando, trabalhando... A vida é mesmo curiosa. Atividade não me deixou menos triste. Mas, é isso. Um dia estamos bem, noutro um pouco mais amoadas e só nos resta esperar um novo dia... Só não podemos esquecer que somos "da raça da pedra dura"...








Somos mesmo!


Música do dia

segunda-feira, outubro 25, 2010

Cateribúnticos - saudades

Paulinho parou com o blog. Enjoou.

Eu, que dava risada cada vez que entrava no blog dele, fiquei órfã. Paulinho já era ácido nos comentários, mas PRG era mais.

Agora, eu quero que ele volte. Estou com saudade do blog!

Saudade mata a gente, PRG!

domingo, maio 02, 2010

Eu tô voltando pra casa

Tenho um amigo que diz que quando a gente faz uma viagem grande, o corpo chega no desembarque, o espírito só chega dois dias depois. Eu tô assim, cansadíssima. A viagem foi exaustiva, chegamos no aeroporto 8 horas antes do embarque e ficamos lá o dia inteiro. Um sábado praticamente perdido. Mas, de muitas compras.

Chegar em casa foi muito bom. Ver que acertei na maior parte dos presentes pros meus queridos também. Mas, o melhor foi reencontrar a minha família e deitar ali, na minha cama, ver a tv em português, e até ouvir a música do Fantástico no final de domingo!

Priceless!

Depois eu conto mais...

sexta-feira, abril 30, 2010

Longe de casa, há mais de uma semana...


Eu não estou aguentando mais essa distância de casa. Não consigo me imaginar um mês vivendo isolada num quarto de hotel. Não é pra mim. Tem gente que adora. Eu, não. Você fica louco para ouvir alguém falando português. E agora tudo que eu quero é comer comida caseira: feijão com arroz. Frescos, quentinhos, cheirando bem no fogão lá de casa.

Comecei a fazer as malas hoje. Malas, no plural, porque eu tive que comprar mais uma de mão e outra para despachar. Muita tralha, muitas encomendas, muitas lembrancinhas. Ô, lugar bom de se comprar...

Parece que não vai dar. É muita coisa. Mas, vai ter que dar. Sábado, terei uma manhã complexa, arrumando tudo, até que dê. E logo eu que não gosto destes excessos. Mas, fazer o que, não é mesmo?

Tenho me perguntado muito sobre grande parte das pessoas que trabalham na minha empresa e que, quando passam no concurso, têm que ficar quase um ano longe de casa, fazendo curso, morando em hotel. Deve ser horrível, dá uma sensação de exílio. Saudades de pessoas, de cheiros, de barulhos, da rotina, dá saudade das coisas boas e das ruins.

Agora, quase todos os desafios já foram vencidos, só falta um grande, amanhã. Uma palestra em inglês. Estou tremendo por dentro.

Mas, vamos à ele!

domingo, abril 25, 2010

Saudades de casa

Já não vejo a hora de voltar!


Na foto, meu travesseiro inseparável, mais Teddy, meu novo e fiel escudeiro e meu pijaminha!

Zoológico em SD*

Chegamos ao zoológico de San Diego às 10 horas da manhã, mais ou menos. Andamos por todos os cantos, vimos pandas, coalas, ursos polares, elefantes, leoas, zebras, araras voando soltas entre a gente, os flamingos, pavões, chipanzés, gorilas, hipopótamos e toda sorte de animas. O abutre é incrível, nossa, como é grande!


É uma experiência muito bacana, mas num sobe-e-desce-morro dilascerante. Então, quando a gente pensa que acabou, tem o teleférico, que é o maior barato e te permite ver o parque de cima, por todos os lados.

Daí que estávamos quase saindo do parque, quando eu me dei conta que, nos autofalantes da lanchonete próxima a saída do parque, emanava um sambinha bem brasileiro: era entoado pelo Jairzinho, filho do mestre Jair Rodrigues. Isso me deu uma emoção danada, uma coisa de dar um nó na garganta.

É incrível como a gente sente falta da nossa terra quando estamos longe.

sábado, novembro 07, 2009

Saudades das Tias Fofinhas...

