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quarta-feira, outubro 14, 2009

Uma estrangeira

Aqui, na terra de Obama, não posso dizer que estou em casa. De fato, não estou. Não sei se saberia viver neste país. As pessoas, decididamente, são estranhas aqui no Texas. Elas valem pelo que têm, não pelo que são. Não é que seja diferente em outros lugares, hoje em dia. Não é, a gente sabe. Essa tem sido a maior crítica do Dalai Lama em seus livros, pelo que tenho lido. Deixamos de valer pelo que somos, o que pensamos, a forma como agimos, os nossos valores e passamos a valer pelo que consumimos, pelo que temos e pelo quanto temos.

Enfim, sem filosofar demais, essa terra aqui é a terra do consumo, verdadeiramente. Você vê isso nitidamente no shopping, que é enorme, diga-se de passagem. Nos primeiros andares, os daqueles que chegam a pé, as lojas mais simples, as multimarcas. À medida que se sobe, vão surgindo as marcas mais bacanas, Luis Vuiton, Burberry, Dior, Sephora e tantas outras. Tem uma ala só de alta costura, bacanérrima, com a presença de lojas de alguns brasileiros. Um must. Só para olhar.

O que me incomodou de fato foi o tratamento dado aos latinos. Se você não está atento, a coisa acaba sendo muito sutil, você pode até não perceber. Mas, com um pouquinho de atenção ao que acontece ao seu redor, dá para ver que quem não fala inglês fluente está literalmente lascado, ferrado, enfim, encalacrado... vai ser sim tratado de forma diferente. Quem te atende numa loja de marca não está preocupado em vender, está preocupado com quem está comprando. Ninguém se preocupa em agradar o cliente, em entender o que você está dizendo. Problema seu se você não sabe a língua deles, se vira, malandro!

Eu pensava que isso só acontecia na França, com o bendito francês. Mas, pelo visto, a tal da globalização, que os norte-americanos tanto pregam, só existe mesmo no papel, nos livros e revistas que eles vendem para nós, os trouxas, que acreditamos no que eles dizem. Eu fui comprar um batom para uma amiga na Sack's, e a atendente fez a seguinte observação: "até que você fala um bom inglês".

Como assim? Te conheço? Tô pagando!

Definitivamente, certos consumismos não são mesmo para mim. Uma capa de chuva na Burberry (feminina) custa a bagatela de US$ 995,00. O interessante foi que quando eu entrei na loja, de calça jeans e tênis, a vendedora logo começou a falar comigo em espanhol, disse que era argentina, e nem sequer tentou me vender alguma coisa, me mostrar algo ou perguntar se eu queria alguma coisa em especial. Não devo ser mesmo o tipo de gente que compra nesse loja e dá para ver pelo estereótipo.

Me lembro de uma passagem do último livro do Dalai Lama que li que contava de uma vez em que ele havia ficado hospedado na casa de um casal amigo no interior da França por um tempo. Os dois, segundo ele, viviam em pé de guerra, estressados um com o outro, impacientes, mesmo morando numa cidade bucólica. Quando se acomodou no quarto que lhe foi destinado, ele pôde perceber que no armário do banheiro haviam vários tipos de remédios diferentes. Muitos para combater insônia, manipulados e controlados, comprados apenas com receita médica. Ele comentou, então, em seu livro, que mesmo morando bem, com uma qualidade de vida excelente, dispondo de uma casa boa, sendo estáveis profissionalmente, com uma relativa segurança financeira, o casal não parecia feliz. O foco, para ele, era no TER e não no SER.

Se eu posso dizer que aprendi alguma coisa com o povo da minha terra foi a dar valor ao que eu tenho. E, principalmente, ao que eu sou. A gostar das pequenas coisas, a apreciar os momentos. Fiquei encantada hoje de ver uma aula de patinação no gelo, com as crinças se esbaldando ao cair no chão. Fico feliz em não me sentir em casa, em me entender estrangeira nesse país difícil, onde todos se sentem melhores que você, e sofrem cada vez que percebem que não são mais o país número 1 do mundo. Fico feliz com todas as dificuldades e idiossincrasias do meu país. São muitas, são duras, mas são nossas.

