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segunda-feira, janeiro 11, 2016

Uma busca (im)possível



Acabar um relacionamento nunca foi fácil para ela. Mas sempre foi mais fácil quando o relacionamento não era lá tão importante. Nessas horas, o ex-namorado virava amigo. E permanecia na vida dela, como aquelas pessoas interessantes que um dia deixaram uma lembrança boa, mas nada além disso.

Terminar um relacionamento onde havia muito amor envolvido, aí sim era difícil. Porque quando há amor, a gente não quer mesmo que acabe. Os relacionamentos eram interrompidos, mas o amor estava lá. Ficava uma ferida aberta, que só o tempo era capaz de apagar.

Curioso que em tempos pré-redes sociais, o contato simplesmente deixava de existir. Bastava que se esquecesse o telefone, ou deixasse de ir aos lugares frequentados pelo casal, a pessoa desaparecia. Era até engraçado quando ela se dava conta de que não via mais, de que não tinha mais notícia. A memória daquela pessoa tão amada ia desaparecendo. Primeiro, ela percebia que sumia a voz. Depois, o cheiro. Aí o rosto começava a esmaecer. Mesmo com todo o amor do mundo.

Encontrar alguém que decidia sumir por livre e espontânea vontade era algo quase impossível. Tarefa para investigador particular, muita grana, muito tempo investido.



 
Agora não. Você pode terminar com alguém e continuar tendo notícias dela. Você encontrar qualquer um facilmente, basta ter um pouquinho de inteligência. Mas, nem precisa isso. Já que todo mundo está conectado, e a teoria dos seis graus de distância entres as pessoas parece não mais se aplicar nos dias de hoje, é como se o mundo fosse uma ilha. Se o cara arruma outra, o seu mundo cai em dois tempos. Por isso, ela foi se tornando especialista em reclassificar os “amigos” nas redes sociais, de modo a tirá-los da pauta.

Melhor não ver do que saber. Afinal, os tempos mudaram, mas o ditado continua o mesmo: “o que os olhos não veem, o coração não sente”. E como se pode ser o que quiser numa rede social, a ideia das máscaras tornou-se cada vez mais forte para ela. Era como uma sensação: a pessoa está ferrada, deprimida, angustiada, mas sua vida é um “céu de brigadeiro, um mar de almirante”!

Por isso, a busca pela verdade acabou por se tornar uma missão (im)possível. O que é verdadeiro nos tempos de amor líquido? O que passa na cabeça daquele que evapora da sua vida? Vontade de não se envolver? Está feliz ou triste com a decisão? Não tem como saber... Ela ainda busca a fórmula do amor... Quem sabe um dia?


domingo, janeiro 12, 2014

Solidão


nunca se sentiu tão só.

Dez dias haviam se passado desde que recebera aquela carta, na qual ela revelava todo o seu amor, bem como o sofrimento que havia passado tentando ser apenas sua amiga a vida inteira. Dez dias nos quais tudo havia mudado: a forma como pensava nela, o modo de vê-la, o jeito como ele próprio enxergava a si mesmo.

Será que havia estimulado esse sentimento em algum momento? Será que tinha dado a ela alguma esperança de que a relação deles podia ser diferente da amizade que sempre tiveram?

Ao mesmo tempo, sentia que tinha rejuvenescido uns 30 anos com aquela carta. Na sua idade, saber que havia uma mulher inteligente e bonita apaixonada por ele era realmente um bálsamo rejuvenescedor. O que ela tinha escrito, da forma como tinha escrito, com tanta emoção, tanta paixão, tornou-o bastante invaidecido. Sentia pena por não poder viver isso, não ter como retribuir tanto amor.

Passados dez dias, ela ainda permanecia em seu pensamento. A pergunta maldita que a torturava todo esse tempo ("E se...?"), passava agora a torturá-lo também. "E se minha vida fosse com ela, como seria? E se eu tivesse tentado quando pude? E se...?"