I wanted to be with you alone and talk about the weather
But traditions I can trace against the child in your face
Won't escape my attention
You keep your distance with a system of touch and gentle persuasion
I'm lost in admiration, could I need you this much
Oh, you're wasting my time, you're just, just, just wasting time

Something happens and I'm head over heels
I never find out till I'm head over heels
Something happens and I'm head over heels
Ah, don't take my heart, don't break my heart
Don't, don't, don't throw it away

Throw it away. Throw it away

I made a fire and watching it burn (yeah) Thought of your future
With one foot in the past now just how long will it last
No, no, no, have you no ambitions, (What's the matter with...)
My mother and my brothers used to breathing clean air
(Nothing ever changes when you're acting your age)
And dreaming I'm a doctor
(Nothing gets done when you feel like a baby)
It's hard to be man when there's a gun in your hand
(Nothing ever changes when you're acting your age)
Oh, I feel so...

Something happens and I'm head over heels
I never find out till I'm head over heels
Something happens and I'm head over heels
Ah, don't take my heart, don't break my heart
Don't, don't, don't throw it away

And this is my four leaf clover
I'm on the line, one open mind,
this is my four leaf clover

La la la la la, la la la la la, la la la la la la...

In my mind's eye
One little boy, one little man
Funny how time flies



_______________
Tears for Fears, Head over Heels, Songs from the Big Chair, 2001.

quarta-feira, junho 03, 2009

Flor de Lótus

Há duas semanas, tenho pensado diariamente na minha amiga Flor de Lótus. É estranho sentir falta de alguém, mas não encontrar tempo para passar a mão no telefone e dizer um alô. Eu adorava quando a gente trabalhava junto e fugíamos no meio da tarde para ela fumar um cigarro enquanto conversávamos um pouquinho... era a minha hora do recreio e ela sempre tinha uma ponderação interessante para fazer em relação a uma ou outra situação na empresa.

Tanto que criou o blog Esquizofrenia Corporativa, que está aí nos meus favoritos. Mas, ela também anda muito ocupada, pois às vezes, de tempos em tempos, me envia uma mensagem falando que vai dar notícias (rs rs rs), e acaba não conseguindo ligar.

Minha querida Flor de Lótus, as coisas continuam as mesmas, eu continuo carregando o piano, mas estou bem. E tenho saudades de você. Fique com Deus. Um beijo pra sua filhota.

sexta-feira, maio 01, 2009

Airton Senna

Pela manhã eu acordei ouvindo a Ana Maria Braga dizendo que hoje faz 15 anos que nós (o Brasil e o mundo) perdemos o Airton. Em seu programa estava a Viviane Senna, irmã do Airton, que chorava copiosamente ao ver as cenas que a equipe do programa havia preparado. Eu chorei junto.

A Viviane fez um comentário engraçado. Ela disse que em todo lugar que ela vá, qualquer pessoa que ela encontra, o papo é sempre o mesmo. As pessoas sempre querem contar para ela onde estavam e o que estavam fazendo, quando o Airton morreu. Em qualquer lugar do mundo, as pessoas se lembram o que estavam fazendo. Eu também. Lembro que estava vendo a corrida com o meu pai e quando o Airton sofreu o acidente, lembro do papai dizendo: "Não é possível. Não é possível". Lembro do pesar na voz do papai. E lembro que sofremos a morte do Airton como se estivéssemos perdendo alguém da família, um cara que admirávamos muito.

Nesse vídeo do Youtube, as imagens e a mensagem são muito bonitas. Refletem o que nós, os brasileiros, sentimos.


Eu fiquei um bom tempo sem conseguir ver a F-1, meu programa favorito de domingo. Ainda hoje não é a mesma coisa, ainda acho que o tema da vitória não deveria ser usado por mais ninguém. Como disse o Barrichello hoje, esse era o tema do "chefe".

Cara, onde quer que você esteja, que você saiba que ainda hoje, sentimos muito a sua falta!


PS.: Uma curiosidade, alguém se lembra que o Airton teve uma paralisia facial em 1984, que foi confundida com um AVC? É que ele era alérgico ao ar-condicionado, mas com massagens e um remédio a base de cortisona, ele ficou logo bom!

quarta-feira, outubro 08, 2008

Saudades

Ando sofrendo de saudades agúdas. E parece que a minha vida tem trilha sonora, meu rádio interno está sempre ligado. No meu iPod, enquanto viajo e estou longe de tudo, da TV, do jornal e da vida lá fora, com esse tempo passando tão devagar e, ao mesmo tempo, tão rápido, não pára de tocar uma música do Jota Quest, que me encanta e emociona. Reedito um post antigo, no qual a publiquei. Sempre a terei no fundo do coração, com muito carinho, assim como tenho a pessoa de quem ela me lembra.


