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sexta-feira, janeiro 15, 2016

Pandora


Como se pudesse haver programado alguma coisa para o futuro, abriu o envelope que havia enviado para ela mesma há cinco anos atrás e que se perdeu no caminho, e pôde notar que uma certa melancolia invadiu o ar.



Todos aqueles sentimentos guardados ao longo daquele tempo retornaram, com uma força inexplicável. Era como se ela estivesse novamente no meio daquele turbilhão de emoções e, principalmente, como se não soubesse novamente como lidar com elas.


Mas, ela sabia, há muito tempo que sabia. Tinha aberto uma gaveta nas profundezas da alma e escondido aquilo tudo, como se possuísse uma "caixa de Pandora" interna. Todo mundo tem uma. É melhor para todo mundo que eu faça isso, ela pensou. Assim, manteve intacto o sentimento, há muito tempo fora da pauta das conversas semanais com a sua analista.


Tinha aprendido a lidar com a inveja, o ciúme, a solidão, a saudade, e todo um conjunto de sentimentos que ela preferia dispensar, e que nunca sonhou sentir com tamanha intensidade. Pusera uma máscara de mulher feliz e limitou-se a falar muito pouco, de trabalho e amenidades, principalmente, para que ninguém, jamais, em tempo algum, pudesse suspeitar dos sentimentos dela. Ainda mais, quando percebeu que alguns deles não eram nada nobres.


Sabia que não era bacana querer a vida dele. Ou melhor, querer a vida que a mulher dele tinha com ele. Como se isso fosse possível. Amor é coisa de pele, paixão é coisa de química. As pessoas não são assim tão facilmente substituíveis. Elas são o que são, e o que significam para nós. Tomar o lugar da mulher dele não seria tarefa fácil. Ainda mais que eles não tinham problemas. O que ele tinha era excesso de safadeza, vontade inexorável de se provar gostoso o tempo todo, necessidade de cortejar e seduzir. Só pelo prazer do jogo. E a boba tinha caído nesta sua lábia feito pata.


Saber disso também era algo que doía. No início, foi bom. Fez bem pro ego. Ela mudou seu jeito e jogou o jogo. Depois, percebendo que a relação não teria nenhum futuro, foi deixando de lado o que sentia, e substituindo aquela vontade de estar com ele por uma raiva sem tamanho. Do medo de deixar de existir na cabeça dele, ela passou a ter raiva por ser mais uma.


E agora estava ali, diante do envelope no qual havia sepultado toda uma gama de sentimentos que afloravam, e que ela só queria manter guardados em sua “caixa de Pandora”. Teve medo, sentiu raiva, e depois fez o que vinha fazendo há tempos: deu dez passos para trás. Olhou a situação como uma expectadora. Deixou todas as expectativas e os sentimentos ruins pelo caminho e viu o caso com outro olhar. Tinha assim tanta importância? Não. Havia ficado no passado, como todo o resto. Com o tempo, a forma de olhar para ele também ficou. Descobriu que a grama do vizinho não era assim tão verde, e que aquela vida perfeita não era assim tão perfeita. Colocou o homem que a cortejava em seu devido lugar e foi viver a sua vida. Aprendeu a se priorizar, sobre todas as coisas e pessoas, e entendeu como isso podia fazê-la tão mais feliz. 


E descobriu que a felicidade é simples, com ou sem “caixas de Pandora” para esconder as coisas...

sábado, julho 19, 2014

Amor, estranho amor - parte 9

todo dia, uma esperança...


À medida que ia ao Souza Aguiar visitar a Bia na UTI, Marco familiarizava-se com rostos e expressões dos enfermeiros e médicos daquele lugar. Um deles ficou especialmente cativado com o amor de Marco. Era uma enfermeira e se chamava Marisa.

Toda vez que Marisa estava de plantão, e Marco passava lá para ver a Bia, ela dava um jeito de espiar pela porta, enquanto ele parecia rezar, e nunca saia do quarto sem antes arrumar seus cabelos.

Conversava com os médicos, perguntava porque Bia não tinha acordado ainda, agarrava-se a qualquer fio de esperança que pudessem lhe dar. Marco era maduro, já tinha vivido muita coisa nesta vida, mas não sabia como lidar com aquela impotência que lhe deixava um gosto amargo na boca.

Marisa sempre lhe dava atenção e buscava tranquilizá-lo, dizendo-lhe que seria uma tortura breve, que logo Bia estaria acordada ao seu lado. Marco já pensava em pedí-la em casamento, tudo havia mudado depois daquele acidente. Não queria mais viver longe dela, tinha a sensação de que haviam sido feitos um para o outro, que deveriam cuidar um do outro por toda a vida...

Um dia, encheu-se de coragem e pediu a Marisa que anotasse seu telefone. Podia ligar a hora que fosse para avisá-lo de qualquer mudança no estado de Bia. Queria ser avisado em primeira mão, e não pelo médico do hospital, que entre telefonar para um amigo, quase namorado, optaria por avisar a família.

Um dia, depois de negociações e reuniões estressantes, Marco estava mais uma vez divagando em seus pensamentos, com o olhar perdido naquela paisagem da janela do escritório, quando recebeu uma ligação:

- Boa noite, é o Marco? É Marisa... Ela acordou.