Tentava pensar num meio de contatá-la, de se reaproximar dela, pois gostava dela, não a queria longe como ela pedia, tinha vontade de tê-la ao seu lado, mas parecia impossível. Era como se ela tivesse fechado novamente uma porta entre eles, e não quisesse mais abrí-la.

Mas, ela tinha deixado uma brecha ("não me chame; se você chamar, não sei se consigo resistir")... E se ele pudesse usar esta brecha? Até onde teria que ir para tê-la ao seu lado?

Vivia corroído pelas dúvidas, e temia compartilhar com alguém essa história e ser mal compreendido. Tinha agora uma ideia do que ela tinha passado todo esse tempo. Procupava-se com ela, mas tinha medo de que qualquer passo seu fosse mal visto. Até por ela.

Nunca se sentiu tão só.

sábado, janeiro 11, 2014

Amor, estranho amor - parte 4

estamos só nós dois aqui.

- Peraí, peraí... está tudo muito bom, mas você não pode sair me agarrando desse jeito depois de ficar meses sem nem bem falar comigo... Primeiro você vai ter que me explicar o que que houve, caso contrário, eu vou ficar maluca, ou achando que você é bipolar...

- Tá bom, eu vou explicar, estou aqui pra isso... Só não sei se você vai gostar, Bia...

- Qualquer explicação é melhor do que nada, Marco, e o seu comportamento esses meses todos foi muito estranho... eu chegava perto, você fugia, ou fingia indiferença... Como é que agora vem me beijando e diz que está com saudades?

- Mas, eu estou mesmo. Estava louco para ficar assim... sozinho com você... Você não estava?

- Sim, mas eu quero que você diga o que aconteceu, diz logo...


Marco parou para pensar nas palavras, na forma como ia dizer a Bia que foi orientado pelo chefe a se afastar dela. Como ia dizer a Bia que estava preocupado com a carreira, que o cara tinha induzido ele a pensar que caso se mantivesse próximo passaria a constar no hall dos "desprezíveis" e que, provavelmente, isso tinha origem num ciúme danado que o chefe tinha dela? E que a maioria dos colegas creditava a este sentimento todos os benefícios, promoções e viagens que ela tinha conseguido ao longo dos anos...? Engasgou, tossiu, ficou com a boca seca...

- Tá bom, eu vou dizer... mas, antes, vem aqui...

E puxou Bia novamente, dando-lhe outro longo e demorado beijo,...

A tarde estava só começando...



Continua na parte 5.

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Quero mais de nós dois...

 
tudo é muito pouco...




Quero seguir calada por todo o caminho enquanto você dirige.
Por favor, não, não liga o rádio.
Quero te ouvir respirar.
Fraco ou forte, calmo ou afobado.
Quero sentir você, entrar na mesma vibração, ouvir teus pensamentos,
comungar da mesma energia.
Quero memorizar teus movimentos e
também o caminho que fazes.
Para que depois, na minha lembrança - dos momentos escassos e
efêmeros que vivemos juntos -, esse seja o nosso caminho.
Quero que essa seja uma lembrança tua também.
Quero torcer para que, mais uma vez, eu mereça
o seu toque, a tua mão na minha mão, nos meus cachos,
o teu rosto no meu rosto, a tua boca no meu pescoço.
Quero ficar com teu perfume impregnado no meu corpo.
E sem dizer nada, quero que você sinta o meu coração
acelerar nessa hora.
E que você perceba que você é o meu homem,
tão esperado, tão desejado, tão inexplicavelmente meu.
E mesmo sem saber o que você fará quando se der conta disso,
quero que você saiba que sou tua, completamente tua,
até que chegue o momento de descer do carro
e te deixar seguir.



-- 30 de setembro de 2011.


quarta-feira, outubro 09, 2013

Sem fôlego

Uma batida no vidro, alguém me diz, "é pra você", e era você... ali, do outro lado, despencando-se do outro lado da cidade só pra me ver, do lado de fora do restaurante.