Mesmo quando o americano-número-1-do-mundo se assusta ao ver a favela-mais-pobre ao lado da riqueza-da-loja-de-carros-de-luxo no Rio de Janeiro, eu ainda assim sinto uma grata felicidade por ter nascido na minha terra...

sexta-feira, abril 24, 2009

Mais algumas coisas que aprendemos com estranhos

Há algumas semanas, meu marido recebeu no Rio de Janeiro, alguns parceiros de trabalho (de uma pesquisa cooperativa) de um grupo que ele está coordenando.

Tratava-se de uma senhora e de dois colegas alemães, que estiveram aqui a trabalho e aproveitaram para conhecer a cidade.

Meu marido e seu colega da universidade foram os cicerones dos três a aproveitaram o pouco tempo de que dispunham para dar uma "canseira" nos três.

Os levaram para conhecer o Cristo Redentor, que eles amaram. Ver a cidade lá de cima é realmente impressionante. Eles adoraram o Cristo e se impressionaram com a quantidade de favelas. Não dá para ignorar que o Rio de Janeiro é uma cidade de favelas. E que o termo "favela" já está mais do que internacionalmente conhecido.

De lá, eles foram ao Porcão Rio's. Dá para imaginar o que eles sentiram, né? Amaram! Nunca viram tanta oferta de comida, de carne - principalmente - e de saladas. "Que buffet!", eles disseram. A conversa rolava em alemão, inglês e espanhol. Dá para imaginar tudo isso numa só mesa? Pois uma coisa que se aprende nestas horas é que quando o cérebro quer se comunicark, ele se vira. Você começa a misturar os idiomas, mas a conversa sai, pode ter certeza. Amaram também os sucos, e só queriam tomar sucos das nossas frutas nativas, e amaram também as sobremesas (mousse de maracujá, creme de papaia com licor de cassis etc).

Outra coisa que repararam é que, por aqui, pessoas mais velhas - como eu - estão usando aparelhos nos dentes! Muito incomum para eles, mas muito natural para nós. Repararam na quantidade de gente de aparelho. É mesmo, né? Está todo mundo colocando. O importante é ter os dentes bonitos (o meu é igual a esse aí do lado!).

Por fim, quando fomos levar um deles no aeroporto, descobrimos que, por ser casado com uma espanhola, o alemão fala a maior parte do tempo com ela em espanhol. Eu perguntei porque e ele me respondeu: "Conversas emocionais só podem ser feitas em espanhol, nunca em alemão"... É engraçado constatar que eles mesmo se acham um povo frio. Ele fêz questão de nos agradecer muito a hospitalidade e gentileza... e olha que a gente não fez nada...


O que me leva a constatar que:
BRASILEIRO É UM POVO MASSA MESMO!

terça-feira, agosto 26, 2008

Duas ou três coisas que aprendemos com estranhos

Esta semana, recebemos dois consultores internacionais na nossa empresa. Um deles é inglês e a outra, portuguesa, mas vive em Londres há muito tempo. Ambos são muito simpáticos.

Vieram ao Brasil pela primeira vez para participar de um evento como palestrantes e visitar nossa empresa. Mas, não tiveram a oportunidade de visitar nossas instalações.

Adoraram o que viram por aqui. Nós os hospedamos num hotel de frente para a praia de Copacabana (ponto para nós) e pusemos um carro à disposição deles - o que eu acho que foi mais um ponto para nós. É, acho que nós acertamos!

Os ingleses não conseguem entender muito bem essa nossa falta de pontualidade. Eles são realmente pontuais. Até se surpreendem com o quão amáveis nós somos, mas acho que preferiam que fôssemos menos expansivos e mais responsáveis com o horário.

Realmente, os ingleses são bem formais, é um tanto difícil "quebrar o gelo". Se eles são tímidos, então, é quase impossível abordá-los. E na hora de cumprimentá-los com beijos? Chega a ser curioso notar o susto que eles levam quando as pessoas começam a se beijar e a beijá-los (ao se conhecer ou se despedir). Ainda mais, quando rola um beijo em cada bochecha. (Mas um aperto de mão já não estava bom?)