Só Hoje
JotaQuest

Hoje eu preciso te encontrar de qualquer jeito
Nem que seja só pra te levar pra casa
Depois de um dia normal

Olhar teus olhos de promessas fáceis
E te beijar a boca de um jeito que te faça rir
Que te faça rir

Hoje eu preciso te abraçar
Sentir teu cheiro de roupa limpa
Pra esquecer os meus anseios
e dormir em paz

Hoje eu preciso ouvir qualquer palavra tua
Qualquer frase exagerada que me faça sentir alegria
Em estar vivo

Hoje eu preciso tomar um café, ouvindo você suspirar
Me dizendo que eu sou causador da tua insônia
Que eu faço tudo errado sempre, sempre

Hoje preciso de você
Com qualquer humor, com qualquer sorriso
Hoje só tua presença
Vai me deixar feliz
Só hoje

sexta-feira, julho 27, 2007

Um pouco de coragem...

I
Eram exatamente cinco horas em ponto quando ela desceu a plataforma do metrô. Teve tempo de olhar o relógio, pois o trem acabara de partir e ela já sabia, por experiência, que, naquele horário, um novo trem levaria cinco minutos para chegar. Enquanto isso, ficou se distraindo com os detalhes daquele ambiente antigo, talvez porque aquela tivesse sido uma das primeiras plataformas a serem construídas na cidade. Duas escadas, lado a lado, lajotas retangulares de cor creme, a mesma música clássica de sempre, piso emborrachado negro, duas vias paralelas, uma para o trem que segue em direção a Zona Sul, outra para o que vai para a Zona Norte.

Já se iam oito meses que eles estavam separados. A saudade, que em alguns dias era maior, noutros menor, naquele chegava a doer. Ela ficava se perguntando: "será possível perdoar alguém sem que seja possível esquecer o que esta pessoa lhe fez"? Ela sabia que o que havia feito a ele tinha sido muito grave, aos olhos dele, e que dificilmente, ele conseguiria passar uma borracha sobre tudo que aconteceu e aceitá-la de volta. Mas isso era exatamente o que ela mais desejava, o que ela pedia a Deus todos os dias, um perdão. Depois do relacionamento que tivera com ele, ela tentou outros relacionamentos furtivos, bobos até, sem maiores conseqüências. Alguns serviram para provar que ela ainda era muito boa de cama. Outros se tornaram entediantes, já que o diálogo, quando existia, era de péssima qualidade. Enfim, nada, nem ninguém, conseguia tirá-lo de dentro dela... E ela estava cansada de tentar esquecê-lo, de tentar descobrir uma fórmula para esquecer um grande amor com outro amor (não era isso que suas amigas sempre lhe diziam?)...

Pensando nisso tudo enquanto olhava para aqueles cartazes de propaganda que enfeitavam (ou enfeiavam?) a parede da estação, percebeu que o trem, que seguia para a direção oposta a que ela pretendia seguir, aproximava-se da estação praticamente vazio. Nem parecia que eram cinco da tarde (cinco e três, para ser mais precisa). E ele estava lá, dentro do vagão que estacionou em frente a ela. Sozinho, de costas, de pé. De pronto, ele não a viu, mas como se tivesse sentido a sua presença, virou-se na direção dela. Quando descobriu ela ali, do outro lado da estação olhando para ele, ficou sem ação, sem graça, e abaixou a cabeça. Depois, a levantou ligeiramente, olhou novamente para ela e sorriu com o canto da boca, meio sem saber o que fazer. Ela, emocionada, queria fazer um gesto qualquer, queria pedir a ele que lhe telefonasse, mas, ao contrário, nada fêz. Continuou de pé, olhando para ele, sentindo seu coração acelerar e temendo que, a qualquer momento, ele pudesse sair-lhe pela boca. O trem fechou as portas e começou a acelerar. E foi sumindo dentro do túnel escuro.

Cinco e quatro. O trem dela começava a aproximar-se. Ela já estava atrasada para o seu compromisso, mas, mesmo assim, assistiu ao trem chegar a plataforma, abrir as portas, deixar passageiros, receber novos deles, e partir. E continuou imóvel, torturada por sua total falta de ação. Uma lágrima escorreu pelo canto dos olhos e ela tentou disfarçar para que não vissem que ela estava chorando. A maquiagem borrou um pouquinho, mas ela logo conseguiu consertar a “máscara”. "Como alguém que quer tanto uma chance pode deixar que ela escape assim, por entre os dedos"?