A vida é mesmo uma caixinha de boas surpresas... que nos deixa sem fôlego, às vezes.

Ganhei meu dia!


Difícil nesta vida é não morrer de ilusão... ou desilusão!

sábado, janeiro 26, 2013

Sopro...

Você veio com força, com a força de sempre. Se na memória estava a primeira tentativa, na qual a porta encontrou um pé, um braço, um corpo dizendo "não", desta vez você veio preparado para abrir. Forçou tudo que havia pela frente e entrou.



Deixaram você entrar.

Veio com fome, querendo tudo que você achava que lhe era de direito: queria o corpo, queria a alma, queria o coração, principalmente. Estava disposto a jantar aquele coração pulsando arrebatado por você numa baixela de prata sobre a mesa, como um viking voraz.
 


Queria as noites estreladas, queria o sol inundando a vida de luz, queria tempestade para florescer os campos, queria guerra, queria paz... Já não se importava em nominar o que sentia, como ela...

E com voracidade e beleza, foi cuidando do que achava que era seu. Aos poucos, pareceu indispensável. Quem deixou você entrar passou a temer que você quisesse sair. E se quisesse?



 
A vida é mesmo uma caixa de surpresas, nunca se sabe que ideia se pode ter para o próximo intervalo: levantar, fazer uma pipoca, tomar uma água? Que dirá manter-se junto uma vida inteira.

Enquanto você quis, dominou a cena, foi protagonista. Naquele quarto úmido, no qual odores de suor misturavam-se aos perfumes do amor que você plantou, viveu feliz o tempo que quis, o quanto quis. Quando ela percebeu que não adiantava tentar controlar o tempo e que a decisão não era dela. Então, esperou pelo desfecho final, o encaminhamento da fita, com trilha sonora e tudo... sabia que não podia com você.

Deixaram você sair.


E com a mesma voracidade que chegou, você saiu. Foi breve. Intenso, mas breve. E deixou um cheiro perverso e inebriante de almíscar no ar.




Música do dia: "Lovesong" - Adele

quinta-feira, julho 19, 2012

Verdade?

Não são fáceis, nem críveis as paixões. São frutos de memórias afetivas, de expectativas, projeções. Por isso, é difícil saber o que é verdade, o que não é. Alguém, inadivertidamente, pode sentir algo não correspondido e jurar pra todo mundo ouvir que o é.  Alguém pode jurar que ama um tipo que é de um jeito enquanto todo mundo o sabe muito diferente. Pode?


Conexões não justificam os fatos, apenas reforçam as dúvidas. Afinidade não é algo fingido. É conquista. Se mergulhar no mar do amor é um desafio absurdo, que dá medo, mas traz enorme satisfação para a vida, e para a alma, tenho certeza que isso é o que quer a maioria. Quer o que não é normal, quer o que os tira do sério, quer o que descompensa, e faz parecer flutuar. Verdade?





Música do dia: Pensando em Você - Moska

domingo, junho 28, 2009

Seu olhar



Seu Olhar
Paulinho Moska
Composição: Paulinho Moska / Suely Mesquita

Gosto quando olho pra você
Gosto mais quando seu olho vem
Na direção do meu
Na direção do meu
Na direção do meu

Gosto ainda mais quando esquecemos
Onde estamos e olhando em volta escolhemos
A mesma coisa pra olhar
A mesma coisa pra olhar
A mesma coisa pra olhar

Gosto quando olho com você o mundo
E gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você
Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você
Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você

Na direção do meu
Na direção do meu
A mesma coisa pra olhar
A mesma coisa pra olhar

Gosto quando olho com você o mundo
E gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você
Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você
Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele com você

Gosto mais do mundo quando posso olhar pra ele...com você

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Obrigada, Paulinho. Eu nem preciso dizer mais nada.

domingo, junho 14, 2009

Para os que passaram o Dia dos Namorados 'de bode'

Eu sei, eu sei, ficar sem namorado nesta época é dureza. Eu mesma já sofri muito nesta data, olhando os apaixonados na rua e pensando: por que não eu?