Continua na parte 10.

sexta-feira, julho 18, 2014

Amor, estranho amor - parte 8

Depois de muito rodar aquele centro da cidade, Marco atinou que Bia poderia ter sido levada para o Souza Aguiar. Lá, confirmou o que imaginava: o acidente foi muito mais grave para o motorista do taxi do que para ela.

No entanto, ela estava em coma induzido. Tinha batido a cabeça várias vezes por dentro, na lateral do carro, enquanto ele rodava e os médicos temiam algo mais grave. Marco então decidiu que esperaria que Bia acordasse.

Ele esperou. Duas semanas. Bia não acordava.

Foi o pior tempo do mundo para Marco. Vivia uma agonia, com uma sensação de impotência. Nada a fazia acordar, parecia que ela queria continuar dormindo. Os médicos foram diminuindo a sedação e nada...

Ele já não trabalhava direito, parava no meio do dia, olhava perdido pela janela aquela vista que lhe fazia tão bem em outras épocas.

A vista da minha janela já não me acalmava mais...


Bia precisava retomar sua vida. Ele também. Esperaria a vida toda por aquela mulher, mas de repente, uma pergunta começou a lhe incomodar:

"E se ela não acordasse..?"



Continua na parte 9.

Música: Say something - A Great Big World ft. Christina Aguilera
Say something by A Great Big World Ft. Christina Aguilera on Grooveshark

domingo, junho 01, 2014

Amor, estranho amor - parte 7

Não queria, nem podia perdê-la, não agora.

Enquanto o carro rodava, ela ouvia uma voz ao longe chamando por ela. Era Marco, ao telefone, chamando Bia, Bia, Bia... Isso de alguma forma a mantinha viva, alerta, ciente da vontade de estar de novo nos braços daquele homem.

Só lembrou que estava sem o cinto. Agarrou o celular com força, que caíra entre suas pernas, e contraiu o corpo, escondendo a cabeça entre os joelhos. Esperou pela pancada, o sacolejo, a batida, o barulho final... Sabia que não queria morrer, não agora...

Do outro lado do telefone, Marco sentia pela primeira vez o desespero da perda. Não queria, nem podia perdê-la, não agora. Sentia-se um tanto ridículo e egoísta por pensar assim, mas queria aquela mulher na sua cama, queria tudo que ela podia lhe proporcionar, o prazer de estar com ela, sentir sua pele, a respiração, os pêlos, ainda não era amor, mas se era possível dar um nome pra aquilo tudo, era paixão, com certeza. Uma paixão muito louca... E a possibilidade da perda e a impotência causada por não saber onde ela estava e por não poder protege-la, ouvindo o acidente acontecer, causava em Marco uma angústia...

Bia sentiu o carro rodar uma vez, depois mais uma... E mais uma. Até encontrar o poste. De repente, ficou tudo escuro.

Ao ouvir o barulho, Marco desligou o telefone, pegou as chaves do carro e saiu.


Continua na parte 8.

domingo, maio 25, 2014

Amor, estranho amor - parte 6

Saudade dele...


Passou dias pensando nele. E nela. E neles juntos. Morreu de saudades. Queria vê-lo, queria saber dele, observar seus movimentos... Ao invés disso, optou por um distanciamento seguro. Não quis voltar a vê-lo como se nada houvesse acontecido.

Enquanto isso, ensaiou textos de despedida. Pensou em como poria os "pingos nos is". Precisava ouvir algo dele que desse significado ao que sentia.

Viu que ele ligou, uma, duas, três, ..., dez vezes. Ela não atendeu a nenhuma das chamadas. Ele parou de ligar. Orgulhoso, ela pensou, não ligaria mais. Então, o movimento tinha que vir dela.

Pois, depois de quinze dias sumida, sem dar notícias, ela resolveu ligar enquanto rumava de táxi de seu  escritório para outra base da empresa. Era um trajeto bem curto. Entrou no carro, avisou ao motorista que era um trajeto curto, combinaram o melhor caminho e partiram. Ela se ajeitou no banco e pegou no celular para falar com Marco. Bia estava bonita, era dia de reunião. Sentia que ele quase podia vê-la.

Respirou fundo, enquanto esperava que Marco a atendesse. Ele atendeu. E já foi resmungando...
Pôxa, por onde é que você andou todo esse tempo? Fiquei preocupado, sabia?

Ela esboçou um sorriso e puxou papo. Mas, não deu tempo. Viu o carro que vinha na outra pista dirigir-se na direção deles sem nenhum controle. Soltou o telefone, que caiu em seu colo, e gritou pro motorista: Cuidado, moço. E contraiu o corpo, procurando proteger-se, já que tinha o péssimo hábito de não colocar o cinto quando viajava no banco de trás.

Marco ouviu o grito. Segundos depois, ouviu também o tranco, a batida. E ficou chamando por Bia. Nenhuma resposta. O carro rodara diversas vezes e acabara no poste. Ninguém estava acordado para responder qualquer coisa.



Continua na parte 7.


domingo, maio 18, 2014

Amor, estranho amor - parte 5


Falar com ela ao final da tarde era rotina


Depois daquela tarde, de pernas e cheiros entrelaçados, de amores roubados, de ausência de promessas e declarações de amor, só corpo, só sexo, só o lado animal ali presente, Marco e Bia ficaram mais próximos um do outro. E também mais distantes.

Falavam-se todos os dias, compartilhavam acontecimentos rotineiros, trocavam confidências e segredos, abriam um para o outro seus ideais como se fossem parceiros de um crime que seria cometido em breve. Ou de um plano muito bem arquitetado.

