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domingo, junho 07, 2009

Uma frase

"Aprendi com as primaveras
a me deixar cortar para poder voltar inteira".

Cecília Meirelles

sábado, agosto 30, 2008

A cara da morte

"A cara da morte" é o título de uma coluna do jornal O Globo. Traz a relação das pessoas que morreram na cidade, quem elas eram, o que elas fizeram e o que fizeram com elas.

7:30. Hoje. Pegamos o jornal em busca de uma notícia que explique o que aconteceu ontem. Encontramos. O nome da vítima é Jami-Noá. Levou dois tiros. Foi operado e está estável.

18:20. Ontem. Estou no banheiro, pintando o cabelo. Escuto seis disparos. É tiro! Corro para a janela. Os vizinhos também estão na janela. Na rua, um carro preto e muitas pessoas em volta. Alguém foi baleado.

18:23. Ligo para o 190. Peço uma patrulinha, com urgência.

18:30. Chega a ambulância do SAMU (192). Alguém chamou, graças à Deus. As pessoas gritam, pedindo pressa. Ele está vivo, penso. Retiram o homem do carro. Sai de ré a caminho de algum hospital. Me dá vontade de chorar pelo que estam fazendo com a minha cidade.

18:35. Chega o carro da polícia. Perguntam, perguntam, investigam. Atentado? Tentativa de assalto?

19:00. Chega a imprensa. Muitos flashes. Fotos para os jornais e internet.

20:00. Olho pela janela e o carro não está mais lá. Tudo volta a uma aparente normalidade.

7:35. Hoje. Leio no jornal que a vítima tinha acabado de pegar o filho de sete anos na escola e que ele estava no carro. Fico apreensiva com o que vai ser da cabeça desse menino. Sinto o medo que ele sentiu percorrer o meu corpo.

Mais tarde, lembro de Cazuza: "eu vi a cara da morte, ela estava viva..."

sexta-feira, novembro 23, 2007

Tsunami

As coisas estavam mudadas. Era como se a Terra tivesse levado dois anos para dar a volta ao redor do Sol. O tempo estava meio congelado, lento, devagar.

Durante esse período, ela sofrera com as mudanças inconstantes das marés, alterando sua regulação hormonal. Esteve duas vezes muito próxima do outro lado: como o bêbado que entrega a sua vida ao desequilíbrio no parapeito do terraço no alto do edifício, ela entregara a sua ao mesmo anestesista, fornecendo-lhe uma aura mística que ele não pedira, mas insistindo em debater-se como alguém que é quase um "herói da resistência".

Se em momentos de maré alta, ela fortaleceu-se, revelando-se uma mulher guerreira e corajosa, nos de maré baixa, ela surpreendeu-se e quase entregou os pontos. Entretanto, agora ela sabia que a grande onda estava de volta, feito tsunami, a devastar com a sua energia o que encontrasse pela frente.

Parte de um oceano sem memória, mas imponente e inebriante, a onda dificilmente a reconheceria. Não se lembraria que havia passado por ela há dois anos e levado tudo que ela possuía, deixando-a viva para assistir à reconstrução do mundo. Ela se perguntava se seria poupada, se a ela seria concedido o direito de sobreviver à onda, a chance de ver o desastre e ser imune a ele novamente. Se, ao menos, sofreria menos ao ver a morte alheia.

Ela sabia que o medo paralisa, mas, como dizia Vinicius, era preferível viver que ser feliz. O ritual era sempre o mesmo, havia um toque de sedução no ar, um cortejo, como que se fosse a preparação para aquela iniciação. A onda era tão forte, tão poderosa, ao mesmo tempo devastava, mas deixava saudade. Ela sentia arder dentro de si a energia. Como se pedisse a sua volta.

O dia da grande onda estava quase chegando. Só ela, como uma das pouco sobreviventes, havia recebido os sinais, havia sentido sua presença. De repente, a lua cheia se firmou no céu, deixando a todos mais sensíveis e abertos às mudanças, criando um clima de quase devoção àquela luz. No horizonte, só se podia ver a retração do mar.

Ela parou em frente à praia e abriu os braços. A brisa da noite enluarada envolveu-lhe o corpo. Pisou a areia úmida e esperou.

E, em segundos, em pleno janeiro de Capricórnio, sem medo, sem dor, sem razão, ela que sempre sonhou com o mar, olhando para aquele paredão de água salgada, entendeu o mistério da vida...