Mas, o destino da gente é a gente que escreve, não é mesmo?

Pensando nisso, eu me lembrei de uma música que eu amo, e quis oferecer para vocês, não para deixá-los tristes, mas porque ela diz que é assim que o rio corre... temos que deixar o rio correr, não apressá-lo!



Fiquem bem!

(Re)começo

Os personagens

Ela – trinta e poucos anos, casada, carreira em ascensão, sem filhos, do signo de gêmeos

Ele – dez anos a mais que ela, recém separado, carreira estagnada, uma filha adolescente, do signo de capricórnio



[Hora do almoço no hall]

Ela acabara de ultrapassar a roleta em direção à saída do prédio. Já passava das 13 horas e ela ainda ia almoçar com mais três amigos. De repente, ela o viu entrando. Suado e com os cabelos molhados e desalinhados, ele parecia haver corrido uma meia maratona. Enfrentar o centro da cidade na hora do almoço, sol à pino, era mesmo tarefa para heróis.

Ele também a viu. Quando os olhos deles se cruzaram, ambos abriram-se em sorrisos largos e francos, porém nervosos, quase que instantaneamente. Seu sorriso é o que há de mais bonito nela, ele pensou. Com esse sorriso, sou capaz de largar a família, foi a vez dela sonhar acordada.


Ele piscou para ela, dando a entender que estava feliz em vê-la. Ela respondeu, apenas movendo os lábios, num abrir e fechar que dizia: “Quero falar com você hoje”. Não havia voz naquela fala, talvez como forma de manter a conversa só entre eles, no meio daquela gente toda. Ele entendeu e assentiu, compreendendo sua discrição. Agiam como se não houvesse mais ninguém ao seu redor, sem perceber que muitos prestavam atenção neles. O amor é mesmo fogo que arde sem se ver...

Ela venceu, então, a porta de saída e foi absorvida pela onda de calor que emanava do asfalto e das calçadas. Ainda estava inebriada com a visão daquele homem. Agia como uma atriz que não sabia muito bem qual era o seu papel, nem qual o perfil de seu personagem: ora uma “balzaquiana romântica”; ora uma mulher doida, capaz de fazer qualquer coisa para estar com aquele homem por quem havia se apaixonado, quando eles ainda eram casados. Lá ia ela caminhando distraída, alheia aos amigos, perdida num julgamento no qual era ré e juíza.


[O almoço no restaurante]

Os três amigos que a acompanhavam no almoço pouco perguntaram sobre o episódio, apesar de haverem presenciado toda a cena. Alguns se detiveram a falar sobre alguns poucos detalhes, baixinho entre si; outros chegaram a sentir o que ela sentiu, praticamente na mesma freqüência acelerada do coração prestes a sair pela boca e do sangue a esquentar descontroladamente.

Enquanto comiam, pouco se falaram, esboçando apenas algumas opiniões sobre assuntos de trabalho, decisões mal tomadas, algo sobre o futebol do final de semana, sabendo de antemão que ela estava presente à mesa, mas, em espírito, estava muito longe.

Olhando para ela, podiam ver seus olhos vidrados num infinito distante que a impedia de participar da conversa com a empolgação que lhe era peculiar. Sabiam que ela estava vendo e revendo a tal cena naquele outro plano, alheia ao que se passava entre eles.

Na volta, um deles, o mais íntimo, arriscou perguntar um “o que foi aquilo no hall do prédio?” para o qual ela não respondeu. Ela simplesmente sequer o ouviu.