No entanto, como se aquilo que viveram tivesse sido muito mais forte do que podiam suportar, não tocaram mais no assunto. Ainda avaliavam, cada um a sua maneira, se o custo de mudança seria mesmo bem maior do que o custo de oportunidade. Queriam repetir a dose, mas tinham medo das consequências.

O fato é que a dúvida que cultivavam os mantinha próximos, mas não o suficiente para torná-los amantes. Cúmplices, sim, mas não amantes.

De vez em quando, Bia se via perdida em seus pensamentos repassando aquela tarde saborosa, em que se sentiu amada como nunca, desejada como nunca, viva, finalmente! Estava nos braços do homem que queria, do seu homem! Não sabia como voltar àquele ponto. Tinha perdido o timming? Não acreditava! Mas, não sabia qual era o caminho para o coração de Marco.

Todas as tardes, enquanto dirigia para casa, Marco cumpria o ritual de ligar para Bia e saber como tinha sido o seu dia. Ouvir a voz daquela mulher, doce, o chamando de "meu amor", o fazia retornar àquela tarde, em que havia sido o melhor homem que uma mulher pode ter na cama. Ele sabia disso, ela sabia disso. Tinha medo de causar expectativas na Bia, sabia que ela tinha muito o que mudar na sua vida e não queria ele ser responsável por tanta mudança. E o pior de tudo, ele estava satisfeito com a vida que levava, não queria mudar nada, quando muito, ter com a Bia várias tardes como aquela. E seguia o caminho perguntando a si mesmo se estava sendo egoísta ou mesquinho... ou ainda, omisso.

Até que um dia, Bia não atendeu o telefone... e não retornou. E também não atendeu no dia seguinte...

Continua na parte 6.

segunda-feira, maio 05, 2014

Mas é claro que o sol vai voltar amanhã...

Um novo sol, de um novo tempo...


Haviam se passado cinco meses. Cinco longos meses sem vê-lo. A lua estava diferente. Os dias estavam diferentes. No início, tudo parecia meio nublado, mas agora, o sol voltava a dar a sua cara e iluminava as manhãs outonais de modo especial.

De repente, um convite dele. E uma recusa dela. Um novo convite. E ela, respondeu com um "talvez, quem sabe".

Queria o quê ele agora? Queria a oportunidade de encenar a cena derradeira, na qual ele olharia para ela compadecido de tamanho amor não correspondido? Queria palco para ser novamente aplaudido pela sua "fã de carteirinha"? Ou então queria um tempo com ela para olhar em seus olhos e enxergar o tamanho da sua perda?

Sim, ele perdeu talvez aquela que tenha sido a sua maior amiga... sua companheira de jornada....

Ela, uma criatura indomável, que não aceitava cabresto de pai, mãe, namorado, marido, e que tinha escolhido ser dele, deixar-se domar por ele, estava agora recusando seus convites, seus chamados. Mudara de ideia. Não queria mais. Estava feliz e liberta sem a sombra daquele amor em sua vida. Tinha resolvido viver e sentir tudo de uma só vez, intensamente, e finalmente, percebera o quão ilusório era aquele amor. Havia optado por amar a si mesma. Corria leve pelos campos, ciente de sua força, capaz de mover montanhas e impulsionar o mundo... Corria leve, solta e feliz...

Por que então voltaria ao cárcere de livre e espontânea vontade? Não, não tinha porquê. O tempo de sombras e dúvidas havia passado. Só ele, o amor tão Barba Azul, não percebera. De todas as suas maldades, mantê-la à sua disposição sem lhe oferecer nada em troca foi a pior. Ela, que sempre quis tão pouco.

Mas, muito é muito pouco quando se trata de amor. E ela estava agora em busca de amor. Não seria uma migalha o suficiente para trazê-la de volta.

Por isso, um "talvez, quem sabe", com uma profunda certeza de "jamais"...

terça-feira, janeiro 21, 2014

Pensei que fosse fácil...


Arrisque-se!


Era só dizer e pronto!
Tudo estaria resolvido!

Mas, não. Parece que a vida anda mais lenta,
Que a visão anda embaçada, que os dias estão nublados.

Cadê o Sol que existia aqui,
naquele sopro de esperança que eu guardava?

Cadê o brilho dos meus olhos,
ao ouvir alguém pronunciar seu nome?

Puff! Sumiram junto com as palavras ditas...

Estranhamente, insanamente, inconsequentemente...

Se foram...


quarta-feira, janeiro 08, 2014

Amor, estranho amor - parte 2

Percebendo a indiferença de Marco, Beatriz tratou de se afastar dele. Era duro, estar com ele era o que ela mais queria, mas ele não respondia mais com alegria aos seus "bons dias" e saía sempre para almoçar antes do horário, para não correr o risco de encontrá-la no elevador ao meio-dia. Também não ficava mais depois do horário, e quando ficava, parecia estar sempre tão concentrado que não ouvia, nem respondia, quando ela se despedia.

Foram tempos difíceis. Pior do que perceber que algo está acontecendo é não saber porque está acontecendo.

Beatriz tentou algumas vezes. Se aproximou, puxou conversa. Nem quando eles tinham que estar juntos na mesma reunião, ele se dirigia a ela, e quando o fazia, era sempre muito formal. Ela foi desistindo, desistindo, quando desistir era a última coisa que ela queria fazer mas, ... não tinha jeito.