Cinco e oito. Um novo trem se aproximava. Recomposta e decidida a aproveitar a próxima oportunidade, ou a descolar uma para dar uma ajudazinha no destino, ela resolveu que iria seguir neste trem, pois seria de muito mau gosto deixar suas amigas esperando.

Quando a porta se abriu, lá estava ele, de pé, olhando para ela. Estendeu-lhe a mão, praticamente pedindo que ela entrasse no vagão. Havia descido na estação seguinte, retornado e ficara torcendo, no seu íntimo, para que ela não tomasse a composição que aparecesse imediatamente, dando-lhe tempo de chegar ao seu encontro. Aquele tempo longe dela havia sido muito difícil para ele também e ainda doía muito saber que ela o traíra com um antigo namorado, ainda mais por ter sabido da história por ela mesma.

Ela entrou no vagão e ficou olhando para ele. “Para onde você está indo?”, ele perguntou. “Para a estação do Flamengo, encontrar com a Lúcia, a Bella, a Renata e a Malú, lembra delas?”. “Claro que sim”, ele fitou seus olhos, “então temos alguns minutos para conversar”... “Que bom que você voltou”, ela lhe disse, ainda emocionada... “Estava indo para casa?”. “Não, não moro mais por aqui. Estava vindo apenas checar se havia alguma correspondência para mim com o porteiro. Mas, posso fazer isso outro dia”. A respiração dele também estava bastante ofegante. “Como você está?”, ele sussurrou para ela. “Na verdade, estou indo. Está tudo na mesma. Continuo com o mesmo trabalho, no mesmo apartamento, saindo com as mesmas amigas. Mas, sinto muito a sua falta, esse sentimento é novo”, ela respondeu em tom confessional. “Será que não poderíamos tentar ser amigos? É muito difícil?” “É! Você nem sabe quanto!”, ele retrucou.

Então, eles ficaram um bom tempo se olhando, como se ali não houvesse mais ninguém, ignorando o vai-e-vem das portas, como se quisessem fazer algo que não pudessem. Como se o certo fosse errado e o errado fosse o mais certo possível. Estavam tão próximos, que ela podia sentir seu hálito quente, seu perfume fresco e agradável, amadeirado, sua respiração. Ele estava suando frio, podia perceber. Olhava para ela como que se quisesse lhe dizer alguma coisa, mas não disse.

Ela respirou fundo e pediu: "Se você mudar de idéia, me liga?" "É claro", ele respondeu. Ela então beijou-lhe o rosto e desceu na estação do Flamengo, deixando um ex-namorado para trás, visivelmente perturbado com o encontro.

II
Encontrar as amigas era um costume freqüente de Rafaela. Pelo menos uma vez por semana, em geral aos sábados, elas se encontravam para fazer um lanche e colocar o papo em dia. Na maioria das vezes, conversavam sobre namorados ou potenciais namorados. Às vezes, sobre “ficantes”. Esporadicamente, sobre trabalho. Elas eram amigas há muito tempo, desde os tempos da faculdade. Cada uma tinha seguido o seu caminho. Não trabalhavam na mesma empresa, mas tinham mantido a amizade. Quanto mais o tempo passava, mais elas tinham a certeza de que tinham umas as outras.

Rafaela parecia um pouco distante para as amigas naquele dia. Apesar de ser a mais tagarela, ela pouco abriu a boca. A conversa foi entremeada por “hum, hum”, “hã, hã” e outros murmúrios, e ela sequer chegou a emitir sua opinião quando Bella contou ao grupo que estava pensando em largar o emprego para cuidar exclusivamente da casa, do marido e das crianças, uma atitude impensável para Rafaela tempos atrás, quando ela teria sido a primeira a bater boca com a amiga, alegando que isto não era atitude digna de uma mulher do século XXI. Elas eram “balzaqueanas” agora, sentiam o peso da idade, mas adoravam ter a experiência que os trinta anos traziam.