[À tarde no escritório dela]

Pensar naquele homem era a maior tortura mental, algo com o que ela não sabia como lidar. Pior do que vê-lo, era ainda enfrentar o seu sorriso e o seu olhar de desejo. Já se iam meses desde que aquilo começara, e ela ainda não conseguia encarar seus sentimentos de frente.

Trabalhar depois daquele breve episódio no hall ia ser, com certeza, a tarefa mais árdua do mundo. O que ela queria ali, naquele momento, era vê-lo de novo. Tentou desmarcar as reuniões que estavam agendadas para aquele período, livrou-se de uma. Na outra, fez um esforço danado para manter-se atenta a tudo que estava sendo discutido e decidido, mas perdeu um ou outro acordo feito.

Ao retornar a sua mesa, duas ligações perdidas no celular. Dele.


[À tarde no escritório dele]

Há muito tempo ele não se sentia tão inseguro na presença de uma mulher. Foram 20 anos de casamento, 10 deles sentindo-se um morto-vivo, alguém de quem a vida se esqueceu, sem prazer, sem tesão, sem amor. Após o divórcio, além de cultivar uma tremenda ojeriza à sua ex-mulher, havia se envolvido com algumas mulheres: às vezes, só para exercitar seu poder de sedução e sentir-se em forma; noutras, para sentir-se vivo, pura e simplesmente.

Mas, com ela, tudo parecia diferente. Era intenso e bonito, porque parecia verdadeiro. Era verdadeiro, ele sabia que era. Era um pouco daquela sensação pela qual ele vinha ansiando, desde que o mundo começou a desmoronar a sua volta. Só que ele já não acreditava na possibilidade de aquilo se concretizar. Quase como um adolescente, ele não conseguia falar o que queria daquela mulher, para aquela mulher. Será que ela também se sente insegura ou está só brincando comigo?

Eu preciso dizer a ela o quanto eu gosto de vê-la, o quanto eu a quero perto de mim... que ela dê adeus ao seu casamento, mande seu marido às favas..., ele pensou. Buscou seu número no celular, chamou por ela, mas nada, entrou na caixa postal. Não vou deixar recado, tento de novo mais tarde.

Meia hora, 2 cafezinhos, 1 copo d’água e um papo bobo com o colega do lado depois, ele tentou de novo. Nada. Mas que almoço demorado! Onde será que ela foi?, ele sentia uma estranheza por não conseguir controlar a situação. Pela primeira vez era assim.

O chefe chamou para uma reunião de emergência. Ele sabia que esse final de dia ia ser difícil. Muito difícil.

[Na sala do chefe dele]

- Você sabe que eu tenho reparado muito no seu trabalho, e identifiquei em você a pessoa certa para aproveitar uma excelente oportunidade. Trabalhar no exterior, que tal? Acho que você vai gostar, proferiu o chefe.

Ele, que estava esperando por esta proposta há muito tempo, ficou sem jeito de responder, pensando no tanto que ainda queria falar com ela. Ele esboçou uma resposta para o chefe, quando, de repente, seu celular tocou... era ela.

- Oi, pode falar? Você me ligou?, ela perguntou.

- Sim, mas agora estou numa reunião. Posso te ligar depois?, ele disse.

- Pode, mas não deixa para amanhã. Quero te ver hoje ainda.

O chefe falou dos detalhes da viagem, disse quando ele partiria, do que ficaria responsável e o quanto teria que abdicar de sua vida pessoal pelo trabalho, mas lembrou que seria por uma boa causa. Depois de duas horas discutindo os detalhes do trabalho, saiu e foi direto para o corredor.

[O telefonema]

- Oi, sou eu. Você está livre agora?, ele perguntou.

- Mesmo se não estivesse... posso te encontrar em 45 minutos. Você me espera?

- Espero, ele respondeu, te espero naquele café que costumamos ir. Pode ser?

- Pode, daqui a pouco estou indo pra lá.

[No café]

- Oi, até que enfim você chegou. Estava ansioso. Senta, tenho uma coisa para te contar.