Tinha decidido que não alimentaria mais nada que não fosse recíproco.


E você, alimenta?

Meses se passaram, regados a muita frieza. Ela ainda se queixou com alguns colegas da mudança sem motivo de Marco. Todo mundo aconselhou a ela que se afastasse, que Marco não era mesmo muito bom da cabeça. Na verdade, ele não fazia a menor questão de ser um cara querido pelos colegas. Era introvertido, e parecia só se abrir para Bia. Até então.

Um dia, em mais uma das intermináveis reuniões de equipe, na qual só o chefe fala e os demais escutam, Beatriz estava especialmente desatenta e triste. Todos perceberam, o chefe, Marco e os outros colegas. Quando perguntada pelo status do projeto que estava conduzindo, Bia ficou sem resposta. Na verdade, não estava ouvindo. Como um amigo dizia, estava presente em corpo, mas não em espírito.

Queria conversar com Marco, desabafar, entender o que havia acontecido. Ao invés disso, apenas perguntou se podia se retirar da reunião e voltou ao seu lugar, onde passou o resto do dia olhando perdidamente para a tela de seu computador.

Já estava cansada daquele dia que não passava, quando Marco se aproximou dela. E com a mesma doçura de antes, perguntou-lhe:

- Quer carona? Eu te levo em casa. ... Acho que estamos precisando conversar...

E saíram.



Continua na parte 3.


terça-feira, janeiro 07, 2014

Felicidade a dois

Têm pessoas que nos roubam a alma. Têm o poder de nos tirar o sono, de acabar com a nossa fome de comida. Tudo o que queremos é estar com elas, é respirar o mesmo ar que elas, é fazer parte da vida delas. Estas pessoas nos embaçam a vista, nos fazem perder tempo e energia, tiram a cor das coisas e magia do que vivemos quando não estão conosco. E nem sempre elas estão conosco. E amor, ou paixão, não pode ser isso.


Você valoriza aqueles que ficam?


Não pode mesmo.

O quanto estamos desprezando ou desvalorizando quem preza estar conosco? Você já pensou nisso? Que quanto mais você sente pelos que não podem/querem estar com você, mais você desvaloriza aqueles que querem estar?

Essa é a grande arte da vida. Valorizar o que está perto, o que não é impossível, aquele que está disponível, que topa ir com você para tomar um café no shopping, a um cinema, a China se você chamar...

Quantas e quantas vezes a gente simplesmente não enxerga estas pessoas? Quantas e quantas vezes elas valem muito menos do que deveriam... Valem mais! Estão aqui.

O amor tem que ser com aqueles que ficam, não com aqueles que não te dão bola. O amor tem que ser destinado àqueles que correspondem, não àqueles que se fazem de difíceis e colecionam amantes para pôr na estante.

Você já pensou nisso?




Amor, estranho amor - parte 1

E vc, ñ me ama?


"Soh me sentirei completa c/ vc ao meu lado"

"Deixa de loucura. Vc esperaria a vida toda? ;-)"

"Esta e qq outra. Sem vc, meu mundo é vazio"

"Vc precisa de alguém q te ame. Eu?" 

"E vc, ñ me ama? Tem certeza disso..."

A reunião corria solta. Eles teclavam um para o outro. Estavam na diagonal da mesa e, por mais que fossem discretos, já se havia percebido olhares um para o outro e conferidas na tela do celular, que vibrava de dois em dois minutos, ora numa ponta, ora na outra ponta da mesa.

Só não imaginavam o teor da conversa.

"Tem gente aqui que deve estar tramando um complô"... disse ironicamente o chefe, que coordenava a reunião.

"Eu te amo mais do que tudo... amo"

"Eu tb ñ consigo ficar mto tempo longe, por mais q resista"

O chefe estava começando a ficar irritado. As mensagens não paravam entre eles, e mesmo que evitassem, não conseguiam deixar de trocar olhares apaixonados e cúmplices. Quanto tempo mais teriam que aturar aquela reunião sem propósito?

Terminada a reunião, na qual mais uma vez nada foi decidido, eles só conseguiam pensar em sair dali. Só que para surpresa deles, ele foi chamado pelo chefe em sua sala.

- Pois, não, chefe, em que posso ajudá-lo?

- Sente-se... Eu quero conversar com você. Bem, vou direto ao ponto, será que você pode me explicar o que estava rolando entre você e a Beatriz enquanto a reunião transcorria?

- Bom, chefe, acho que o senhor imaginou coisas, não estava acontecendo nada! Estávamos atentos ao que estava sendo discutido.

- Pois não parecia. O que me pareceu é que vocês estavam distraídos trocando mensagens pelo celular. Posso saber o teor das mensagens? ...

...

- Bem, pelo visto o senhor não vai me dizer, não é mesmo? Bom, quero avisá-lo que , se o senhor tem alguma intenção em subir aqui dentro da empresa, e quero que você saiba que eu acredito muito no seu potencial, terá que se afastar dela, manter-se distante, sem, logicamente, mencionar que tivemos esta conversa. Ela vai sofrer com o seu afastamento, mas será melhor para os dois. 

Depois disso, ela, que o esperava no hall do prédio, não entendeu sua estranheza, frieza... O que estaria mesmos acontecendo? Eles foram almoçar, mas ele estava distante, não parecia a mesma pessoa com quem ela vinha se relacionando todo aquele tempo.