Rafaela estava longe. Só conseguia pensar no encontro com Cezar, em como ele a havia olhado, em como ela gostaria de ter lhe abraçado e confessado que ainda o amava, correndo o risco de ser novamente desprezada por ele. Pensava também se deveria contar para as amigas sobre o encontro no metrô, por um lado temendo pela reação delas, por outro, querendo um conselho, uma direção, uma palavra que lhe servisse de amparo.

O lanche não se estendeu muito naquele dia, porque, coincidentemente parecia que todas elas tinham mais o que fazer. As amigas se despediram e Rafaela resolveu que ia andar até o Museu da República, para espairecer e pensar um pouco. No caminho, pensava se Cezar ia conseguir perdoá-la e telefonar para que conversassem um pouco mais. “Mas como perdoar, se ele não consegue esquecer?”, ela se perguntava. E ela, será que já tinha se perdoado pelo que tinha feito? Por que às vezes temos a impressão de que o desejo sexual por uma pessoa é mais forte do que o amor que sentimos por outra? Por que as pessoas não pensam nas conseqüências antes de agir por impulso?

Chegando ao Museu, percebeu que ele estava fechado. Os funcionários estavam em greve, já há dois meses, e Rafaela havia esquecido completamente deste detalhe. Não lhe restou muita opção a não ser tomar novamente o metrô em direção a Tijuca. Talvez tivesse vontade de andar um pouco mais e descesse no caminho.

III

“Por que é tão sério quando o traidor é a mulher, e tão mais fácil de aceitar quando quem trai é o homem?” Rafaela sabia que essa sua pergunta podia ser vista como uma tentativa desesperada de se desculpar, ou de minimizar o problema, mas o fato era que a sociedade perdoava mais facilmente um homem que trai do que uma mulher que o faz.

Ela foi para casa e ficou pensando no encontro, pensando em quantos dias Cezar ia levar para tomar uma atitude e telefonar, pensando se Cezar ia tomar uma atitude qualquer, ou se virar a página daquele relacionamento tinha sido a sua primeira e irreversível decisão. Lembrou-se do quão difícil fôra definir que o relacionamento que mantinham era um namoro. Ficaram juntos dois anos até começar a dizer para os amigos que estavam namorando. Disseram-se amigos por muito tempo e quando assumiram seu relacionamento, sentiam que já se conheciam muito bem. Ela sabe o quanto deve ter feito Cezar sofrer com aquela revelação, já que tudo ia bem, que eles estavam bem, se gostavam, se curtiam, saiam bastante e ele não havia notado nada de diferente nela. Nem ela sabia como ele não havia notado nada de diferente nela. Talvez ele simplesmente não quisesse notar que ela estava diferente e distante no final.

IV

"Por que razão eu não percebi que estava acontecendo algo no final do nosso namoro? Ouví-la confessar que me traía foi pior do que descobrir por mim mesmo, me mostrou o total desconhecimento sobre aquela mulher, aquela que eu dizia que amava, aquela que eu achava que conhecia bem, que queria para mim, para o resto da minha vida". Do outro lado da cidade, Cezar estava pensando, pensando, pensando em Rafaela, desde a hora em que ela se despediu dele com um beijo no rosto e ele ficou desejando que tivesse sido na boca, quente, molhado, como era antes.

O que era adequado fazer nestas situações? Encarar o fato de que ele ainda não estava preparado para viver longe dela ou suportar a dor da saudade e evitar os reencontros? Como afinal aquele encontro casual fôra acontecer? Por que, de fato, ele havia decidido voltar e encontrá-la? Por que ele teve tanta certeza de que ela estaria lá, parada, aguardando o próximo trem? Será que ele estava preparado para ser só amigo?

V

Quando o telefone tocou três vezes e parou, Rafaela percebeu que teria que ser rápida na próxima vez e atender. Era o Cezar do outro lado, ela sabia, e ele poderia desistir, se ela não atendesse rapidamente.

O telefone tocou novamente e ela imediatamente atendeu. "Alô!", disse afoita. "Alô! Rafa, é você?" Bingo! Era ele. Dois dias haviam se passado até que algo mudou. Ele ligou. Parecia que ele tinha muito pouco a dizer, mas muito para falar. E queria ouvir também. "Vamos nos ver?", ele pediu. "Claro, onde?" "Olha, abriu um bistrô muito simpático aqui perto de casa, na Rainha Guilhermina, a gente pode se encontrar na esquina da Rainha com a General San Martin, você conhece?" "Conheço, te encontro em 40 minutos, pode ser? É o tempo de me arrumar e tomar um taxi!" "Pode. A propósito, o que você está escutando? É a Norah?" "É, 'Come Away With Me', seu disco favorito, lembra?" "Lembro. Engraçado, eu não escuto este disco desde que a gente se separou!"... "Eu também não o escutava há bastante tempo, mas hoje me deu vontade de ouvir 'Turn me on'. Você lembra como eu gostava de transar com você ouvindo esta música?" "Lembro... mas vamos deixar para conversar pessoalmente? Estou te esperando! 40 minutos. Não se atrase. Beijo".