Dentro deste contexto de formalidade dos ingleses, eles adoram seguir uma agenda e uma pauta. Se alguma coisa dá errado ao longo da reunião, parece que não há jogo de cintura - como temos - suficiente para mudar o plano. Mas, há que se reconhecer, a competência deles é impressionante.

Ah, e como eles são ansiosos! Acho que se eles tivessem que viver imersos no nosso "regime burocrático" (no sentido mais pejorativo da palavra), sofreriam um enfarto por semana. Imagina receber a autorização para uma viagem internacional na véspera de viajar, se as diárias na mão, nem o bilhete emitido! Um atraso na emissão das passagens gerou uma troca de mais de 30 e-mails em menos de dez dias! Acho que a gente só tem paciência com eles porque eles são estrangeiros e, com certeza, eles não nos entenderiam...

Mas, eles são como nós, curiosos! Afinal, somo todos seres humanos, não é mesmo? Se bem que há quem eu ache que ainda não evoluiu e continua irracional! Ao chegar no Brasil, quiseram conhecer o que era típico do nosso país: frutas, sucos, comidas, pessoas, lugares! Adoraram ir a uma churrascaria, que, muito bem escolhida, fica de frente para o maior cartão postal do Rio de Janeiro: praia do Flamengo, Baía de Guanabara, Pão de Açúcar, Ponte Rio-Niterói, Aeroporto Santos Dumont. Para qualquer lado que se olha, há história para contar. Além do rodízio de carnes - que hoje eu já acho uma coisa assustadora! - a paisagem os impressionou bastante. Ficaram fascinados! Pena que a foto que tiramos não tenha capturado tudo o que vimos, muito menos a emoção que aquela paisagem nos causou a todos!

O inglês voltou do banheiro, ou restroom, como ele mesmo frisou, encantado (ou seria melhor dizer, perturbado?) com um desinfetante que encontrou nos mictórios, na forma de cubos de gelo. Nunca vira coisa igual! Para ele, era como se houvesse descoberto a pólvora. Disse que em nenhum outro lugar do mundo, viu uma inovação dessas. Foi quando um dos convivas brasileiros acrescentou que também serve para evitar a molhadinha, o respingo... (e eu que nem sabia que ela rolava!)...

Ainda sobre banheiro, eles se assustaram quando conheceram nosso protetor de assento - muito comum em banheiros femininos. Não é que, lá pela tantas, fez-se questão de ressaltar que o buraco do tal protetor é em forma de coração (mas, será que isto é uma questão de design, ou o que se quer é passar uma mensagem calorosa com o produto?)...

A portuguesa se encantou com o mostruário de sobremesas. Ficou tão doida por uma mousse de maracujá, que queria comer aquela ali mesmo. Quando botou a mão, aproveitamos para lhes contar: é falsa! Veja que interessante nossas "false desserts"! O inglês rolava de rir, a portuguesa sentiu um misto de vergonha, por não ter percebido antes, e surpresa, pela peculiaridade (Brasileiro é tudo doido mesmo!).

Como curiosos e observadores que são, repararam que a tábua de queijos oferecida pelo hotel cinco estrelas em que fizemos nossa reunião não trazia um só queijo nosso - típico, popular, como o de Minas. Hotel chique só serve queijo italiano ou francês: provolone, cottage, gouda, gruyére... Que bobagem! Quando é que vamos entender que chique é valorizar o que é nosso? Os gringos já entenderam!

Provaram o guaraná Antárctica e se surpreenderam ao descobrir que se tratava de uma "gasosa de fruta brasileira" - uma bebida sem álcool, ao contrário do que pensavam.

Foram nas Sendas da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, e acharam o supermercado horroroso. Mas, ficaram surpresos em ver o sabão em pó OMO firme e forte na prateleira, a mesma marca, as mesmas cores. Segundo eles, esse sabão deixou de ser vendido na Inglaterra há trinta anos.

É difícil conversar com pessoas estranhas quando não se domina a sua língua, mas com um pouco de esforço, rolam umas "small talks", como eles dizem. Mas, para que esse relacionamento se desenvolva, não se pode ser apenas superficial. O caminho é árduo, mas possível.

Respeito, cordialidade, atenção e gentileza são palavras que, enfim, resumem o que aprendemos com eles. Daqui a pouco, vou aprender mais um pouquinho. Vou para a terra deles.