Ele queria subir na empresa. Mas, sem ter muita consciência do que estava acontecendo, sentia seu coração acelerar quando olhava para aquela mulher. E como se conhecia bem, achava que gostava dela.

Passou semanas naquela dúvida, sem saber se compartilhava com Beatriz a conversa que tivera com o chefe. Mas, por que Diabos isso fazia tanta diferença para ele? Por que ele tinha que se afastar dela para conseguir alguma coisa? Nunca ninguém pôs em cheque a sua competência, e nunca um envolvimento com uma mulher fez diferença na sua carreira. Eram solteiros, maiores de idade, por que ele tinha que fazer esta escolha tão difícil?

...

Um dia, estava solitário no horário do almoço depois de tê-la visto passar com a turma sem sequer perguntar a ele se queria almoçar, como fazia há tanto tempo. A amizade deles estava esfriando, e ela ás vezes evitava olhar para ele.

Pensava se ia descer para ao menos tomar um suco quando um colega mais velho perguntou-lhe se queria companhia. Aproveitou aquela oportuidade para abrir seu coração, pois precisava urgentemente de um conselho.

- Ué, você nunca percebeu que o chefe é louco pela Beatriz? Ela é que só o enxerga como amigo, e ele morre por causa disso! Meu Deus, é tão óbvio, por que você não enxerga isso?

- Cara, eu nunca percebi nada. Sei que ele a protege e que a trata de forma diferente dos demais, mas nunca achei que fosse por este motivo. Sempre pensei que ela a visse como filha.

- Que filha que nada! Ele a quer desde que a conheceu, fica babando atrás dela. É por isso que ela ganha todos os aumentos, que ela vai em todas as viagens, que ele a escuta para todas as decisões. Ou você acha mesmo que ela é super competente? Nem eu acredito nisso!

- Isso tudo que você está falando é muito louco. Não posso acreditar que ela tenha consciência disso. Afinal, sempre acreditei na competência da Beatriz. Eu e ela somos muito amigos.

- Marco, eu sei que vocês são muito amigos. Até mais do que isso. Agora, cara, vê bem se você quer se meter neste rolo. É a tua carreira que está em jogo.


...
Morrendo de medo de perdê-la, Marco avisou ao chefe que não estava bem e que precisava ir para casa, e tirou o resto da tarde para pensar...




Continua em parte 2.

terça-feira, dezembro 31, 2013

Love letters (cartas de amor)

"Dedico esta crônica aos apaixonados, mesmo sabendo que servirá para nada. É inútil falar aos apaixonados. Os apaixonados só ouvem poemas e canções. A paixão, experiência insuperável de prazer e alegria, pelo fato mesmo de ser uma experiência insuperável de prazer e alegria, coloca o apaixonado fora dos limites da razão. Todo apaixonado é tolo. Pode ser que ele escute a fala da razão. Escuta mas não acredita. Diz ele : "O meu caso é diferente"! Tolo mesmo é quem tenta argumentar com os apaixonados."

Rubem Alves em Amor que ascende a Lua


Ela não sabia mais como escrever uma carta de amor. Nestes tempos de internet, isso não seria por demais antiquado? Talvez. As pessoas só lêem 140 caracteres, pensou. E foi cortando texto, foi tirando emoção, mas deixando a essência, na esperança de que ele compreendesse.

Depois de tanto tempo, resolveu acabar com o segredo, virar a página. Aproveitar que aquele era o último dia do ano para revelar-se finalmente uma farsante. Não dava mais para manter-se no posto de melhor amiga.

Lembrou-se do Elton John, na música Love Letters... tão incrível, essa música sempre tocou-lhe a alma.


Love letters straight from your heart
Keep us so near while apart
I'm not alone in the night
When I can have all the love you write

I memorize every line
And I kiss the name that you sign
And, darling, then I read again right from the start
Love letters straight from your heart

I memorize every line
And I kiss the name that you sign
And, darling, then I read again right from the start
Love letters straight from your heart
And, darling, then I read again right from the start

Como se pudesse escrever algo com tamanha emoção, sentou-se em frente a um bloco antes de passar o texto para o computador. Teve medo do ridículo. Mas, quem consegue não ser ridículo dizendo "eu te amo"?

Pediu, implorou que ele a deixasse seguir. Arriscou tudo. Jogou pro vento. E passou a virada do ano esperando que a sorte estivesse do seu lado, só uma vez... Deixou de lado a covardia que, como na música Pessoa, de Dalto, tão bem cantada pela Marina Lima, sempre foi sua trilha sonora...

Olhar você e não saber
Que você é a pessoa mais linda do mundo
Eu queria alguém lá no fundo do coração
Ganhar você e não querer
É porque eu não quero que nada aconteça
Deve ser porque eu não ando bem da cabeça
Ou eu já cansei de acreditar

O meu medo é uma coisa assim
Que corre por fora entra, vai e volta sem sair, oh
Oh, não ! Não tente me fazer feliz
Eu sei que o amor é bom demais
Mas dói demais sentir

Olhar você e não saber
Que você é a pessoa mais linda do mundo
Eu queria alguém lá no fundo do coração
Ganhar você e não querer
É porque eu quero que nada aconteça
Deve ser porque eu não ando bem da cabeça
Ou eu já cansei de acreditar
Ou eu já cansei... (refrão)

O meu medo é uma coisa assim
Que corre por fora entra, vai e volta sem sair, oh
Oh, não ! Não tente me fazer feliz
Eu sei que o amor é bom demais
Mas dói demais sentir

Mas dói demais sentir...
Mas dói demais sentir.......