Quando ela desligou o telefone, nem acreditou que aquilo tinha realmente acontecido. "Será que estou sonhando?" Então, ela começou a travar uma batalha muito pessoal: "com que roupa vou a este encontro?" Não tinha muito tempo, tinha sido muito otimista em dizer que conseguia chegar lá em 40 minutos. Começou a se lembrar do que a fazia sexy para Cezar, antes daquela confusão toda com Marcelo. Depois, lembrou-se de que o que ele mais apreciava era o seu jeito natural, pouca maquiagem, roupa confortável, cabelos molhados. Foi por este caminho. Escolheu uma roupa confortável e caprichou nos acessórios...e pôs um bom perfume. Ligou para a cooperativa de taxis que fazia ponto próximo a sua casa e pediu um que tivesse ar condicionado, para os próximos 10 minutos.

Quando o taxi chegou, viu que o motorista já era seu velho conhecido. Ele já a tinha visto chorar várias vezes dentro daquele taxi nos últimos oito meses, e naquele dia, pôde perceber que ela estava feliz. Ansiosa, mas feliz. Pediu que a levasse para a esquina onde haviam combinado o encontro, e que fosse pelo caminho mais curto, pelo amor de Deus, que ela não podia se atrasar. Ele até quis perguntar o que havia acontecido para trazer àquele rosto um novo sorriso, mas acabou achando que seria muito atrevimento. Ela seguiu calada até o final da viagem...sonhando acordada com o que iria acontecer.

VI

"R$ 45,00? Nossa, essa 'bandeira dois" é cara mesmo, heim? Toma, pode ficar com o troco. Valeu! Até a próxima!"

Ao chegar a esquina de General San Martin com Rainha Guilermina, nada do Cezar. Já havia se passado 50 minutos. Ele não poderia estar atrasado, já que disse que esta esquina ficava próxima a sua nova casa. "Quem diria, ele que dizia que nunca moraria na Zona Sul, veio parar logo no Leblon?"

Ficou andando de um lado para o outro, olhando as vitrines do Shopping e nada do Cezar. "Será que ele desistiu de me esperar e foi embora?" À medida que o tempo ia passando, ela ia se angustiando cada vez mais. Afinal, resolveu tentar o celular dele para ver se algo havia acontecido.

VII

"Alô, Cezar? Sou eu, Rafa, cadê você? Desistiu de me esperar?"

Cezar estava olhando para ela do outro lado da rua há uns 20 minutos, em pé, no balcão de uma lanchonete, tomando coragem para atravessar. Ver aquela que fora a sua mulher descer do taxi e ficar andando de um lado para o outro na maior ansiedade, deixou-o ainda mais confuso e inseguro. Ele tinha demorado tanto tempo para tirá-la da cabeça, não podia ser tão tolo de tentar recomeçar aquela história agora. Por que será que seu coração era tão insano?

"Oi, Rafa, não, não desisti, não! Estou chegando, é que eu tive um imprevisto. Me espera cinco minutos". Pagou a conta e atravessou a rua. Foi tão descuidado que quase foi atropelado, mas ela sequer percebeu a confusão.

"Rafa"..."oi, cheguei". "Oi, Cezar, que bom que você veio." Os dois se cumprimentaram educadamente, formalmente até, e foram caminhando lado a lado pelas ruas do Leblon, em direção ao tal bistrô. Cezar havia escolhido um lugar tranqüilo para que conversassem, mas sabia que a conversa não ia ser fácil.

"E então, agora você acredita que podemos ser amigos?", perguntou Rafaela. Cezar balançou a cabeça negativamente, para surpresa dela. Depois de pensar um pouco, ele respondeu: "Eu nunca quis você para minha amiga, nem na época em que nos dizíamos amigos para os nossos amigos". Então foi Rafaela que não soube o que dizer ("O que ele quer com este encontro, afinal? Me pregar um sermão? Me culpar novamente por tudo o que aconteceu?").