- O que é? Assim você me deixa nervosa. Fala logo.

- Eu vou ser expatriado. Viajo no final do mês para procurar um apartamento. Tenho dois meses para resolver tudo e me instalar lá.

Ela ficou muda de tão decepcionada. Adorava ele. Adorava estar com ele. Não queria que ele fosse embora. Não agora.

- Que bom pra você, fico feliz..., ela disse, disfarsando a decepção.

- Você vai dar um jeito de vir comigo, não vai? Nem que seja por um tempo. Três meses, que tal? Temos que pensar em alguma coisa...

- Eu? Com você? Como? Com que justificativa eu ficaria com você três meses?

E se enchendo de coragem, ele disse: - Ah, não sei, pensa em alguma coisa, um trabalho, seu chefe. Pensa. Você não quer...?

De repente, sem pensar nas consequências dos seus atos, ela se aproximou dele, passou o braço por sobre o seu ombro e o abraçou forte. Roçou seu rosto no rosto dele, nariz com nariz, e ele se virou a ponto de encará-la bem de pertinho, a boca quase colada na dela, respirando junto... e ele repetiu: Você não quer?

Ela quis, e com um beijo quente, apaixonado, sedento dele, ela disse que queria, que ia pensar em alguma coisa. E sem se dar conta do tempo, sem ligar para o celular ou para o relógio da parede, amanheceram juntos e ali souberam que não mais seriam o que foram até então.

[O (re)começo]

A grande virada se deu numa noite de outono, na lua cheia de junho, sob os lençóis de um quarto de hotel no centro da cidade. Ela largou tudo, deu um jeito na vida, no trabalho, mudou hábitos, tornou-se outra.

E juntos, já viveram em vários países, com a paixão de sempre, o carinho de sempre, e a urgência dos grandes amantes.

______________
* Essa história é para aqueles que acreditam que o amor existe e que nunca é tarde para começar de novo. Mesmo que ela não seja verdade.

domingo, abril 26, 2009

O jogo - making of

Já deu para perceber que eu adoro escrever, não é mesmo? Escrever esta história foi uma experiência realmente bacana, porque me permitiu resolver uma série de questões internas que os anos de análise não haviam servido para tratar. Trabalhei os meus medos, os meus desejos, as minhas dificuldades, meus dilemas afetivos e, sinceramente, pude colocar um pouco de mim em cada um dos personagens.

A Tamara, personagem principal da história, era uma moça ingênua que acreditava no amor, que transava por amor - apesar de alguns leitores incentivarem uma postura motivada pela transa, pura e simplesmente - que queria muito encontrar o seu par. Naquela época, ela buscava ardentemente por alguém que a completasse e com quem ela pudesse construir uma vida. Não foi dessa vez, infelizmente, mas ela nunca deixou de tentar. Não havia na Tamara a segurança de uma mulher que já passou pela fase 'balzaquiana': ela era frágil demais emocionalmente para se aventurar a ser uma 'bad-girl'.

Ao João, eu destinei o perdão. Dei a ele o perdão por tudo que ele não disse, por todas as vezes que ele relegou a Tamara com um profundo e lacônico silêncio (como diz a minha irmã), daqueles que doem por dentro, justamente pela indiferença, ou pela incapacidade de dizer alguma coisa que demonstre afeto. Já que muitas vezes o João não disse nada, desta vez eu o fiz dizer. E mesmo no meio das suas dúvidas, ele foi sincero. Ele não sabia mesmo o que fazer e continuou a viver a vida sem saber o que fazer. Sempre foi e sempre será um perdido.

A Cecília também foi um personagem forte, que carreguei nas tintas do cuidado fraternal, quase maternal. Ela tem o excesso do carinho e do zelo de quem não tem importância pro outro e vive buscando uma maneira de se fazer presente. Ela cuida, mas não é cuidada. Ela ama, mas passa desapercebida. Ela é boa de coração, mas espera demais. Talvez, vivendo em Salvador e com uma família só dela, ela já tenha evoluído em alguma coisa.