Love Letters - Tom Jones.


Pessoa - Marina Lima.


Que ela seja feliz em 2014! Que os bons ventos a ajudem...



terça-feira, novembro 26, 2013

O nosso amor a gente inventa?


Seria o amor uma coisa inventada pela nossa cabeça? Será que existe aqui dentro um botão poderoso de liga-desliga, que nos protege e nos faz mudar de ideia cada vez que um amor não dá certo?

Cazuza, maravilhoso poeta!


Tenho visto tanta gente que passa anos apaixonado pela mesma pessoa, paixão platônica, aquela coisa que não tem fim, não se realiza, não se concretiza. De onde vem isso? Por que insistimos em sofrer deste jeito, não valeria mais à pena virar a página, rasgá-la, trocar de caderno...?

Para muitos, isso simplesmente não é possível. Seria o sofrimento por um amor não realizado o combustível dos poetas? Será que é disso que eles se valem ao escrever as maravilhas que escrevem? Seria o medo de terem construído no imaginário uma pessoa que não existe, que não é real, que não tem defeitos no plano virtual, mas que é simplemente igual a nós?

Eu mesma já vivi isso. Algumas vezes. Sinto que meu corpo mudava, tremia, sofria, se alterava, só de pensar. Hoje, não mais. Mas sei que a realidade é, por vezes, muito diferente do que a gente espera que ela seja. E que isso dói.

O platonismo só é pior quando é correspondido. Descobrir que passou a vida toda amando alguém que também te amava, e que vocês não ficaram juntos por falta de coragem, é pior do que se saber solitário.

Por isso, coragem! Coragem sempre! Diga o que pensa, sente, ao que veio! E corra riscos, a vida é isso. Nada mais, nem menos do que isso. Os riscos é que dão o sabor, muito mais do que viver de ilusão.

Já parou pra pensar?


quinta-feira, novembro 21, 2013

Grafiteiros do Rio no Guia Rio deste mês

Nossa! Fiquei tão orgulhosa quando um colega de trabalho veio me trazer o Guia Rio deste mês e eu vi que tinha uma matéria grande sobre os grafiteiros que eu adoro e seus trabalhos!!!!

Orgulhosa primeiro por eles, pois este é um reconhecimento que costumávamos ver dado aos artistas de SP, e que agora já está valendo para os do Rio.

Mas, também por mim, visto que pude perceber que as pessoas já começam a associar a minha paixão pelo grafite comigo e me trazem matérias, livros e referências sobre o tema. Sabem que eu vou gostar! E eu gosto mesmo!

Não é o máximo?

A foto da capa é a do Marcelo Ment, um painel maravilhoso que ele pintou para a parede externa de um bar chamado Sanduka, que além de sucos vende sorvetes, ali no Humaitá, Zona Sul.


Capa com dezenho do Marcelo Ment.


Na parte interna, além dos desenhos do Toz, há também um destaque para o trabalho do Marcelo Eco, que foi quem me despertou para este mundo, com seus desenhos aqui na Tijuca. Eu ainda faço uma oficina com ele!


Desenhos do Eco, com os queichudos!

É isso. Reconhecimento vale mais do que qualquer coisa nesta vida!



quarta-feira, novembro 20, 2013

Receita de amor

Bom dia! Mais um feriado. Dia para descansar... e curtir a sutileza deste vídeo sobre o amor... de novo!

A romântica volta a atacar! Espero que vocês apreciem...



A Film by: Felipe Pizarro S. Frédéric, Bajou Morgan Bourdon, Jiun Yiing Mow, Loïc Paoli,
Music Composed and Orchested by: Mathieu Alvado.


Porque a vida é mesmo MUITO curta para ser pequena!

Aproveitem o dia!



segunda-feira, novembro 18, 2013

Salvador Dalí e Walt Disney

Se teve uma coisa que eu amei quando estive em Paris foi a casa do Salvador Dalí em Montmartre.

Tudo ali era maravilhoso, incluindo o pequeno museu com suas obras. A gente se vê inundado com a sua poesia em forma de quadros e esculturas.

Não é que agora surgiu este vídeo?!

A história é a seguinte: escondido nos Arquivos dos Estúdios Disney, estava um projeto de um curta com a arte de Walt Disney e Salvador Dali. Em meados dos anos 40, Disney esquematizou com Dali para promoverem um curta baseado em suas artes surrealistas. Porém Disney não tinha dinheiro o suficiente para continuar, então só foram produzidos 17 segundos do curta original. Agora, seu sobrinho, Roy Edward Disney, encontrou esse projeto esquecido e o finalizou com a equipe de animação dos Estúdios Disney.

O nome do vídeo é Destino! E eu acho que foi coisa do Destino ele ter chegado até nós!



Não é uma história de amor? Eu ando muito romântica estes dias!


domingo, novembro 17, 2013

No teu deserto, livro querido

Um livro repleto de amor. Um amor não realizado. Um amor entre um homem maduro e uma menina jovem, que sabe pouco da vida. Quem nunca viveu isso?