"Então... o que vai ser?", perguntou o garçon. "Para mim um capuccino, para ela, café expresso, com creme. Adoçante, por favor", Cezar tomou a liberdade de pedir, visto que sabia de cór o que ela gostava de beber. "Você vai querer comer alguma coisa? Aqui eles têm umas empanadas deliciosas, fora as tortas". "Não, obrigada, estou tentando uma dieta agora".

"Bom, eu liguei para você por que acho que tínhamos que conversar. Depois que nós terminamos, não tivemos mais a chance de conversar. Naquele nosso encontro no metrô, senti que estávamos precisando de perdão. Eu precisava te perdoar pelo que você fêz, precisava me perdoar pelo que eu não fiz, precisava nos perdoar por não termos insistido e por termos desistido tão facilmente... O fato é que eu achava que você era a mulher da minha vida. E achava que o Marcelo era um amigo, ele não podia ter feito isso comigo, nem com você... Aliás, por que vocês não estão juntos agora? Não era o que ele queria?"

"Não, não era. Ele só queria provar que, apesar de estar com você, eu ainda gostava dele. Só isso", respondeu Rafaela, meio envergonhada com a pergunta.

"E era verdade? Ele conseguiu o que queria, não foi?"

"Não, o que eu sentia por ele era algo inexplicável, até para mim. Mesmo sabendo que aquilo não daria em nada, visto que não deu por cinco anos, eu não consegui resistir a ele, não consegui ser mais forte do que ele, e sucumbi ao desejo"... "Mas eu estava muito bem com você, muito melhor do que estive nos cinco anos que estive com ele, tenha certeza disso."

"E depois ele te dispensou?", perguntou Cezar.

"Não, nós dois chegamos a conclusão de que aquilo era novamente um erro. Muito rapidamente percebemos o tamanho da besteira que estávamos fazendo. Mas, para mim, já era tarde demais"... "Depois, conversando com o André, fiquei sabendo o quanto você havia sofrido. Foi tanto, que eu não pude acreditar. Você foi tão frio quando eu te contei o que estava acontecendo... realmente, acho que você merece um Oscar por sua atuação...eu não percebi que aquilo estava te afetando tanto, não percebi mesmo"... "Mas, eu nunca achei que o Marcelo não era nosso amigo...ele é apenas um cara egoísta e egocêntrico, e sempre vai pensar nele primeiro"...

"Então não serve para meu amigo. Aliás, eu me mudei para cá para começar de novo, fazer novas amizades, me livrar daquela perspectiva insana de esbarrar com vocês a qualquer momento"...."Estou gostando, morar perto da praia é realmente um luxo. Faço caminhadas todos os dias."

"É, você está muito bem, em ótima forma".

De repente, o que ela temia aconteceu, um tremendo silêncio se estabeleceu entre eles. Ela mal conseguia olhar nos olhos dele e ele estava ali, quieto, bebendo o capuccino, sem dizer palavra. Minutos depois, ele perguntou se ela não queria continuar a conversa no calçadão. Ela não estava em condições de discordar, queria apenas que aquele encontro se perpetuasse, que fosse para sempre.

Era inverno, estava frio. Ele passou o braço por suas costas, como fazia quando eram namorados, e, quase que automaticamente, enrolou o dedo em seus cachos, devagarinho. Ela sentiu uma sensação tão acolhedora, ele ali, o mar, um dia de sol fraquinho e um pouco de vento, a paisagem perfeita. De repente ela parou de andar, passou a mão pelo seu rosto e o beijou na boca, da forma como ele gostava, docemente, mas, ao mesmo tempo, quente, um beijo molhado e cheio de desejo. Ele não resistiu e se entregou a ela.

E eles ficaram ali, compondo a paisagem, sem dizer mais nada, se perdoando.