Os outros dois personagens, para lá de coadjuvantes, são os estrangeiros. Eles foram os 'malas' da história, os caras chatos, inconvenientes, que ficam o tempo todo ocupando os computadores como se só eles tivessem o direito de usá-los e que se fazem de vítima e de coitados para que seus pedidos, por mais estapafurdios que sejam, sejam atendidos. Não que eu considere todos os estrangeiros assim - é claro que eles não são assim. Só que neste caso, os estrangeiros eram 'malas' mesmo, e sem alça.

Eu fui um pouco 'mala', um pouco perdida, um pouco desastrada nos meus afetos, um pouco afobada, um pouco mais segura, enfim, fui um pouco de tudo que eu escrevi nesta história, de todas as características que imprimi nos personagens. Tratei de me divertir muito cuidando da continuidade do texto e de escrevê-lo sempre - o máximo possível - no tempo presente, de modo a torná-lo interessante aos leitores que acompanhavam a história. Não sei quantos estavam lendo e se gostaram. Pelo menos, não recebi nenhum comentário indignado neste meio tempo.

Já tenho uma história nova na cabeça. Mas, agora, meu desafio será torná-la mais interativa. Vocês me ajudam?

Abraços e até a próxima!

domingo, outubro 26, 2008

Apenas amigos

Ontem, tive insônia novamente, e o sono só veio às 4:35 da manhã. Fiz o que os médicos recomendam, não fiquei na cama. Hoje, coloquei o despertador para às 9:00 da manhã, para me forçar a levantar cedo e consequentemente, ter sono cedo. Fiquei o dia inteiro brigando com o sono, mas resisti.

Mas, de madrugada, zapeando pela tv, me deparei com um daqueles filmes água com açúcar americanos, acho que no Telecine Light, chamado "Apenas Amigos". A cena era de um gordinho que tentava se declarar para sua melhor amiga, era rejeitado, saia da cidadezinha onde morava, pequenina, e dez anos depois, estava gatérrimo, se dando bem com modelos e atrizes em Los Angeles. Você já viu esse filme? Não? Ah, mas com certeza deve ter visto alguma coisa parecida.

O filme não era lá grandes coisas, mas ajudou a me entreter. No entanto, eu fiquei pensando nesta história. Acho que todo mundo, alguma vez na vida, já deve ter se apaixonado por um grande amigo(a) e ter ficado sem jeito em se declarar. Talvez seja pelo medo de perder a amizade, quando ela é algo que vale à pena.

O próprio Cazuza traduziu este sentimento muito bem quando escreveu, junto com a Bebel Gilberto e o Dé, a letra de "Preciso dizer que te amo", música que eu adoro!

Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo, que medo

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo
Tanto

E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo

É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo, tanto

Eu já nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando em cada riso teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira

Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo, tanto

Muitos gravaram esta música: Cássia, Marina, o próprio Cazuza... ela já embalou muitas noites em claro...

Agora, por que nada funciona quando se trata do melhor amigo? Por que os truques não dão certo, por que ele não cai na tua lábia? Por que é tão difícil dizer o que se sente e todas as teorias parecem idiotas? Acho que a resposta é: porque ele te conhece! Ele sabe quem você é! Ele já te viu tão de perto que às vezes não enxerga o que você está tentando mostrar.

Tem horas que desencanta, e o amor acontece, noutras, parece que você caiu numa teia de onde não vai conseguir sair. Nestas últimas, o tempo é o melhor remédio mesmo. Faz a manutenção da amizade, de repente pinta outro lance e aquela paixão toda passa.

Agora, se não passar, lembre-se que uma reposta negativa você já tem. Um "eu te amo" pode sempre pintar se você se lançar rumo a este futuro desconhecido!