Eu me emociono toda vez que penso na história, penso que podia ser a minha história. Toda vez que empresto este livro, dou ele como perdido. Perdido para o reino dos amores impossíveis. O reino das histórias que tocam o coração das pessoas. Daí vou a livraria mais próxima, e compro outro, com gosto. Esse já é o quarto que compro, um livro que eu gosto de ter. Eu acho que estou enriquecendo o autor.

O nome do livro? "No teu deserto", do Miguel Sousa Tavares.

"Nesta noite, quando chegámos ao quarto que partilhámos no hotelzinho em Argel (e porque tu tiveste medo de dormir num quarto sozinha e, já que inofensivamente tínhamos partilhado um camarote na noite anterior a bordo do Ciudad de Oran, achámos igualmente inocente partilhar aquele quarto onde só havia uma cama de casal), tu foste tomar banho em primeiro lugar. E porque a porta da casa de banho não encostava bem - e não sei se reparaste nisso -, de onde eu estava, estirado na cama, a repousar das oito horas ao volante mais o resto, vi-te a despir, a ficares toda nua e a entrares na banheira de água quente e nem por um momento me ocorreu deixar de o fazer. Estava cansado demais para desviar o olhar".
 
No Teu Deserto, escrito em Portugês de Portugal,
lindo demais!



Como se o livro pudesse me ajudar a expressar o que sinto, o desejo contido, a vontade de encher a boca para dizer "EU TE AMO" desde sempre, eu também já o dei de presente. Mais um livro jogado numa estante, nenhum comentário, nada que desse brecha a um comentário extra, um adendo, nada.

As histórias emocionam as pessoas de forma diferente, fazer o quê?

É por estes caminhos tortuosos, que a gente vai encontrando a si mesmo.

O tempo passa, e o que a gente precisa ter é cuidado para que o NADA do deserto não nos invada de assalto e arrebate a vida, tornando-a estéril, vazia, sem propósito, sem amor. Estar só pode não ser uma opção, mas estar solitária, aí sim.

Sinopse:
Um jornalista relembra uma travessia do deserto do Saara feita com uma garota quinze anos mais jovem. Durante quarenta dias, o narrador e Cláudia atravessaram as paisagens áridas do continente africano e viveram uma experiência marcante, que vai se projetar por muito tempo na vida de ambos. A viagem aconteceu em 1987 e o narrador se põe a contar a história vinte anos depois.

Ele é racional e impetuoso. Ela, impulsiva e imatura, mas também espontânea e encantadora. Eles partem de Lisboa num jipe abastecido de comida enlatada, alguma bebida alcoólica, uma bússola e um mapa militar dos anos 1950. Os demais integrantes da excursão (mais uma dezena de jipes) vão pelo Marrocos, mas o casal entra no continente africano pela Argélia, pois dependem de uma licença de filmagem expedida em Argel. O jornalista capta imagens que usará em reportagens para revistas e uma televisão portuguesas.
A princípio marcada pela distância, a relação entre os dois aventureiros se intensifica ao longo da viagem na luta contra o tempo, no enfrentamento da burocracia e da corrupção argelina, na confusão das cidades africanas e no dia a dia de acampamento e improvisos. A intimidade avança para um sentimento amoroso, que nasce da cumplicidade naquela situação adversa: solidão, viagem, silêncio, paisagens inóspitas.

Vinte anos depois o narrador descobre casualmente que a moça morreu e decide contar a história desse amor para, de alguma forma, reter a felicidade desse encontro na memória. O romance é um acerto de contas emocionado desse jornalista-narrador para com a memória de Cláudia, de quem ele guarda poucas fotografias, mas numerosas e intensas lembranças.


segunda-feira, outubro 29, 2012

Finalmente o início


Ela abriu a blusa pra ele, deixando revelar sutilmente o sutiã de renda. Ele passou a mão pelos cabelos daquela mulher que ele não conhecia. Onde ela tinha estado todo esse tempo? Uma mulher que seduz, uma mulher que é bonita, feminina, a mulher que ele queria ver há muito tempo... Ele estava feito louco, como alguém que percorre longos quilômetros num deserto com muita sede e se depara com um lago no meio de um oásis...

Pelo colo dela, pendia um colar de pérolas, comprido, que denotava pureza e sensualidade ao mesmo tempo. O movimento do colar, à medida que seu corpo se mexia, o hipnotizava. Ele não conseguia tirar os olhos da dobra dos seus seios, nem da brancura da sua pele. Ela supunha que o estava encantando, mas não tinha certeza de nada.

Ele havia derrubado suas convicções no último encontro. E, por fim, depois de todas as loucuras que ouviu dele, ela tinha desistido de jogar. E ele só sabia agir assim, jogando. Ela não jogava nunca.

Ele chegou perto dela, bem perto. À medida que ele foi se aproximando, ela foi sentindo o corpo esquentar, esquentar, esquentar... e à medida que o corpo esquentava, ela suava, e os pingos de suor pelo seu rosto lhe causavam ansiedade, medo de estar sendo inaedequada, aflição... enquanto que ele só conseguia pensar em lamber aquele suor salgado, do alto da testa até onde acabava aquele colar de pérolas, entre os seios dela.

Ele falou alguma coisa com pouco sentido a respeito do calor e abriu a camisa também, deixando os pelos brancos de seu peito aparecerem pra ela. Lá estava o homem vivido por quem ela havia se encantado desde o primeiro dia. Um homem que sabe ser suave quando quer, gentil quando quer, que tem cuidado dela há tanto tempo, repetindo que ela deve buscar seu oxigênio dentro de si, sem depender de ninguém.