VIII

Cezar fêz sinal para um taxi qualquer e disse que ligava para Rafaela. Ela entrou no taxi e disse que ia esperar. Se foi só o encontro derradeiro, o tempo ia dizer. Quem teria mais coragem para recomeçar aquela história? Quem seria capaz de confiar depois de tudo? Qual o preço a pagar? O tempo... o tempo ia dizer.

quarta-feira, julho 25, 2007

Solidão padronizada

Ela estava sentada de frente para a grande janela de sua sala olhando para a paisagem lá fora, às quatro da tarde de uma quarta-feira, pensando porquê ela estava em casa, apesar de estar de férias. Chovia e ventava muito, mas há muito tempo ela sabia que não era feita de açúcar. As férias não haviam saído como ela havia planejado, mas ela precisava daquele tempo para repor as baterias, para descansar, ficar um tempo longe do trabalho, das infindáveis preocupações de todos os dias...era preciso ter um tempo para ficar de bobeira, fazendo nada, mas de forma consciente, sem se preocupar com o que estava para acontecer no dia seguinte.

Não conseguira planejar uma viagem. Então acabou ficando em sua cidade mesmo, sem dramas. Na cabeça, um pensamento insistia em voltar: por que ele sumiu? Por que não deu mais notícias? Por que ninguém mais fala nele? Nem parecia que ele estava para voltar...

Com estes pensamentos insistentes em sua cabeça, ela começou a se questionar sobre os seus padrões: por que será que ela sempre insistia nos mesmos caras, nos mesmos tipos? Por que sempre se interessava por aquele cara enigmático, com tão pouco amor e carinho para oferecer? Era sempre o cara mais velho, mais bonito, mais inatingível!

Será que este era o padrão: gostar de quem é inatingível? Muitas vezes, ela se perguntou se este era um problema que só ela possuía, que talvez, em seu lugar, a maioria das mulheres já tivesse desistido há muito tempo de um cara como este. Mas, ela não, ela continuava sentindo saudades dele, fantasiando uma vida juntos, como namorados, como amantes, nem ela sabia mais de que forma.

Será que todas as mulheres sempre seguem um determinado padrão para buscar seus homens? Há aquelas que buscam os desprotegidos; outras querem alguém que as proteja. Algumas buscam um homem para competir, outras um eterno romântico, tem também aquelas que não suportam “grude”, sentem-se perseguidas, enaltecidas, endeusadas e odeiam isso. Enfim, todas buscam um padrão: seja um homem mais forte, ou mais fraco; mais romântico, ou mais frio; mais doce, ou mais rude. E eles? Também estão atrás de um padrão de mulher ou querem apenas ter ao seu lado uma mulher com quem possam testar a sua virilidade?

Eram muitas perguntas sem resposta. Do lado de fora, o tempo piorava. Ela então decidiu que, se era para continuar sozinha e em casa, teria que buscar alguma companhia. Acendeu um cigarro e abriu uma garrafa de vinho tinto... seco. Ficou saboreando o vinho, pensando, ao mesmo tempo, que sem o maldito tabagismo talvez ela pudesse apreciá-lo muito mais. No fundo, no fundo, queria afastar da cabeça mais um pensamento estranho que insistia em perturbá-la: qual seria o padrão de mulher dele agora? Como seria esta tal namorada que o faz tão feliz atualmente? E por que é tão difícil conviver com o fato de que ele não está mais sozinho e está muito feliz – sem ela?

Durante muito tempo, foi difícil ter que assumir que ele era gato, que estava no auge da idade, apesar de dez anos mais velho, e que muitas mulheres ficaram interessadas nele quando souberam que ele era o mais novo solteiro da praça. Foi difícil ter que competir com todas elas, e mesmo quando ela percebeu que era a “dona do pedaço”, não soube como agir, nem como afastar estas predadoras vorazes. Rapidamente, ela o perdeu, ou pelo menos perdeu o encantamento.

De fato, ele não soube lidar com a insegurança dela, buscava alguém que estivesse disposta a tudo, que fosse com ele para onde a vida mandasse, sem medos, dúvidas ou questionamentos. O futuro, nós construímos, ele dizia. Ela o perdeu, sem sequer tê-lo tido. Foi tudo muito rápido. Quando ele se foi, ela pensou que fosse perder o chão, que a vida fosse acabar. Hoje ela estava ali, pensando em como ia ser quando ele voltasse, no quanto isso ia mexer com os seus instintos femininos, o quanto ia doer vê-lo com outra pessoa e feliz.

O cigarro acabou, ela acendeu outro. O silêncio só não era absoluto porque ela podia ouvir o barulho do vento forte e da chuva batendo na enorme janela. Repôs o vinho em sua taça de cristal e ficou ali, bebericando. O futuro, nós construimos, ela repetiu... e pegou o telefone.