A seu grosso modo, ele tenta ensinar alguma coisa para ela, e mostra que se importa, daquele jeito que ninguém consegue entender bem. Nem ela. Mas, olhar aquele peito fez com que ela esquecesse das sandices dos últimos dias, fez com que ela o quisesse muito, como nos velhos tempos, como se no mundo só existissem os dois, mais ninguém.

Sentados de frente para o outro naquele sofá, sem dizer nada, eles entrelaçaram uma das mãos enquanto ele acariciava os cabelos penteados dela. Ele sabia que aqueles cabelos poderiam ser suaves e macios. Ele queria sentir aquele toque. Ela olhou bem fundo nos olhos dele e ele entendeu que era hora do tão esperado beijo. Por que aquele momento tinha demorado tanto a acontecer? Por que eles tinham tanto medo?

Foi-se o tempo que ela teria dito não àquele homem. Foi-se o tempo que ele teria aceitado o não dela. Se ela estava com medo, ele iria demovê-lo, iria espantá-lo para bem longe dali. Porque aquele era o momento deles, e eles iriam até o fim.

Ou até o início...

E da carícia naquele cabelo, ele beijou-lhe a orelha esquerda com um toque que parecia mágico de tão especial. Ela tinha medo que acabasse, que aquilo fosse só um sonho e que estivesse prestes a acordar a qualquer momento... se isso é um sonho, que ele dure.

Veio da orelha para o rosto, beijou-lhe o nariz, os olhos, a testa, o espaço entre o nariz e a boca, o queixo, ... e ela foi se derretendo... e finalmente, beijou-lhe a boca, bem devagarinho, o lábio inferior, depois sugou-lhe o lábio superior, buscou sua língua, percorreu o céu estrelado da sua boca, encantou serpentes... e ela ali, sonhando com a realidade desejada.

Até que se abraçaram, ela sentou em suas pernas e sentiu, rapidamente, ele dentro dela. Foi encantado, foi mágico, foi sua primeira vez. Mesmo tendo vivido isso com outros homens, com ele foi tão perfeito, foi um encaixe tão certo, como se tudo tivesse sido programado para ser assim desde o início, que ela só entendeu naquele momento, enquanto trotava sobre o corpo dele, que ela tinha finalmente entendido o que era aquele amor todo, aquela paixão desenfreada, aquele sentimento que não acabava, que a mantinha perto, muito perto, por tanto tempo.

Passaram a noite ali, uma, duas, três vezes, se amando, grudados, sorvendo um do outro aquilo de que mais precisavam. Viram o amanhecer, a luz entrar pela janela. Evitaram dormir, para não acordar. Evitaram dormir, para não perder um segundo daquela respiração, da respiração do outro, do suspiro do outro...

Antes de voltar a vida real, ele passou o braço por trás dela e a trouxe contra seu peito, e ficou ali com ela, alguns minutos, acalentando sua menina-mulher, desabrochada pra ele, encantada e desencantada, finalmente dele...

domingo, setembro 09, 2012

De algum lugar no passado

Ela abriu um livro e lá estava ela. Uma dedicatória rabiscada. Como letra de médico. Escrita há tanto tempo, parecia ser uma dedicatória de outra vida. Quando olhava para trás, não se reconhecia na moça para quem haviam sido endereçadas aquelas palavras.

Querida,
Não tenho pressa, mais cedo ou mais tarde sempre encontraremos nossos caminhos. Espero que os nossos sempre se cruzem.
do seu amigo,
José
jan/96

O livro? Demian, de Hermann Hesse. De birra, picuinha, ela nunca leu o dito. Deixou esquecido na estante. Não sabia porque ele havia escolhido este autor, nem este título. Aliás, mal se lembrava de onde havia surgido aquela paixão avassaladora.

O fato é que em janeiro de 1996, ela já havia virado a página, já estava em outra. Havia cansado de esperar por alguém que tinha grandes dificuldades em tomar decisões. O tempo passou, e seu cérebro tratou de apagar os traços de seu rosto, o tom da sua voz, seu número de telefone e endereço, que ela sabia de cór... enfim, foi apagando o amor assim como ele fez com ela.

Agora, lá estava ela, que por uma coincidência, havia encontrado uma foto dele numa busca no Google, e ele estava vivo. Depois de tanto tempo desaparecido, descobriu, com as poucas informações de que dispunha, que ele estava ao alcance de um telefonema. Ou um e-mail.

Talvez, sempre estivera ali, ao alcance da mão, ela é que não quis remexer naquele lodo por todo esse tempo. Foram 16 anos sem vê-lo. Agora, uma foto, um clique, e pronto. Ele era professor e talvez tenha até mantido seu lado empresarial.

Talvez tenha sido esse o jeito que ele encontrou para sobreviver àquilo tudo, indo embora, recomeçando do zero, saindo de cena.

Não, talvez não tenha sido coincidência. Talvez, do mesmo modo que ela o encontrou ali, ele a tenha chamado telepaticamente, por tê-la visto em fotos recentemente, por ter feito ele uma busca ao seu nome, talvez...

Como algo que nunca foi encerrado, e que não merece ser remexido, esse contato talvez deva mesmo ficar pra uma próxima... vida.



Música do dia: "Impossível acreditar que perdi você" - versão do Toni Platão